Mapas do Destino

Kiev, 2014. Larah Yang, fotógrafa e estudante de jornalismo, registra com sua câmera a Revolução Ucraniana — pneus em chamas, tiros do Berkut, voluntários transformando uma catedral em hospital. Ao lado de Katya e Sasha, ela testemunha o massacre da Rua Instytutska. Mas uma enfermeira a reconhece: "Você se parece com sua mãe." A mãe que Larah sempre ouviu dizer que morreu no parto. Entre o caos da guerra e a obsessão por respostas sobre seu passado, ela descobre diários de 1994 em Donetsk — e um segredo que seu pai enterrou há vinte anos.

Larah Yang — O Dia em que o Chão Tremeu

Kiev  •  18/02/2014

Saí da Universidade Nacional Taras Shevchenko junto com Katya e Sasha. Nossos olhos estavam colados nas atualizações frenéticas do Twitter. Nos corredores da KNU, o vazio era quase total — a maioria dos estudantes já havia descido para o centro. Desde novembro, o Maidan havia se tornado o nosso verdadeiro endereço.

Katya aproximou o rosto do meu ouvido, a voz abafada pelo vento gelado:

— Hoje vai ser diferente. O Berkut recebeu ordem de avançar.

Se tiver feridos, a gente vai precisar de mais gente treinada lá embaixo. Eu levo o kit que eu trouxe da faculdade.

Descemos apressados antes que o governo bloqueasse os acessos ao metrô. No vagão, o silêncio era sufocante; ninguém falava, mas todos compartilhavam o mesmo medo. Quando emergimos na estação da Praça da Independência — o Maidan —, o ar já cheirava a borracha queimada e tinha gosto metálico.

— É cheiro de pólvora — disse Katya.

— Se começar a arder muito na garganta, respira pela boca e não força a tosse.

A câmera pesava no meu ombro. Encaixei a lente 35mm, coloquei a abertura em f/1.4 — o corpo da Nikon D800 firme nas minhas mãos. Desde que cheguei a Kiev, entendi que a melhor forma de compreender aquele país era através do vidro daquela lente.

Ao subirmos as escadas em direção à superfície, ouvimos o estrondo. Não eram apenas os tambores da resistência. Eram explosões secas, cadenciadas. O som ecoava pelos túneis como trovões presos nas entranhas da terra.

A praça não era mais a mesma. Colunas espessas de fumaça preta manchavam o céu cinzento de Kiev. Na direção do Parlamento, o barulho era ensurdecedor. Um rapaz com o rosto coberto de fuligem e o braço ensanguentado passou correndo por nós e gritou:

— Vony strilyayutʹ boyovymy. Na Instytutsʹkiy ye vbyti!

As palavras dele entraram em mim como um soco. Eu sabia o que aquilo significava.

Katya já tinha dado um passo na direção dele, os olhos fixos no braço ferido. Segurei o braço dela.

— Não dá tempo — falei.

Ela hesitou só um segundo, antes de nos seguir.

O corpo não obedeceu ao instinto de recuar. Fomos empurrados pela multidão que, em vez de fugir, avançava para reforçar as barricadas. Homens carregavam pilhas de pneus nos ombros; mulheres idosas distribuíam pão e chá quente aos voluntários.

Foi quando vi uma enfermeira voluntária de cerca de cinquenta anos ajeitando uma maca. Nossos olhos se encontraram, e ela ficou paralisada por um instante — todo o ruído da praça emudecendo entre nós duas. Havia naquele olhar um choque profundo que me arrepiou a espinha.

O obturador fez clique. Antes que eu pudesse respirar, ela virou as costas e voltou a socorrer os feridos.

Em meio ao caos, o Piano de Maidan continuava lá. Havia sido colocado no centro da praça semanas antes — o símbolo mais belo e absurdo daquela revolução: a arte e a civilização resistindo cercadas pelo caos. Um homem de óculos e jaqueta escura sentou-se diante das teclas e começou a tocar. As notas ecoavam entre os estouros, transformando o pânico em um réquiem improvisado.

Ergui a câmera, compensei a luz baixa da fumaça e capturei: as mãos dele sobre as teclas brancas, o reflexo do fogo no verniz, a neve suja aos seus pés.
E então o cerco fechou.

O Berkut — a tropa de choque — avançou numa parede impenetrável de escudos pretos e capacetes reluzentes. Os relatos que chegavam eram fragmentos de horror: barricadas rompidas na Rua Hrushevskoho e a Casa dos Sindicatos tomada pelas chamas.

Uma granada de efeito moral explodiu perto de mim. O clarão ofuscante e o deslocamento de ar me jogaram ao chão. Sasha se lançou sobre mim, cobrindo minha cabeça com o próprio corpo:

— Não levante a cabeça! — gritou ele em meio ao estrondo.
O medo me atravessou como um choque elétrico — tudo passou a se mover em câmera lenta.
— Não esfreguem os olhos se for gás! — gritou Katya, a voz chegando embaçada, como se viesse de muito longe.

Por entre as pernas da multidão, vi a linha de choque avançando com precisão militar. Atrás deles, homens armados com tacos — os titushky — atacavam os manifestantes caídos.

Sasha me ajudou a levantar e sair dali.

O chão tremia. Não era terremoto; era o peso de milhares de botas correndo, de pneus em chamas e de coquetéis molotov explodindo contra os blindados. O céu virou um mosaico alaranjado e sufocante. A fumaça queimava a garganta, mas eu voltei a registrar tudo com a câmera.

Foco no rosto de um homem segurando um escudo com o brasão da Ucrânia. Foco nas mãos de uma voluntária aplicando torniquetes na neve. Foco no capacete de construção amarelo abandonado na fuligem. Foco nos braços dos voluntários puxando uma garota ferida para trás do ônibus carbonizado.

Lembrei quando Claire me disse: "Você precisa aprender a olhar." Eu tinha quinze anos, e naquele instante, no meio da praça em chamas, eu finalmente entendi:

Olhar dói. Testemunhar dói. Mas fechar os olhos é muito pior.

A noite caiu e a temperatura despencou, mas nem o Berkut e nem a praça recuaram. Fogueiras foram acesas por toda parte, lançando faíscas que pareciam estrelas subindo na escuridão.

Sentei-me no chão congelado, com as costas apoiadas num pneu queimado. As imagens daquele dia estavam na minha câmera, mas não saíam da minha cabeça.

O piano. O avanço da tropa. As mãos ensanguentadas na neve. O rosto assustado de Katya. A determinação de Sasha. O rosto de um homem sendo carregado por quatro voluntários.

Ao meu lado, Sasha olhava fixamente para a tela do celular, a luz fria iluminando os rastros de fuligem em suas bochechas.
— Vinte e dois mortos — murmurou Sasha, a voz quase sumindo na fumaça.

A versão contida de quem queria minimizar o massacre. Mas eu sabia que as estatísticas mentiam. Números não choram, não sangram e não deixam saudades. O meu trabalho não era transformar aquilo em estatística — era fazer o mundo ver, através da minha lente, a verdade que os relatórios tentavam esconder.

Katya me entregou uma caneca de chá, segurou meus ombros e disse:
— Você não parou de fotografar nem quando a gente quase morreu. Isso é coragem ou teimosia?

Não esperou resposta.

— Vamos. A gente precisa sair daqui antes que a polícia corte a última rota de fuga.
O Maidan não era mais apenas uma praça; era uma ferida aberta na história, e eu estava ali, respirando aquela fumaça e ouvindo aquele réquiem teimar em soar.

Aquilo não era o fim. Foi o começo de algo que ninguém ainda sabia nomear. Com a câmera guardada junto ao calor do meu peito e os olhos ardendo de pólvora, compreendi que não existia neutralidade possível. Eu não era apenas uma estudante de jornalismo — estava testemunhando algo inaceitável.

◆

Larah Yang — O Olhar do Outro Lado da Lente

Kiev  •  18/02/2014

O cheiro de pólvora não saía das minhas narinas. Não era só a fumaça que eu aspirara por horas — era algo metálico e denso que se impregnara na pele, no tecido grosso do meu casaco e no fundo dos meus pulmões. O som dos estouros ainda vibrava na minha cabeça em estalos contínuos.

Minhas pernas pesavam pelo cansaço do dia inteiro em pé. Sasha e Katya vinham ao meu lado num ritmo rápido, quase mecânico. Ninguém falava nada, mas a direção era clara: estávamos nos afastando do Maidan antes que as forças de segurança fechassem o cerco completo. A fuligem cobria o rosto de Katya, e o cabelo loiro dela estava colado na testa por uma mistura de suor frio e neve derretida.

Paramos na esquina da Rua Mykhailivska, onde as cúpulas douradas do mosteiro brilhavam sujas de fumaça contra o céu. Sasha esfregou a testa com as costas da mão suja, a respiração pesada.

— Não sei vocês, mas eu estou exausto. Alguém tem alguma ideia de para onde podemos ir? — perguntou Sasha.

Pensei no meu apartamento em Pechersk, mas a rua Lypky estava bloqueada por caminhões da polícia e tropas de choque. Tentar chegar lá com o rosto coberto de fuligem seria pedir para sermos presos na primeira esquina.

— Eu conheço um hotel aqui perto — falei. — O Ibis, na Tarasa Shevchenka. Não é nada de luxo, mas é discreto e fica longe da linha de cerco. Talvez seja nossa melhor opção.

— Eu topo — disse Katya.

Sasha respirou fundo.

— Por mim também.

— Então vamos.

A caminhada de quinze minutos pareceu uma eternidade. As luzes dos postes piscavam num amarelo doentio. A cidade estava em choque: carros passavam em alta velocidade e sirenes distantes cortavam o ar congelado de fevereiro.

No número 25 da avenida, a portaria do hotel estava iluminada, mas deserta. O recepcionista levantou os olhos quando entramos. A fuligem em nossos rostos, as roupas amassadas e o cheiro de fumaça diziam de onde tínhamos vindo.

Caminhei até o balcão.

— Um quarto por duas noites, talvez mais.

— Hotivkoyu chy kartkoyu? — perguntou ele, sem erguer muito a voz, os olhos já de volta ao computador.

Meus dedos tocaram por instinto o cartão no bolso. Hesitei.

— Dinheiro — respondi, tirando as notas amassadas do bolso interno do casaco.

Ele contou o dinheiro sem pressa, como se aquele gesto banal fosse a única coisa normal que tinha acontecido o dia inteiro. Pegou as chaves com a mão trêmula de quem também tinha ouvido os estrondos.

— Ye rozkladnyy divan — disse ele, empurrando a chave sobre o balcão.

Baixei os olhos para o chaveiro. 317.

Um sofá-cama. Naquela noite, já era mais do que eu esperava.

Peguei a chave e agradeci em ucraniano.

Os olhos dele ficaram fixos por um instante num ponto além dos nossos ombros, como se esperasse mais alguém entrar pela porta.

Ninguém entrou.

No elevador, o silêncio voltou. Katya encostou a cabeça no espelho, de olhos fechados. Sasha olhava para as próprias botas cobertas de neve suja. Vi nosso reflexo no espelho: parecíamos três fantasmas.

O quarto era pequeno e cheirava a produto de limpeza e ar parado — um cheiro de normalidade que doía.

Katya foi direto para a pia, jogou água no rosto e veio até mim com a expressão tensa.

— Lava isso. Mas não esfrega, entendeu? É gás CS. Se esfregar, vai rasgar sua pele e a queimadura vai ser pior. Deixa a água correr e inclina a cabeça para o lado.

Fui até a pia. O pó fino grudado na minha pele já ardia.

No banheiro, a lâmpada fluorescente zumbia. Abri a torneira. Katya ficou na porta, os braços cruzados, vigiando.

— Inclina mais — disse ela. — Deixa a água levar, não adianta apressar.

Molhei o rosto. A água que escorria entre meus dedos saía preta, cinza, marrom. Três cores que eu não sabia que estavam na minha pele.

Foi quando os olhos começaram a arder. O gás CS reativado.

Fechei os olhos com força. Minha mão já subia para esfregar, mas a voz de Katya cortou o ar:

— Não esfrega! Eu falei. Usa a palma. Devagar.

Respirei fundo. Passei mais água, ensaboei com a palma aberta, fiz movimentos longos e suaves — descendo, sempre descendo, sem voltar. Katya não tirava os olhos de mim.

— Enxagua de novo — ordenou. — Mais dois minutos. Até a água sair limpa.

Lavei. E lavei. Até que a água finalmente correu clara.

Abri os olhos devagar. Meu reflexo no espelho respingado estava vermelho, exausto, os olhos injetados. Mas limpo. E sem uma única marca de fricção.

Quando voltei, Katya ainda estava na porta, os braços caídos agora, o corpo mole de cansaço.

— Fez certo — disse ela, com um meio sorriso cansado. — Sasha, agora é sua vez.

———

Katya e Sasha estavam sentados no sofá quando finalmente me juntei a eles, o cabelo ainda molhado. Sasha segurava o celular com as duas mãos, os olhos presos na tela — só então percebi que a tela estava trincada.

— O prédio dos Sindicatos ainda está pegando fogo — disse ele, a voz seca.

Ele aumentou o volume, aproximou o celular do rosto e ficou alguns segundos ouvindo os relatos que vinham da praça.

— Tem gente lá dentro — murmurou. — A gente não pode simplesmente ficar aqui.

Katya ergueu os olhos para ele.

— E vai fazer o quê, Sasha? Voltar agora?

Ele ficou em silêncio. Baixou o celular devagar.

Não respondeu.

Sentei-me na beirada da cama e liguei a câmera. A luz azulada do visor iluminou meu rosto. Passei as fotos rápido — o piano, o avanço do Berkut, as mãos ensanguentadas na neve, o rosto de Katya, a postura de Sasha, o corpo de um homem sendo carregado pela fumaça.

Então eu parei.

Era ela.

A enfermeira, com as mãos suspensas no ar segurando um rolo de gaze. E aquele olhar cravado diretamente na minha lente.

— O que foi? — perguntou Katya do sofá, notando meu silêncio.

— Nada — desliguei o visor. — Só... uma foto curiosa.

Troquei o cartão de memória e guardei o que estava cheio no bolso interno do casaco. Sasha deitou-se de costas no sofá-cama e Katya já fechava os olhos, vencida pela exaustão.

Foi quando o celular vibrou na minha mão. O nome do meu pai brilhava na tela.

Atendi em voz baixa.

— Você está bem? — a voz dele veio calma e impecavelmente controlada, como sempre.

— Estou bem, pai. Só cansada — respondi em francês.

Houve uma pausa longa. Pelo silêncio do outro lado, percebi que toda a atenção dele estava concentrada em mim e em Kiev naquele instante.

— Você sabe que não precisa ficar — disse ele. — Julien está em Viena com o jato. Em duas horas, ele tira você daí.

— Não precisa, pai. Eu sei me cuidar.

— Eu estou preocupado com você, Larah.

A voz dele baixou num tom quase confidencial, naquela raríssima e contida demonstração de preocupação.

— Não se preocupe. Eu não estou sozinha.

— Julien está esperando sua ligação — concluiu ele, retornando ao tom prático de sempre. — Se precisar, ligue.

— Eu vou ficar bem.

Desliguei e guardei o telefone. Eu entendia a preocupação dele: o instinto de me proteger do perigo. Mas, pela primeira vez, eu sabia exatamente onde precisava estar.

Preparei o equipamento para a manhã seguinte: bateria reserva conectada, cartão limpo engatado, lente limpa.

Deitei-me finalmente sobre as cobertas, encarando as sombras no teto do quarto 317 enquanto o som distante de sirenes continuava cortando a noite.

◆

Larah Yang — O Silêncio Antes do Fogo

Kiev  •  19/02/2014

Acordei com o estalo seco do aquecedor no canto do quarto e a luz cinzenta de fevereiro entrando pelas frestas da cortina. Por um segundo, pensei que estava no meu apartamento. Mas o cheiro metálico de fumaça impregnado no meu casaco jogado na cadeira me trouxe de volta.

Katya dormia no sofá, o braço estendido para fora, os dedos roçando o chão. Sasha estava em pé junto à janela, o celular na mão, a tela iluminando os olhos fundos. Aparentemente ele não tinha dormido.

— O que você está vendo? — minha voz saiu rouca pela fumaça da véspera.

Ele virou o rosto sem pressa.

— Declararam um dia de luto nacional. Falam em trégua.

— E você acredita? — perguntei.

Sasha soltou um riso curto, sem humor.

— O metrô continua fechado. A polícia está bloqueando as estradas. Eles não estão pensando em paz.

Olhou novamente para a tela.

— Estão ganhando tempo.

Descemos para o saguão perto das oito. A recepcionista mal olhou pra gente. Acima do balcão, uma TV muda passava imagens da praça ao amanhecer — barricadas intactas, fumaça ainda subindo em colunas finas — enquanto o letreiro em ucraniano confirmava o luto nacional e o saldo de mortos.

A área do café da manhã, logo ao lado do saguão, estava quase vazia. Algumas poucas travessas cobertas ocupavam o balcão, e o aroma de café passado se misturava ao cheiro de produto de limpeza e ao zumbido baixo das geladeiras.

Katya levantou a tampa de uma das travessas e ficou olhando por alguns segundos.

— Tem pão.

— Ainda bem — disse Sasha.

Foi a primeira coisa que ele disse desde que saímos do quarto.

Katya pegou algumas fatias e colocou no prato.

— E queijo.

— Me dá.

Sasha puxou o prato para perto e começou a comer. Duas fatias. Depois outra. Passou manteiga no pão sem nem olhar para o que estava fazendo.

Katya observou.

— Você estava com fome.

Ele deu de ombros, já mordendo outra fatia.

— Desde ontem.

Só então Sasha olhou para mim.

— E você não vai comer?

Olhei para o meu prato vazio.

— Vou.

Katya empurrou o prato de queijo na minha direção.

— Então começa.

Peguei duas fatias de pão e um pouco de queijo.

Sasha terminou a última fatia de pão e empurrou o prato para o lado. Katya ainda segurava a xícara de chá entre as mãos.

Olhei para os dois. Percebi o quanto estavam exaustos.

— Vocês não precisam voltar comigo hoje — falei.

Katya levantou os olhos, encarando-me direto.

— Não começa, Larah. Hoje ninguém vai sozinho.

Sasha não disse nada. Apenas balançou a cabeça em negação.

Não adiantava insistir. Suspirei e deixei o assunto morrer ali.

Descemos o Boulevard Tarasa Shevchenka em direção ao centro. O trajeto até o Maidan não dava nem dois quilômetros, mas a cidade parecia suspensa num pesadelo. O ar estava pesado, cortado por um frio de rasgar a pele e por aquele cheiro denso de borracha queimada que já cobria o topo dos prédios históricos da avenida.

As ruas ao redor estavam vazias — sem carros, sem pedestres, sem o movimento normal de uma manhã de quarta-feira. Mas não estavam desertas de verdade. Nas janelas dos prédios de fachada neoclássica e por trás das vitrines apagadas dos cafés, cortinas se mexiam — moradores e comerciantes acompanhavam nossos passos.

Quando dobramos a esquina em direção ao centro, o céu acima de nós não era azul, nem cinza. Era um teto denso de fumaça preta cobrindo a Praça da Independência.

Na rua Volodymyrska, o ritmo acelerou. Dois voluntários passaram correndo por nós carregando um homem ferido, a calça encharcada de um vermelho escuro que pingava na neve suja.

— Para onde estão levando ele? Perguntei em ucraniano.

— Mykhaylivsʹkyy! Sobor peretvoryly na likarnyu! — um deles respondeu sem parar.

Se a catedral tinha virado hospital, era pra lá que a gente precisava ir.

A Catedral de São Miguel das Cúpulas Douradas sempre foi um símbolo de serenidade em Kiev. Mas naquela manhã do dia 19 de fevereiro, São Miguel tinha deixado de ser um templo religioso para se tornar o coração pulsante do socorro humano.

O pátio estava tomado. Voluntários, seminaristas, médicos de jaleco branco manchados de terra e sangue, e dezenas de caixas de remédios empilhadas sobre a neve. O frio úmido subia das pedras sagradas, mas o ar cheirava a antisséptico, fumo e sangue fresco.

Sasha foi direto para a triagem de suprimentos na entrada, descarregando cobertores e garrafas de água das caixas.

Katya foi para ala improvisada de curativos, as mãos enluvadas e rápidas, ajudando como voluntária a socorrer os feridos.

Eu avancei para a nave central da igreja. Os bancos de madeira tinham sido empurrados contra as paredes para dar lugar a macas e mesas improvisadas. Sob a luz dos candelabros e dos afrescos de santos nas paredes, médicos trabalhavam em silêncio sobre os corpos feridos.

Ergui a câmera. Por um segundo, a hesitação bateu no meu peito. As mãos gelaram no corpo da câmera, o dedo parado sobre o botão. Aqueles corpos não estavam ali pra serem vistos — estavam ali pra sobreviver.

Baixei a câmera por um instante.

Ajustei o foco manual. Busquei o enquadramento sem expor a dignidade dos feridos — foquei nas mãos dos médicos cobertas de sangue, no contraste dos afrescos seculares com a gaze usada no chão, na luz que caía sobre os voluntários.

Enquanto fotografava, meus olhos varriam cada canto da catedral. Passei pelas mesas laterais, pelas portas que davam para o claustro, pelo posto de curativos rápidos. Vi dezenas de mulheres e médicas com lenços na cabeça, mãos ocupadas com gaze e torniquetes.

No meio da tarde, o ritmo dos feridos diminuiu. A trégua decretada pelo governo mantinha o Maidan numa calmaria sufocante, mas todos sabiam que era apenas o silêncio que precede a tempestade.

Sasha me encontrou perto da porta lateral, me entregando uma caneca de chá fumegante oferecido pelos monges.

Enquanto eu segurava a caneca entre os dedos congelados, um rapaz de jaqueta escura passou por nós carregando duas caixas de gaze. O que chamou minha atenção não foi o peso que levava, mas o que usava na cabeça: um capacete azul-claro da ONU, riscado de fuligem.

Sasha acompanhou o rapaz com os olhos.

— Capacete da ONU?

O rapaz parou ao nosso lado para pegar um copo d'água com um dos monges.

— É para os soldados saberem que eu não sou combatente — explicou, ajustando a alça no queixo.

Tinha a nossa idade. Olhos claros e um sorriso tranquilo demais para aquele lugar.

— Ustym — disse ele.

— Larah.

Ele tomou a água de um gole só, fez um rápido aceno com a cabeça e voltou para o pátio com as caixas.

Acompanhei-o com os olhos.

Então ergui a câmera.

O azul do capacete contra o dourado dos afrescos.

Clique.

Quando baixei a câmera, Sasha estava olhando para mim.

— O centro está cercado.

— Você acha que eles vão voltar? — perguntei.

— Acho que estão esperando amanhecer.

Katya se aproximou, o rosto pálido e cansado, mas os olhos firmes.

— Então a gente fica.

Sasha olhou para ela.

— Fica?

— O Maidan não pode acordar vazio amanhã.

Olhei para os dois.

— Então ficamos.

Sentamo-nos nos degraus de pedra do claustro para descansar alguns minutos. Enquanto bebia o chá em silêncio, chequei as fotos da catedral, retirei o cartão de memória cheio da câmera e guardei-o no bolso interno do meu casaco, junto com o da noite anterior.

Olhei para o céu alaranjado pelo reflexo das fogueiras que voltavam a ser acesas na praça.

O som distante de sirenes cortava a escuridão que caía sobre Kiev. Não havia blindados avançando naquela noite, apenas o silêncio pesado de milhares de pessoas se preparando para o inevitável.

Ajustei a câmera, fechei o casaco grosso e fiquei olhando para o horizonte, completamente exausta.

◆

Larah Yang — Sangue na Instytutska

Kiev  •  20/02/2014

O cheiro nos acordou antes do som.

Era um odor denso, metálico e quente de sangue misturado a queimado, que o vento do inverno empurrava para dentro do claustro da Catedral de São Miguel.

Abri os olhos na luz cinzenta da madrugada. Katya estava encolhida ao meu lado. Sasha já estava de pé junto ao portal de pedra, encarando a rua com o celular preso à orelha.

— O que aconteceu? — minha voz saiu rasgada pela garganta seca.

Ele virou o rosto, apontando para dois voluntários do Maidan que acabavam de passar correndo pelo portal da igreja.

— Disseram que o Berkut recuou do centro — disse Sasha, a voz trêmula. — Mas não é uma retirada. Eles estão nas alturas. Tem atiradores no Hotel Ukraina e no Palácio de Outubro.

— Estão atirando na multidão?

Sasha assentiu.

— Sim.

Katya se levantou de um salto. Nos olhamos. Corremos para o Maidan e, de lá, seguindo o fluxo de gente apavorada, viramos em direção à Instytutska.

Se o dia 19 tinha sido o silêncio, a manhã de 20 de fevereiro começou com tiros.

O ar da rua Instytutska era irrespirável — fumaça negra de pneus queimados rasgada pelo estalo seco e contínuo de fuzis de precisão. Não eram bombas de efeito moral. Era munição real, vindo do alto.

— Syudy! Dopomozhitʹ! — gritou um homem com o rosto coberto de fuligem.

Três voluntários vinham descendo a ladeira íngreme da Instytutska carregando uma chapa de compensado usada como maca. Sobre ela, um rapaz de jaqueta escura, imóvel.

Deixei a câmera pender pela alça e corri pra ajudar, segurando a borda da chapa enquanto corríamos de volta para o pátio de São Miguel.

Na nave central da catedral, o chão de mármore sagrado tinha virado uma pista de triagem de guerra. As mesas de madeira improvisadas estavam todas ocupadas. Médicos de jalecos manchados trabalhavam sob o olhar sereno dos afrescos seculares.

Pousamos a chapa de madeira ao lado da bancada e erguemos o rapaz pelos ombros. A médica pressionou dois dedos no pescoço dele por dois segundos, fechou os olhos e negou com a cabeça.

Fiquei parada por um segundo, sem saber o que fazer.

Ergui a câmera. Ajustei o foco. As mãos tremiam.

Fotografei as mãos da médica. Fotografei a dignidade trágica daquele jovem. Fotografei os voluntários.

Foi quando um grupo entrou correndo pelas portas duplas da nave carregando outro corpo. Na cabeça do rapaz, preso por uma alça rasgada, estava um capacete de plástico azul-claro da ONU, manchado de fuligem e perfurado na lateral.

Meu coração errou uma batida.

— Ustym... — murmurei, o ar fugindo do meu peito.

O rapaz do sorriso deslocado. O sotaque de Lviv. A calma que, naquele contexto, tinha parecido a coisa mais perigosa do mundo.

Ergui a lente. As lágrimas queimavam meus olhos. Respirei fundo, procurei o foco e fiz o disparo. Foquei no capacete azul que havia sido retirado por um dos voluntários e agora repousava sobre uma pedra fria.

Eu não ouvi o tiro que o pegou. Mas ouvi o silêncio que ele deixou.

Voltei para a rua com Sasha e Katya. A Instytutska era um corredor de execução. Homens e jovens subiam a rua protegendo-se atrás de tampas de lixo e escudos de madeira compensada enquanto os tiros de elite estouravam de cima dos prédios.

Fiquei atrás de uma barricada de pneus queimados, o corpo colado na pedra, enquadrando a coragem e a brutalidade daquele massacre.

Num dos meus enquadramentos, reconheci um rosto. Era o menino de ontem — o que carregava o engradado em São Miguel. Estava perto do Palácio de Outubro, do outro lado da barricada, num ponto que não era seguro para ninguém. Ergui a câmera. Foquei. Disparei. E continuei.

No meio da tarde, o número extraoficial já ultrapassava cinquenta mortos.

Foi quando a vi novamente.

Ela saiu pela porta lateral do mosteiro trazendo uma bacia de metal com água vermelha para descartar. O lenço havia escorregado para os ombros, e o jaleco branco estava completamente manchado. Havia um cansaço profundo no rosto, mas a postura continuava rígida, inabalável.

Aproximei-me devagar enquanto ela despejava a água.

Ela ergueu os olhos e me encarou. Era o mesmo olhar de antes.

— Eu vi você lá. Você não parava de fotografar, nem quando as balas passavam tão perto — disse ela, a voz baixa, rouca pela fumaça.

— É o meu trabalho — respondi.

Ela me olhou por um longo tempo. O olhar severo suavizou aos poucos. Havia alguma coisa naquele olhar que me deixou desconfortável, embora eu não soubesse dizer por quê.

— Qual é o seu nome? — perguntou ela, a voz quase inaudível entre o eco distante dos disparos.

— Larah — respondi. — E o seu?

Alguma coisa se fechou no rosto dela ao ouvir meu nome — um lampejo rápido, quase escondido, que na hora eu não soube explicar.

— Elena Petrova — disse ela, por fim.

Ela ajeitou o lenço sobre os ombros, o olhar compenetrado voltando-se por um instante para o pátio onde mais ambulâncias chegavam.

— Você se parece muito com sua mãe — disse ela, sem desviar o olhar.

Segurei o braço dela antes que pudesse se afastar.

— Espera. Do que você está falando? Como você...

— Agora não é hora.

O olhar dela deixou claro que aquela conversa tinha acabado.

— Outro dia.

— De onde você conhece minha mãe?

Um grito veio da entrada principal — mais feridos chegando — e ela se virou, absorvida de volta pelo caos antes que eu pudesse insistir.

A noite chegou pesada. O som dos tiros na Instytutska finalmente cessara — as tropas do Berkut tinham abandonado suas posições e recuado sob a pressão da revolta e do isolamento político do governo.

Encostei as costas na parede do claustro ao lado de Katya e Sasha. As minhas mãos tremiam, o pescoço doía pelo peso da câmera, e o cheiro de pólvora continuava impregnado na minha pele.

Retirei o cartão de memória cheio da câmera. Guardei-o no bolso interno do casaco.

Olhei para a escuridão da praça. Senti um grande vazio.

E, entre as cinzas daquela noite, uma pergunta continuava queimando dentro de mim: quem era Elena Petrova?

◆

Larah Yang — O Peso dos Cartões

Kiev  •  21/02/2014

A luz da manhã de sexta-feira não trouxe sol. Trouxe apenas uma clareza fria e lavada que revelava a escala do desastre.

Quando saímos pelo portal lateral da Catedral de São Miguel, o silêncio que cobria as ruas era mais assustador do que o estrondo dos tiros de precisão do dia anterior. O Berkut tinha abandonado as posições no centro, deixando para trás cartuchos deflagrados, cinzas de pneus e uma praça tomada por fogueiras baixas, choro contido e montanhas de cravos vermelhos.

O Maidan não estava vazio. Estava em luto.

Caminhamos em silêncio pela rua Volodymyrska, subindo em direção ao meu apartamento em Pechersk. Os bloqueios em Lypky tinham sido abandonados, deixando as ruas estranhamente livres. Katya vinha arrastando os pés ao meu lado, os braços cruzados apertados contra o peito. Sasha segurava o celular com a tela apagada. Nossos corpos já não respondiam ao cansaço; moviam-se apenas por reflexo de sobrevivência.

Quando finalmente fechei a porta do meu apartamento e rodei a chave na fechadura, o silêncio da sala pareceu irreal.

O contraste era doloroso. O piso de madeira limpo, o cheiro suave de lavanda do ambiente, a mesa de centro acolhedora — tudo parecia pertencer a um mundo que tínhamos deixado para trás há uma eternidade.

— As roupas — falei, com a voz rouca. — A gente precisa tirar isso antes de sentar em qualquer lugar.

Jogamos os casacos, impregnados de borracha queimada e pólvora, na área de serviço. Entrei no banheiro e liguei o chuveiro. Quando a água quente bateu nas minhas costas, senti os músculos travados cederem de uma vez. Lavei as mãos repetidamente, esfregando os dedos e as unhas até o cheiro de fumaça desaparecer. Por alguns instantes, a água que escorria pelo ralo carregou a sujeira escura que ainda estava grudada na minha pele. Fiquei ali parada até a água sair completamente transparente.

Emprestei roupas limpas para Katya e Sasha. Quinze minutos depois, os dois estavam desabados no sofá-cama da sala. Fui para o meu quarto, deitei na cama e apaguei também.

---

Acordei quando a noite já tinha caído sobre Kiev.

Sasha estava no meu MacBook, na mesa da sala, enquanto Katya se movimentava silenciosamente na cozinha.

Lembrei dos cartões de memória guardados no bolso interno do meu casaco pesado, jogado na lavanderia. Fui até lá, peguei-os e voltei para a mesa.

— Sasha, posso descarregar os cartões?

— Claro — disse ele, afastando a cadeira. — Mas antes, dá uma olhada nisso.

Ele virou o MacBook na minha direção.

Um portal de notícias de Kiev ocupava a tela.

A cidade tinha mudado completamente enquanto dormíamos.

Na madrugada de 21 de fevereiro, a Verkhovna Rada havia aprovado o retorno à Constituição de 2004, reduzindo os poderes do presidente e devolvendo mais autoridade ao Parlamento. Pela manhã, diplomatas da Alemanha, França e Polônia ajudaram a costurar um acordo político frágil.

Mas o Maidan não parecia disposto a aceitar aquilo tão facilmente.

Quando os líderes da oposição tentaram apresentar o acordo no palco, foram recebidos com vaias. Diante dos caixões dos mortos na Instytutska, a multidão exigia mais.

Um dos comandantes das sotnyas subiu ao palanque e deu um ultimato: se Yanukovych não renunciasse até as dez da manhã de sábado, o povo iria agir.

A polícia e o Berkut continuavam abandonando seus postos. A autoridade do governo parecia se desfazer diante dos nossos olhos.

Fechei o portal. Uma pequena janela preta permaneceu aberta no canto da tela. Tentei fechá-la, mas não aconteceu nada.

— Sasha, como fecha isso aqui?

Ele se inclinou sobre o teclado.

— Espera.

Seus dedos pressionaram uma sequência rápida de teclas. A janela desapareceu.

— Pronto.

— O que era isso?

— Nada importante.

Ele se afastou da mesa.

Inseri o primeiro cartão no leitor e descarreguei todos os arquivos. À medida que as barras de progresso avançavam, centenas de fotos cruas do massacre foram surgindo na tela.

Quando terminei, comecei a selecionar algumas para enviar.

Sasha olhou por cima do meu ombro.

— Você vai mandar assim?

— Assim como?

— Pela internet, desse jeito.

— E qual é o problema?

— Se alguém estiver monitorando a rede, pode descobrir de onde essas fotos estão saindo.

Olhei para ele.

— E o que eu faço?

Sasha deu de ombros.

— Deixa comigo. Meu curso em Análise de Sistemas tem que servir pra alguma coisa.

Ele começou a digitar.

— O que coloco no campo de autoria? — perguntou, sem tirar os olhos da tela.

— Coloca Lilly. Só: Foto: Lilly / Freelance.

— Lilly. Certo.

— Vou mandar uma cópia por uma conexão protegida. Depois envio os arquivos para a Reuters e para a AP. E deixo outra em um servidor remoto. Se alguma coisa acontecer com o computador, pelo menos as fotos continuam existindo.

Enquanto as barras de progresso do upload começavam a correr na tela, rolei pelas miniaturas. Parei num frame da Instytutska. Entre a fumaça e os escudos, perto do Palácio de Outubro, estava o rosto do menino do engradado. Foco perfeito.

Abri o feed de notícias numa aba ao lado. A lista dos mortos do dia 20 já circulava. Rolei os nomes e os rostos até reconhecê-lo.

— Nazariy Voytovych — li em voz alta. — Dezessete anos. O mais jovem.

Katya apareceu na porta da cozinha com a tigela e as canecas. Ficou parada. Sasha congelou ao meu lado. Nenhum de nós disse nada por um momento.

Depois ela colocou a tigela no centro da mesa — cheia de biscoitos doces, fatias de pão de centeio, um pote de geleia de cereja e pedaços de queijo duro — e puxou a cadeira sem fazer barulho.

Sentou-se na ponta da mesa e estendeu o pão.

— Come alguma coisa, Larah. Você quase não comeu nada desde ontem.

Agradeci. Estava com muita fome.

Mastiguei um pedaço do pão com geleia de cereja, sentindo o gosto doce quebrar o amargor que ainda parecia preso no fundo da minha garganta. Deixei as miniaturas das fotos de lado por um instante e encarei o teto.

Katya me olhou de lado, estreitando os olhos com curiosidade.

— Larah... quem era aquela mulher de jaleco com quem você conversou ontem na catedral?

Suspirei, cruzando os braços, sentindo o estômago dar um nó.

— O nome dela é Elena — respondi, balançando a cabeça. — Ela olhou no fundo dos meus olhos e disse que pareço com minha mãe.

Sasha puxou a cadeira para perto da minha e se sentou de frente, deixando o teclado de lado.

— Espera. Como alguém aqui poderia conhecer sua mãe?

Era uma boa pergunta — a mesma que não parava de girar dentro de mim desde a catedral.

— Pois é — retruquei, sentindo a frustração subir. — Tudo que meu pai sempre me disse é que minha mãe morreu no parto. E agora, do nada, uma ucraniana, no meio desse caos, olha pra mim e diz que eu me pareço com minha mãe?

Sasha coçou o queixo, pensativo.

— Ela disse o sobrenome?

— Elena Petrova.

Um sorriso torto apareceu no canto da boca dele. Puxou o teclado de volta para si.

— Posso procurar.

Os dedos começaram a correr pelo teclado.

— Onde? — perguntei.

— Notícias, listas de voluntários, registros públicos... qualquer coisa que tenha o nome dela.

Olhei para a tela. As janelas começaram a se multiplicar diante de mim.

— Você acha que vai encontrar?

— Se ela deixou algum rastro, talvez.

◆

Larah Yang — A Sombra e os Espelhos

Kiev  •  24/02/2014

A cafeteria do Edifício Vermelho da KNU cheirava a café expresso barato e casacos molhados pela neve. As aulas continuavam suspensas, mas o prédio havia reaberto as portas. O burburinho entre os alunos não tinha o tom leve de início de semestre; era uma mistura de alívio, tensão e choque.

Nos murais de aviso perto da entrada, fotografias de estudantes mortos no Maidan estavam cercadas por velas e fitas pretas.

Ajeitei a alça da mochila nas costas e atravessei as mesas de madeira até o canto onde Sasha estava concentrado diante da tela do notebook.

— E aí? Novidades?

Puxei uma cadeira e me sentei.

Sasha balançou a cabeça sem tirar os olhos da tela.

— Quase nada. Elena Petrova aparece como voluntária ativa de uma ONG de ajuda humanitária.

— Já é alguma coisa — falei. — Pelo menos sabemos que ela não é um fantasma.

Katya se aproximou trazendo três copos de café fumegantes. Puxou a cadeira ao meu lado e ajeitou o jaleco dobrado dentro da bolsa.

— O que vocês descobriram?

— Elena consta como voluntária de uma ONG humanitária — respondi.

Katya ficou pensativa por alguns segundos.

— Talvez eu possa ajudar.

Inclinou-se sobre a mesa.

— Se essa ONG é registrada, a rede da faculdade de Medicina pode nos ajudar. O hospital acadêmico e os preceptores conhecem todas as entidades que recebem doações e suprimentos na região.

Ela olhou para Sasha.

— Você conseguiu o nome da instituição?

— Consegui. Mas, antes, olhem isso.

Ele virou a tela na nossa direção.

A página inicial do portal global da Reuters ocupava o monitor. Minha fotografia do homem com o escudo de madeira sob a fumaça do Maidan aparecia em destaque. Logo abaixo, a mesma imagem era reproduzida na Ukrayinska Pravda.

A fotografia tinha atravessado as fronteiras.

A repercussão lá fora tinha sido enorme. E aqui também, os créditos apareciam exatamente como havíamos combinado:

Foto: Lilly. / Freelance via AP.

Fiquei alguns segundos olhando para a tela. Não eram apenas fotografias publicadas. Era uma prova de que alguém, em algum lugar, estava vendo o que estava acontecendo.

Katya tomou um gole de café e perguntou.

— Como foi o fim de semana de vocês?

— Passei boa parte do tempo ligando para tranquilizar minha família. Claire, Jacques, Sophie, Mei... todos estavam preocupados. Meu pai, como sempre, parecia saber mais do que eu. Disse que Julien já está em Kiev, à minha disposição. O senhor Cheng é discreto. Julien provavelmente já está de olho em mim.

Sasha continuou olhando para a tela.

— Você nunca fala da sua família — falei.

Ele ficou em silêncio por um instante.

Tomou outro gole de café.

— Eles estão bem.

E voltou os olhos para o notebook.

— Ouçam isso.

Mudou de página.

— Turchynov assumiu a presidência interina ontem — disse. — O Parlamento também aprovou medidas para devolver mais poder à Rada.

Katya franziu a testa.

— E Yanukovych?

— Não está mais em Kiev. Há relatos de que fugiu para a Crimeia.

Katya olhou para mim.

— Então o governo está desmoronando.

Sasha assentiu.

— E o Berkut também. Há relatos de que estão abandonando os postos. Alguns estão indo para o leste. Outros simplesmente desapareceram.

Ele passou os olhos pela tela.

— A eleição está marcada para maio. Até lá, muita coisa pode mudar.

Katya apoiou os cotovelos na mesa.

— Larah, fica tranquila. Vamos descobrir quem é Elena.

Olhei para os dois.

— Claro que vamos descobrir.

---

À noite, a temperatura em Kiev havia despencado para cinco graus abaixo de zero.

A rua Instytutska — a mesma ladeira onde, dias antes, escudos de madeira tentavam deter o chumbo — havia se transformado em um corredor de silêncio e fogo.

Milhares de pessoas caminhavam devagar entre montanhas de cravos vermelhos, capacetes perfurados e fileiras intermináveis de velas acesas sobre a neve.

Caminhei ao lado de Sasha e Katya. O ar frio queimava meus pulmões a cada respiração, mas as chamas das velas refletiam na neve com uma luz dourada e solene.

Ajeitei o cachecol no pescoço.

Uma senhora estava ajoelhada diante da fotografia de um jovem de dezenove anos. Chorava em silêncio, tocando de vez em quando o rosto impresso no papel.

Aqueles rostos também estavam gravados na minha memória.

Katya parou perto do tronco de uma árvore marcado por tiros. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco antes de falar.

— Falei com o doutor Markov no final do plantão. A história é longa, mas, resumindo...

Sasha se aproximou, fechando o pequeno círculo entre nós para nos proteger do vento.

— E?

— Ele conhece Elena Petrova há mais de quinze anos, se conheceram em Donetsk. Faziam parte da mesma ONG humanitária, a Pont de Lumière.

Franzi a testa.

Troquei um olhar rápido com Sasha.

— Ele falou mais alguma coisa? — perguntei.

— Enfim... disse que o responsável pela ONG se chamava Ivan Kovalenko.

— E hoje? — perguntei.

— Hoje ele não tem mais contato com ninguém da ONG. Mas sabe que eles mantêm um centro de distribuição no distrito de Podil.

Olhei para as velas espalhadas pela neve.

Apertei o cachecol contra o pescoço.

— Amanhã cedo — falei. — Vamos até Podil.

◆

Cheng Yang — As Cinzas de Donetsk

Donetsk  •  14/03/1994

Escrevo no meu quarto, sob uma lâmpada que pisca com um zumbido constante. O vento entra pela janela mal fechada, trazendo um frio que corta os dedos e o cheiro de diesel da rua. O ar aqui tem um peso, misturado com mofo, que faz o peito apertar. Ouço passos pesados lá fora, botas ecoando na calçada, como se esta cidade nunca descansasse. Donetsk carrega um cheiro de carvão úmido e algo mais, uma tensão que nasce do abandono. Cheguei a Kiev ontem. No saguão do aeroporto, Ivan Kovalenko me esperava, um ucraniano de olhos fundos e rosto marcado. Ivan é o homem que escolhi para ser meus olhos e ouvidos. Viajamos doze horas até Donetsk, passando por fábricas paradas e vilas fantasmas. Meu hotel é uma relíquia soviética. A cama range e a janela mostra uma rua onde cachorros reviram latas de lixo. Donetsk é uma cidade dividida: prédios antigos misturam-se a mercados improvisados. Falam de greves nas minas e de bandidos armados nas estradas. Nossa ONG presta apoio humanitário, mas sinto que é pouco.

15 de Março Acordei com um estrondo distante, provavelmente um acidente em mina de carvão. Ivan bateu na porta. — A vila a leste fica a poucos quilômetros — disse, em tom de aviso.

O Lada rangeu por estradas cheias de buracos até chegarmos a casas de madeira caindo aos pedaços. Entreguei uma caixa de remédios a uma mulher de olhos cansados; ela murmurou "spasiba", o filho magro agarrado à mão dela. Eles têm tão pouco, mas uma força enorme.

Mais tarde, num celeiro coberto de musgo, a atmosfera mudou. Um homem de barba rala, com um casaco militar velho, abriu uma sacola de lona. Vi um reflexo metálico, algo que carregava o peso de séculos. Ivan trocou palavras em ucraniano e fomos embora. O silêncio entre nós era denso.

20 de Março Já estou imerso numa rotina de entregas. Conheci Petro Marchenko numa vila remota, um ex-piloto soviético com mãos trêmulas. Bebíamos horilka numa mesa improvisada. Petro mencionou rotas aéreas que poucos usam. Perguntei a Ivan sobre os rumores de conflitos e as máfias locais. — Aqui, sempre tem guerra, de um jeito ou de outro — ele disse.

25 de Março Fomos a uma vila onde o silêncio pesava mais que o frio. Nadia Shevchenko, uma parteira idosa, pediu remédios e me levou até uma jovem grávida, pálida na cama. O quarto cheirava a ervas. Na volta, Ivan me contou que a jovem se chamava Oksana e estava sozinha. — Ninguém vive fácil aqui — murmurou ele.

1º de Abril Donetsk amanheceu mais pesada. Vi homens suspeitos numa esquina; Ivan disse que são bandidos usando o caos pós-greves. Em Horlivka, uma menina de tranças loiras, Sofia, me deu uma flor murcha em troca da sopa. O sorriso dela contrastava com a sujeira do rosto. Depois, num armazém com cheiro de madeira podre, um homem com cicatrizes mostrou um relógio de parede com letras em cirílico. — Volte sempre — disse ele, com um sorriso torto.

7 de Abril O cansaço já toma conta. Em Pisky, numa escola precária, um menino chamado Mykola escreveu seu nome num caderno novo e me mostrou, orgulhoso. À noite, a atmosfera mudou novamente. Ivan me levou a uma casa abandonada. Um ex-soldado mostrou uma adaga antiga com pedras no cabo. Quando a peguei, ele alertou: — As coisas vão piorar. Amanhã, volto à vila de Nadia. Ivan disse que Oksana piorou. Hoje, num mercado, vi um colar de pérolas numa banca. O vendedor, Bohdan Tkachenko, jurou que era "de sua família".

◆

Cheng Yang — O Nascimento de Larah

Donetsk  •  15/04/1994

O vento sacode a janela, trazendo um frio que corta a pele, e a lâmpada no teto pisca, como se estivesse tão cansada quanto eu. Acordei cedo, com o peso de Donetsk na cabeça. Em Nice, o dia começava com o aroma de lavanda e o som das gaivotas. Aqui, cada amanhecer é uma luta. Vesti o casaco, desci as escadas rangentes e encontrei Ivan Kovalenko e Elena Petrova, prontos para mais um dia com a ONG.

Entramos no Lada, os pneus chiando no asfalto quebrado. Ivan dirigia, acendendo um cigarro, o cheiro de tabaco velho misturando-se ao ar frio. Seus olhos fundos varriam a estrada, como se conhecesse cada sombra. — Vila a 20 quilômetros — disse, a voz curta, sem espaço para conversa.

Elena, no banco de trás, organizava caixas de remédios, os cabelos castanhos presos num lenço simples, as mãos rápidas apesar do cansaço. O Lada sacudia nos buracos, o motor rugindo contra a neblina fina da manhã. Os voluntários seguiam atrás em um UAZ, todos nós cortando o frio de 8 °C que parecia não acabar.

Chegamos à vila, um grupo de casas de madeira tortas sob um céu pesado. O chão, coberto de terra e folhas, grudava nas botas, e o ar cheirava a lenha queimada. Uma igreja com a cúpula quebrada aparecia ao fundo, quase sumindo na neblina. A vila estava quieta, com poucas luzes nas janelas e fumaça subindo de fogueiras improvisadas. Não havia vozes nem rádios, apenas o silêncio de um lugar que mal sobrevivia.

Descarregamos caixas de cobertores e remédios, o som dos pacotes cortando o ar. Elena pegou sua bolsa de remédios e foi com Nadia Shevchenko, a parteira, até uma casa onde Oksana estava em trabalho de parto. Ivan ficou comigo, os olhos atentos, como se esperasse algo. Organizei as caixas, o frio pesando nos ombros, uma tensão que eu não sabia explicar.

Elena voltou minutos depois com o rosto pálido e os olhos úmidos. Trazia a bolsa de remédios apertada contra o peito e, na outra mão, segurava um maço de papéis amarelados, amarrados com um barbante sujo. Parecia um caderno escolar velho, quase desfeito pela umidade. — O que é isso? — perguntei, apontando para o entulho em sua mão. Elena hesitou por um segundo, olhando para os papéis como se fossem vidro. Depois, guardou-os rápido no bolso fundo do casaco. — Nada — respondeu, a voz trêmula. — Só... memórias. Ela não tinha mais nada. Não insisti. Lixo sentimental não me interessava, e tínhamos problemas maiores.

— A jovem mãe morreu de hemorragia — Elena continuou, recuperando a postura profissional, embora a voz falhasse. — Sem chance de ajuda numa vila sem médicos. O marido dela, Dmytro, já estava morto, vítima de bandidos semanas antes. A filha deles, porém, nasceu viva.

A notícia me atingiu como o frio, pesada e sem aviso. Nadia correu até mim, segurando a bebê embrulhada num pano sujo. Seus cabelos grisalhos escapavam do lenço, e um pingente de cruz brilhava em seu peito, refletindo a luz fraca do amanhecer. Seus olhos azuis, duros como o inverno, encontraram os meus. — A mãe morreu, o pai também — disse, com a voz cansada. — O orfanato em Donetsk não tem espaço. Ela precisa de vocês.

A bebê, com olhos azuis brilhando na palidez, chorava baixo, e algo em mim quebrou. Nunca segurei uma bebê antes; nunca senti um peso tão pequeno e tão grande. Nadia a abençoou dizendo "Larah", tirou o pingente do próprio pescoço e o colocou na bebê.

Elena, agora ao meu lado, tocou de leve o ombro da criança, lágrimas caindo. Os olhos dela, tão vivos, estavam fixos em mim. Elena olhou para a bebê e disse, com um sorriso torto e a voz cheia de esperança: — Podemos cuidar dela.

Ivan cortou, seco: — Não, Elena. Deixe a bebê aqui. É o lugar dela.

Seus olhos duros a calaram, numa ordem que não dava espaço. Nesse momento, embrulhei a bebê no meu casaco, o calor dela contra meu peito selando algo que eu não entendia. — Ela vai conosco — eu disse.

Elena assentiu, aliviada, e vi sua mão tocar o bolso do casaco onde guardara os papéis, como se conferisse se o segredo — qualquer que fosse — ainda estava lá. Rapidamente, preparou uma mamadeira com o leite que levávamos para doações. Entreguei a bebê a Elena enquanto Nadia voltava para a casa. Olhei o relógio: seis da manhã.

◆

Larah Yang — O Rastro em Podil

Kiev  •  25/02/2014

Levantei cedo e fui ao encontro de Katya e Sasha. Quando passei pela portaria, os dois já estavam à minha espera. Pegamos o metrô. A viagem durou quinze minutos.

O distrito de Podil cheirava a diesel e rio congelado. Diferente do centro, aqui a vida seguia num ritmo quase normal — caminhões de carga manobrando entre armazéns, operários fumando encostados em portões de metal, o Dnieper cinzento ao fundo, indiferente a tudo que tinha acontecido a poucos quilômetros dali.

Encontramos o centro de distribuição depois de perguntar a alguns moradores da região. Ficava espremido entre um depósito de autopeças e um galpão com as portas de metal enferrujadas.

Acima da entrada, ainda era possível distinguir um logotipo desbotado: uma cruz estilizada dentro de um círculo azul e, abaixo dela, um nome — Pont de Lumière.

— Um nome francês, em uma ONG que atua aqui... Estranho — murmurei.

Sasha deu de ombros.

— A cidade está cheia de organizações estrangeiras há anos. Não significa que tenha alguma coisa de estranho.

Enquanto falava, já se aproximava da porta lateral e bateu duas vezes.

Um homem de macacão sujo de graxa apareceu. Enxugava as mãos em um pano enquanto nos observava com desconfiança.

— Estamos procurando Ivan — falei, com um tom cordial.

O homem franziu a testa, olhando os três de cima a baixo — bem devagar, como quem está decidindo se vale a pena responder.

— O Ivan não está. Foi pro leste, ainda no início de fevereiro.

— Pro leste onde? — insisti.

Ele deu de ombros, já perdendo a paciência.

— Onde for preciso.

Foi só isso. A porta se fechou antes que eu pudesse perguntar mais nada, e Katya já estava puxando minha manga, apontando com o queixo para a rua — três estudantes de Kiev fazendo perguntas sobre uma ONG humanitária já chamavam atenção suficiente naquele bairro. Não era hora de insistir.

---

Os dias seguintes tiveram a textura estranha de uma cidade tentando lembrar como se vivia antes.

As aulas na KNU voltaram, aos trancos — metade das cadeiras vazias, professores fingindo que dar aula fazia sentido outra vez. Nos corredores, os murais de luto continuavam crescendo: mais nomes, mais fitas pretas, mais velas que ninguém tinha coragem de apagar.

Nas rodas de conversa, os boatos se acumulavam mais rápido que as notícias oficiais. Diziam que Yanukovych tinha um mandado de prisão em seu nome, acusado de assassinato em massa. Diziam que o novo governo interino já discutia o que fazer com os oficiais do Berkut ainda presos em Kiev. Diziam que a Crimeia estava esquisita — soldados sem insígnia aparecendo em pontos estratégicos, ninguém sabendo dizer de onde tinham vindo.

Passamos os dias esperando que Sasha encontrasse alguma pista nova nos registros, verificando as rotas e juntando o pouco que sabíamos sobre a Pont de Lumière.

Na manhã do dia 28, Sasha apareceu no meu apartamento com um sorriso que tentava esconder.

— Acho que encontrei alguma coisa.

Larguei o que estava fazendo.

— Sobre Elena?

Ele assentiu.

— Sobre Elena... e sobre Ivan.

— O que você descobriu?

Sasha tirou algumas folhas dobradas da mochila e as colocou sobre a mesa.

— Ivan foi para o leste. Isso já sabíamos.

Fez uma pausa.

— Mas encontrei um endereço ligado à Pont de Lumière.

Meu coração acelerou.

— Onde?

— Num vilarejo próximo de Donetsk.

Olhei para as folhas.

— Qual o nome do vilarejo?

— Pisky.

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

Marcamos de nos encontrar no meu apartamento na mesma noite.

---

Katya chegou carregando uma sacola pesada — beterraba, repolho, um pedaço de carne enrolado em papel de açougue.

— Receita da minha avó — disse ela, indo direto para o fogão e prendendo o cabelo.

— Já comeu borscht antes?

— Nunca — respondi.

— EU JÁ! ADORO! — gritou Sasha da sala, sem nem levantar os olhos do que estava fazendo.

Katya revirou os olhos, mas sorriu, mexendo a panela e cantarolando baixinho uma melodia que me levou de volta ao Maidan — a mesma que os voluntários cantavam junto aos caixões na Instytutska. Ela não parecia perceber que estava cantando. Só cantava.

Sasha já estava com o meu MacBook aberto na mesa.

— Cadê o seu? — perguntei.

— Prefiro usar esse. — respondeu, sem desviar os olhos da tela.

Abriu um mapa de estradas com camadas de informação, postos de pedágio, possíveis bloqueios e barreiras policiais.

— Onde você conseguiu isso? — perguntei.

— Na internet.

— Mas como sabe que esses pontos estão atualizados?

— Gente na estrada vai alimentando as informações.

Ele girou o notebook para mim, mostrando a rota toda traçada, com pontos marcados em vermelho e amarelo — não era só um mapa, era um mapa vivo, atualizado por gente que estava na estrada.

— Poltava fica praticamente no meio do caminho — continuou, batendo o dedo na tela. — Podemos parar lá para passar a noite. Depois disso, Donetsk.

Katya serviu a mesa e sentou-se na ponta com a mesma energia de sempre.

Comemos enquanto íamos ajustando estratégias e logística — quem dirigia primeiro, onde parar para abastecer, o que fazer se algo desse errado.

Quando terminamos, Sasha se prontificou a lavar a louça — o que, vindo dele, já era motivo de suspeita. Enquanto a água corria na pia, ele começou a assobiar, e Katya, sem dizer nada, pegou o celular e colocou uma música baixinho. As primeiras notas de Не питай, do Okean Elzy, encheram a cozinha.

Sasha se virou, as mãos ainda molhadas, e estendeu com uma reverência exagerada, teatral.

— Dança comigo.

Katya riu — um riso de verdade, o primeiro que eu via dela havia dias — e aceitou. Os dois dançaram devagar entre a mesa e a pia, sem cerimônia, sem coreografia nenhuma, só balançando de um lado pro outro enquanto a música tocava, baixinho, saindo do celular dela apoiado contra um copo.

Eu fiquei sentada, olhando aquilo com um aperto estranho no peito. Lá no Brasil, Jacques e Claire dançavam assim — do nada, sem motivo, só porque uma música tinha começado a tocar. Ver aquilo ali, entre panelas e mapas de guerra, me fez bem de um jeito que eu não soube explicar.

◆

Larah Yang — Poeiras do Mistério

Kiev  •  01/03/2014

O sol ainda não havia surgido quando deixamos Kiev. A estrada se estendia diante de nós, escura e quase vazia, enquanto o frio de fevereiro cobria o acostamento de uma camada fina de gelo. Rodamos por quase duas horas antes de parar para abastecer.

Paramos pouco antes de Lubny, exatamente onde Sasha tinha marcado no mapa na véspera. O carro cheirava a café requentado e ansiedade.

O celular vibrou no porta-copos.

Sophie.

Katya e Sasha se entreolharam. Ninguém precisou dizer nada — os dois já sabiam quem era.

Saí do carro pro frio, tentando puxar a voz pra um tom qualquer parecido com normal.

— Alô?

— Larah! Finalmente! — a voz da Sophie veio animada demais, em francês. — Preciso de você aqui. Sério, preciso mesmo.

— Sophie, eu não posso agora, eu estou...

— Chanel fecha a semana dia quatro. O desfile é meu, Larah — ela cortou, sem nem deixar eu terminar. — Meu primeiro fechamento de verdade, o maior da minha carreira até agora, e você não pode perder isso por nada.

— Sophie, eu não posso agora. Tenho aula, provas, trabalhos...

— Larah, eu sei que está tudo parado aí.

— Não está tudo parado.

— Está, sim. — Ela riu. — Porque você não quer vir?

Fechei os olhos por um segundo. Calculei mentalmente: se eu dissesse não agora, ia precisar explicar sobre Elena, e eu não tinha como explicar.

Se a Sophie sentisse que eu estava escondendo alguma coisa, aquela conversa iria virar um interrogatório.

Como eu iria explicar que, em vez de estar no meu apartamento, eu estava no meio de uma revolução, fotografando tudo aquilo?

Donetsk ainda estava a um dia inteiro de distância, e a volta levaria outro. Três dias, no mínimo, contando com o tempo pra encontrar a ONG.

— Eu... — comecei, sem saber ainda que frase ia sair dali.

Katya, encostada no carro, se inclinou pra perto do celular, sem entender uma palavra do que estava sendo dito, mas entendendo perfeitamente o meu rosto.

— Fala pra ela que a gente liga depois — sussurrou.

Do outro lado da linha, a Sophie ouviu a voz estranha e parou no meio da frase.

— Quem é essa? Com quem você está falando? — perguntou.

— Uma amiga — respondi. — A gente ia sair, você ligou no meio do caminho.

Traduzi pra Katya, resumindo: — Ela quer saber quem é você.

— E o que você disse? — perguntou Katya.

— Que você é minha amiga.

Do outro lado, a Sophie já tinha decidido o assunto sozinha.

— Então traz ela também! Não importa, só preciso que você esteja aqui, o mais tardar até o dia três.

Traduzi para Katya: — Ela disse pra você ir também.

Katya arqueou uma sobrancelha. — Ir para onde?

— Tudo bem — ouvi minha própria voz dizendo, antes mesmo de decidir de verdade. — A gente vai.

Desliguei antes que ela pudesse comemorar. Já estava arrependida o suficiente sozinha.

— Pra onde a gente vai? — perguntou Katya, já sabendo, pela minha cara, que não era a resposta que ela queria ouvir.

— Paris. Sophie precisa de mim lá, imediatamente.

— Como assim, "imediatamente"?

— Ela está no meio da Paris Fashion Week. O desfile de fechamento dela é em três dias. Se eu disser não, vou ter que explicar o porquê — e explicar o porquê significa explicar tudo. É mais fácil ir.

— E o que você vai fazer lá?

— Vou participar da Paris Fashion Week Fall/Winter. Você vai comigo?

Ela franziu o cenho por um segundo, como se ainda estivesse tentando processar a resposta.

— Sério isso? — balançou a cabeça, incrédula. — E a Elena? A ONG? Sua mãe?

— Vai ter que esperar. Eu preciso ir para Paris. Não tem outro jeito.

Ela cruzou os braços.

— Você enlouqueceu.

Olhei para Sasha, que nos esperava dentro do carro. Ele tinha acompanhado a conversa em silêncio.

— Então vocês vão para Paris — disse ele. — Eu continuo para Donetsk.

Por um segundo, ninguém disse nada. Era a primeira vez, desde o início de tudo, que não estávamos indo pro mesmo lugar.

— Calma, Sasha. Vamos pensar melhor nisso.

— No quê? — Ele deu de ombros. — Alguém precisa ir até lá. O endereço já está nas nossas mãos.

Katya, que permanecia em silêncio, olhou para ele e depois para mim.

— Eu acho que faz sentido.

— Você vai sozinho? — perguntei.

— A menos que Katya queira vir comigo. Por mim, tudo bem ir sozinho.

Olhei para Katya.

— Então você decide. Donetsk ou Paris.

Ela me olhou, depois olhou para Sasha.

— Eu ainda não conheço Paris.

Sasha sorriu de canto.

— Então está decidido.

— Tudo bem. Você continua para Donetsk e nós vamos para Paris. A gente se encontra daqui a quatro dias. Só se cuida, Sasha. Não corre riscos desnecessários.

— Larah, fica tranquila. Eu sei me cuidar. Assim que puder, dou notícias.

Nos despedimos ali mesmo.

Sasha entrou no carro e seguiu em direção a Donetsk.

Eu e Katya ficamos paradas na beira da estrada, vendo o carro desaparecer ao longe.

— Então... Paris? — ela perguntou.

Sorri.

— Paris.

Pegamos um táxi de volta para Kiev. Chegamos perto do meio-dia.

Liguei para Julien. Ele atendeu na segunda chamada.

— Bom dia, Larah.

— Julien, preciso chegar em Paris hoje.

Houve uma pausa curta do outro lado.

— Deixa eu adivinhar: convite da Sophie.

— Sim.

— E você está ligando porque quer ir, ou porque precisa ir?

Essa era a diferença entre o Julien e a maioria das pessoas. Ele não perguntava "o que aconteceu" ou "você está bem". Ele perguntava o que realmente importava.

— Eu preciso ir. Só não quero ficar mais do que o necessário.

— Então vou preparar o jato. Às oito da noite estaremos em Paris.

— Julien, a Katya precisa ir comigo. Ela não tem visto Schengen.

— Isso eu resolvo — respondeu, sem hesitar, como quem já tinha feito aquilo antes. — Só preciso do nome completo dela e do número do passaporte.

E ele não perguntou mais nada.

◆

Larah Yang — O Reflexo da Verdade

Kiev  •  01/03/2014

O jato cortou as nuvens sobre a Polônia quando Katya finalmente falou.

— Você tem um avião particular.

Não era uma pergunta. Era uma constatação, dita com a mesma entonação que alguém usaria para dizer "você tem um elefante na sala".

— Não é meu. É do meu pai.

— E o piloto é amigo dele desde antes de você nascer.

— Isso também.

Ela ficou em silêncio por um instante, os olhos fixos na janela redonda que mostrava o mar de nuvens abaixo.

— Sabe o que é mais estranho? — disse ela, sem desviar o olhar. — Eu passei os últimos meses achando que conhecia você.

— E não conhece?

— Conheço a Larah que carrega câmera e dorme em hotel barato. Essa aqui — ela apontou pro estofado de couro, pro copo de cristal intacto na minha mão, pro próprio avião — essa eu não conheço.

Não soube o que responder na hora. Não porque não tivesse resposta, mas porque as duas versões que ela descreveu eram igualmente verdadeiras, e eu nunca tinha precisado explicar como as duas cabiam na mesma pessoa.

— As duas sou eu — falei, por fim. — Só que uma eu escolhi, e a outra eu nasci.

Katya me olhou por um longo momento, como se estivesse decidindo se aceitava aquilo ou se ia insistir. Decidiu não insistir — pelo menos não agora.

— Bom — disse ela, virando de volta pra janela, um sorriso pequeno escapando —, pelo menos o copo de cristal explica por que você nunca reclamou do chá requentado do Sasha.

Ri, e o peso da conversa se dissolveu, ao menos por um instante, no som do motor e nas nuvens lá fora.

---

O jato pousou em Le Bourget pouco antes das oito. Sophie já estava esperando no pé da escada, impecável como sempre, em um casaco claro, botas de couro e o cabelo cuidadosamente arrumado.

O abraço dela quase me derrubou.

— Você está magra. O que aconteceu com o seu cabelo? — disparou, uma pergunta atrás da outra, sem esperar resposta nenhuma, já puxando minha mala da mão do copiloto.

Ela parou quando viu Katya descendo atrás de mim. Seus olhos percorreram Katya de cima a baixo por um instante, avaliando-a com muita naturalidade.

— Essa é a amiga? — perguntou, sorrindo largo. — Ela é linda. Bem-vinda, chérie. Qualquer amiga da Larah já é amiga minha também.

Katya olhou pra mim, sem entender uma palavra. Resumi o suficiente pra que ela relaxasse os ombros: — Ela disse que você é bem-vinda.

———

Dormimos no apartamento da Sophie, um dúplex perto do Trocadéro que cheirava a vela cara e café da manhã chegando cedo demais.

Acompanhei Katya até o quarto de hóspedes. Conversamos por alguns minutos enquanto ela desfazia a pequena mala.

— Eu recomendo um bom banho de banheira — falei. — Acho que você vai gostar.

Ela olhou para mim e sorriu.

— Depois de tudo que aconteceu, acho que eu mereço.

— Merece mesmo.

Katya voltou a arrumar as coisas.

— Descanse um pouco — falei, já me dirigindo à porta.

Deixei Katya descansar e voltei para a sala.

Sophie estava me esperando no pequeno escritório ao lado da sala de estar.

— Agora me conta — disse ela, fechando a porta. — Quais são as novidades?

— Novidades? Estou estudando Jornalismo em Kiev, tenho meus dois amigos de sempre... Katya, que faz Medicina, e Sasha, que estuda Análise de Sistemas.

Sophie me olhou por alguns segundos.

— Certo. Você sabe que não é disso que estou perguntando.

Meu estômago gelou na hora.

O que será que ela sabia?

— Então sobre o que você quer saber?

Sophie sorriu.

— Sobre sua vida de modelo. Não tenho visto você nas revistas...

Por um instante, senti o corpo relaxar.

— Ah. Isso.

Ela riu.

— Você achou que eu estava falando de outra coisa?

— Sei lá. Do jeito que você fechou a porta...

— Você é muito dramática.

Soltei o ar, aliviada.

— Você sabe que eu prefiro fotografia. Mas, no momento, meu foco total está no meu curso de jornalismo.

— Para, Larah. Você é linda. E trabalhar como modelo é um ótimo trabalho.

— Eu sei, mas nesse momento tenho outras prioridades.

Conversamos por horas. Quando finalmente fomos dormir, Paris já estava silenciosa do outro lado das janelas.

———
Na manhã seguinte, tomamos café no Carette, na 4 Place du Trocadéro. O salão parecia ter sido feito para manhãs sem pressa: mesas pequenas de mármore, cadeiras de madeira escura, espelhos altos nas paredes e grandes janelas voltadas para a praça. A luz de Paris entrava suave pelos vidros, misturando-se ao brilho das luminárias e ao movimento dos garçons entre as mesas.

O cheiro de café recém-passado se misturava ao da manteiga quente dos croissants que saíam da cozinha. Havia o tilintar das xícaras, o ruído discreto dos talheres e aquela conversa baixa que parecia fazer parte da própria cidade.

Sentamo-nos perto da janela.

Do outro lado do vidro, Paris começava a acordar. Pessoas atravessavam a praça com casacos elegantes, bicicletas passavam pelas ruas ainda úmidas e, ao fundo, a Torre Eiffel aparecia entre os prédios como se sempre tivesse estado ali apenas para completar a paisagem.

Sophie pediu o café como quem nunca precisou consultar um cardápio.

Katya, ao contrário, passou algum tempo olhando para o menu, incerta. Sorri, achando graça.

Ela olhou ao redor, tentando absorver tudo sem parecer que estava olhando demais.

— Então essa é a Larah que eu ainda não conhecia.

— Eu sou a mesma Larah de sempre. Aqui, na faculdade ou no Ibis, café é café.

Katya me olhou, incrédula.

— Não é mesmo. E pensar que a gente quase morreu alguns dias atrás e agora estamos aqui tomando café ao lado da Torre Eiffel é surreal.

Sophie sorriu, sem entender uma palavra sequer.

— Do que vocês estão falando, Larah?

— Do café. Só do café.

Katya voltou os olhos para o salão. Estava deslumbrada.

Terminamos o café entre conversas e risadas. Eu era a intérprete improvisada entre as duas: Sophie, curiosa sobre Kiev, e Katya, fascinada por Paris. Enquanto traduzia de um lado para o outro, meus pensamentos estavam em outro lugar.

— Precisamos voltar ao trabalho — disse Sophie, olhando o relógio.

— Paris não espera ninguém, chérie — ela se levantou, pegou a bolsa. — Hoje temos prova técnica, não podemos nos atrasar.

Saímos do Carette e o contraste foi imediato. A Paris dos cartões-postais deu lugar à Paris dos bastidores.

O local da prova técnica não tinha o charme da Place du Trocadéro. Era uma estrutura efêmera, montada às pressas num pátio industrial a poucos passos do Grand Palais. Do lado de fora, seguranças com fones de ouvido bloqueavam a entrada. Do lado de dentro, o verdadeiro caos organizado da Paris Fashion Week.

O ar era denso, uma mistura sufocante de vapor de steamers, laquê Elnett, café queimado e adrenalina. Não havia glamour ali, apenas o trabalho bruto. Refletores de obra iluminavam araras metálicas organizadas com precisão militar, e o chão de linóleo estava marcado com fita crepe indicando a posição exata de cada modelo.

Sophie mudou na hora. A postura relaxada do café evaporou. Ela enfiou um fone de ouvido, pegou um lookbook amassado e se tornou outra pessoa — fria, rápida e letal. Desapareceu no meio da multidão, gritando instruções em francês para uma equipe que tentava fechar um vestido de seda com costuras invisíveis.

Katya ficou parada no meio do furacão, girando devagar, tentando processar a absurdade daquilo. Mulheres seminuas sendo pintadas por maquiadores exaustos, estilistas chorando por causa de um detalhe, gente correndo com cabides como se carregassem ouro.
— Isso é... — ela começou, a voz sumindo no meio do som de uma batida eletrônica que ecoava dos caixas de som.
— Bem-vinda à moda — respondi, ajeitando a alça da minha bolsa. — É só roupa, Katya. No fim das contas, é só pano.

Foi então que o celular vibrou no meu bolso.

Sasha.

- Oi Larah temos problemas. Cheguei em Pisky. é um vilarejo pequeno mas, ninguém sabe de nada. Isso aqui tá muito estranho. estou indo para Donetsk ver o que descubro por lá. Preciso de um hotel com boa internet, aqui mau pega o celular.

- Tudo bem Sasha me liga logo que descobrir alguma coisa.

Fiquei olhando pra tela por um tempo.

Ao meu redor, alfinetes prendiam tecido caro em corpos perfeitos, sob luzes desenhadas pra esconder qualquer imperfeição.

Em Donetsk, meu amigo estava sozinho, num prédio queimado, atrás de uma mulher que talvez nunca mais aparecesse.

◆

Larah Yang — Réplicas Imperfeitas

Paris  •  03/03/2014

Acordei com a luz do sol invadindo o quarto, o ar fresco entrando pela fresta da janela. Fiquei um instante imóvel, os olhos ainda preguiçosos, sentindo o lençol macio contra a pele.

Lá fora, Paris começava a despertar — o som distante de uma veneziana sendo aberta, o tilintar de xícaras, o arrastar leve de passos na calçada. O cheiro suave de café, misturado com algo doce — talvez croissant.

Estiquei os braços acima da cabeça, bocejando devagar. Foi então que percebi a presença de Katya à minha frente, o cabelo preso de qualquer jeito, ainda mais parecendo que estávamos de volta ao Madain. Sentei rapidamente na cama e perguntei o que aconteceu.

Ela riu baixinho, balançando a cabeça.

— Nada. Só vim te chamar para tomar café. Sophie já está com a mesa pronta.

Deixei o corpo relaxar de novo, apoiando as mãos no colchão.

— Você me assustou — murmurei, mas já estava sorrindo.

O sorriso dela, porém, não durou. Seus olhos desviaram por um instante, e a voz ficou mais baixa:

— Larah, estou preocupada com Sasha. Ele não mandou nada desde ontem.

Peguei o celular no criado-mudo, deslizando o dedo pela tela. Nenhuma mensagem nova. Guardei a preocupação para depois e forcei um sorriso:

— Vou mandar mensagem pra ele. Fica tranquila, ele está bem.

Katya me olhou por um segundo a mais, como se quisesse dizer algo, mas desistiu. Em vez disso, estendeu a mão para mim.

— Então levanta — disse ela. — Antes que o café esfrie.

Saímos no início da manhã. O frio de Paris era diferente do de Kiev: mais úmido, polido, cheirando a manteiga tostada e café fresco em vez de borracha queimada e fumaça de pólvora. Comprei em uma banca perto da estação de metrô um jornal parisiense que destacava a foto de um sexagenário do sul da França, investigado por vender réplicas perfeitas como se fossem originais. Segundo a manchete, a justiça havia aberto um inquérito em março contra ele e sua família, que retocavam quadros comprados em feiras e os vendiam na internet com assinaturas falsas de artistas famosos.

Katya se aproximou, espiando o jornal sobre meu ombro.

— O que tem de bom aí?

— Um homem que vendia réplicas como se fossem originais — respondi, passando os olhos pela matéria. — Dizem que enganou colecionadores durante anos.

Ela arqueou uma sobrancelha, sem entender completamente, mas com a curiosidade de quem sabe que há mais naquela história do que eu estou contando.

Guardei o jornal debaixo do braço e continuei andando. Mas senti um estalo incômodo no peito. As réplicas enganavam até os olhos treinados enquanto estivessem sob a luz certa. De certa forma, eu também me sentia dividida entre duas versões de mim mesma

A Larah que brilhava sob os holofotes — ou a Larah que arriscava a vida para mostrar a verdade ao mundo com sua lente?

Qual das duas era a original, e qual era a réplica convincente demais?

Dobramos a esquina de volta ao ateliê, onde o ensaio já devia estar começando. Sophie estava impecável.

— Achei que vocês tinham voltado pra Kiev — disse Sophie, meio brincando, meio séria. — Preciso de você. O ensaio geral começa em vinte minutos, e amanhã é o dia. Grand Palais, luzes, imprensa do mundo inteiro. Hoje é a prova final das peças. O estilista quer ver o movimento de algumas saias, e você tem o corpo exato para aquela medida.

Segui Sophie, Katya me acompanhou, o celular pesando no bolso mais do que deveria. Antes de entrar, olhei mais uma vez — Sasha não tinha respondido. Ele não tocava no celular desde a última mensagem. Isso me deixou mais inquieta.

Chegamos a uma sala iluminada por luzes frias de estúdio. Um homem de cabelos grisalhos, óculos de aro fino, estava inclinado sobre um manequim, ajustando uma prega com alfinetes.

— Larah, este é Monsieur Moreau — disse Sophie, em francês. — Ele trabalha com a Chanel há décadas.

Moreau levantou os olhos para mim. Um sorriso discreto, quase imperceptível, cruzou seu rosto.

— Chérie — disse ele, em francês, com um sotaque que eu já conhecia. — A menina modelo que sumiu do mapa.

— Sou eu — respondi, educadamente.

Ele fez um gesto com a mão, como quem dissolve qualquer formalidade. Moreau me virou de frente para o espelho, avaliando meu corpo com o olhar preciso de quem desenha silhuetas há décadas.

— O vestido é para uma modelo de passarela, mas o movimento da saia precisa ser testado em um corpo real. Você tem a medida exata que eu preciso.

Já estava acostumada com aquilo — sendo virada, ajustada, alfinetada. Katya observava de uma poltrona no canto, o celular esquecido no colo, os olhos acompanhando cada movimento.

Moreau trabalhou em silêncio por alguns minutos. Depois, afastou-se um passo, inclinou a cabeça, avaliando o resultado. Seu olhar desviou para Katya.

— E sua amiga? — perguntou, em francês, sem tirar os olhos da silhueta dela. — Ela também é modelo?

— Não — respondi, em francês. — Ela é minha amiga. Veio de Kiev comigo.

Moreau franziu os lábios, pensativo. Caminhou até um cabideiro, pegou um vestido longo de seda creme, e estendeu-o na direção de Katya.

— Pois hoje ela também vai ser modelo — disse ele, com um sorriso. — Pelo menos por algumas horas.

Katya olhou para mim, confusa.

— O que ele disse? — perguntou, em ucraniano.

— Ele quer que você prove um vestido — respondi, baixinho.

Ela franziu o cenho, cruzando os braços.

— Não, Larah. Eu não vim para isso.

Moreau, sem entender as palavras, mas entendendo o tom, manteve o vestido estendido, o olhar paciente.

— Katya — insisti —, é só uma prova de estúdio. Você tem a altura certa.

Ela hesitou. Seus olhos foram do vestido para mim, depois para Moreau, que ainda esperava com o sorriso quase paternal.

— Uma prova — repetiu ela, como quem testa a ideia.

— Só uma prova.

Katya suspirou. Levantou-se devagar, caminhou até Moreau, pegou o vestido e foi vesti-lo.

Moreau me ajustou mais algumas vezes, afastou-se, inclinou a cabeça, aproximou-se de novo. O silêncio do estúdio era quebrado apenas pelo som dos alfinetes contra o tecido e pelo ranger das molas do manequim sendo movido.

Do outro lado da sala, Katya estava de pé diante do espelho, imóvel, como se tivesse virado estátua. O vestido de seda creme caía sobre ela com uma leveza que eu não esperava. Moreau a virou devagar, ajustou a alça, deu um passo atrás.

— Você está linda — disse eu, em ucraniano, baixinho.

Ela me olhou pelo espelho e revirou os olhos.

— Estou cheia de alfinetes, Larah. Parece que estou sendo espetada por um ouriço.

Moreau, sem entender, mas ouvindo o tom, riu baixinho. Caminhou até Katya, ajeitou a barra da saia, deu mais dois alfinetadas.

— Só mais um pouco — disse ele, em francês, como se ela pudesse entender.

Ela suspirou, mas dessa vez com um meio sorriso. Seus olhos encontraram o próprio reflexo no espelho. Estava vestida como se fosse outra pessoa — como se a Paris da moda tivesse a transformado.

Foi quando a porta se abriu.

Um homem entrou sem bater. Barba branca, camiseta preta, uma câmera pendurada no pescoço. Seu olhar percorreu a sala até pousar em nós.

Moreau virou-se, e seu rosto se iluminou.

— Lindbergh — disse, em francês. — Você veio.

O fotógrafo deu dois passos para dentro, os olhos ainda fixos em nós.

— Moreau. Ouvi dizer que você estava fazendo mágica aqui.

— Estou — respondeu Moreau, com um sorriso. — E você chegou na hora certa. Preciso que você veja o movimento desses vestidos. A luz do seu olhar é melhor que a de qualquer estúdio.

Lindbergh não respondeu. Apenas levantou a câmera.

— Continuem — disse, com um sotaque alemão macio. — Finjam que eu não estou aqui.

Katya me olhou, confusa.

— O que ele disse? — sussurrou, em ucraniano.

— Que vai nos fotografar — respondi, sem mexer os lábios. — Só continua.

Moreau recuou, deixando-nos sozinhas no centro da luz. Lindbergh deu alguns passos laterais, como quem dança com a câmera.

Clique.

Katya soltou um suspiro, baixinho.

— Eu odeio alfinetes.

Clique.

— Você está linda — repeti.

Clique.

— Amanhã, no Grand Palais, vou fotografar o desfile inteiro — disse ele.

Moreau sorriu. Katya, que não entendera nada, olhou para mim pelo espelho e levantou uma sobrancelha, como quem pergunta: "O que foi?"

— Já estamos acabando aqui — respondi, sem traduzir o resto.

Ela respirou aliviada, como se tivéssemos escapado de algo maior.

E depois voltou a olhar o próprio reflexo no espelho, como se estivesse se reconhecendo em uma versão de si mesma que não sabia que existia.

Terminamos e Sophie já estava à nossa espera na porta do ateliê.

— Como foi? — perguntou ela, ajustando a bolsa no ombro.

— Como sempre — respondi, com um sorriso de quem foi torturada para que outra pessoa brilhe no desfile. — Acho que seu vestido vai ficar perfeito. Levei todas as alfinetadas por você, Sophie. Amanhã você vai estar linda.

— Larah, quanto drama — Sophie revirou os olhos, rindo. — E você diz que eu sou a dramática. Pois fique sabendo que vou fechar o desfile com o vestido creme que sua amiga provou. Tá?

Katya, que estava em silêncio apenas observando nossa conversa, puxou meu braço.

— O que foi? — perguntou, em ucraniano.

Acabei de saber que o vestido do fechamento foi você que provou — respondi, baixinho.

Ela arregalou os olhos por um instante. Depois, um sorriso discreto.

Nessa hora, lembrei do celular. Mas estava sem bateria.

— Preciso carregar isso — mostrei o aparelho para Sophie. — Ele morreu.

Ela apontou para um restaurante próximo.

— Vamos almoçar e ja resolvemos isso.

Pegamos uma mesa perto do Sena. O sol já estava alto, a luz dançando sobre a água. Pedi salada, croque-monsieur e uma água. Sophie ficou apenas na salada. Katya não tirava os olhos do menu.

— Larah, estou com fome — disse ela, em ucraniano, com um gemido dramático. — Preciso de comida de verdade. Isso é comida de passarinho.

Traduzi o que ela disse, e Sophie riu alto.

— Pede uma omelete — sugeriu Sophie, em francês, ainda rindo. — Ou um croque-monsieur grande. Aqui eles fazem bem.

Eu ri e traduzi. Katya suspirou aliviada e fez um gesto para o garçom, apontando o croque-monsieur com convicção.

— Pronto — disse ela, em ucraniano. — Agora sim. Isso é um almoço.

Pedi para o garçom me emprestar um carregador. Ele levou o celular, conectou-o a uma tomada atrás do balcão, e voltou com um sorriso discreto, como quem diz "está resolvido".

Terminamos o almoço. Sophie estava radiante naquele dia — conversamos muito, rimos, e até Katya, aos poucos, demonstrou que tinha gostado da experiência. Seus olhos brilhavam quando falava do vestido, mesmo que ela tentasse disfarçar.

Eu, porém, não conseguia esquecer o celular. Aquilo parecia uma eternidade. Antes mesmo da carga completa, pedi licença, levantei-me e fui até o balcão.

— Já está bom — menti, em francês, pegando o aparelho.

O garçom levantou uma sobrancelha, mas não disse nada.

Voltei à mesa. A tela acendeu com a pouca carga que havia. Deslizei o dedo.

Uma mensagem de Sasha.

"Estou em Donetsk e a coisa está estranha por aqui. Homens armados invadiram a sede do governo hoje. A ONG... ninguém sabe dela. Ou não sabem, ou não querem falar. Acredito mais na segunda opção. Já percebi que estão me vigiando — ou isso também pode ser coisa da minha cabeça."

Liguei imediatamente para ele, mas ninguém atendia, logo perceberam minha preocupação, Katya entendeu tudo na hora mas eu não poderia deixar Sophie saber sobre isso. Então eu Guardei o celular no bolso com um sorriso forçado.

— Tudo bem? — perguntou Sophie, inclinando a cabeça.

— Tudo — menti. — Só uma mensagem de um amigo.

Ela me olhou por um segundo a mais, mas não insistiu. Pagou a conta, como sempre.

— Vou voltar para o apartamento— disse ela, em francês. — Amanhã o dia vai ser longo. Preciso descansar. Vocês ficam?

— Sim, vamos dar um passeio.

Nos despedimos.

— Vamos — disse eu. — Quero te mostrar um lugar.

Caminhamos pelas ruas até chegarmos ao Sena. A Pont Neuf se estendia diante de nós, suas arcadas de pedra refletidas na água, os rostos esculpidos nas laterais observando a cidade como faziam há séculos.

— É linda — disse Katya. — Parece mais antiga do que tudo que eu já vi.

— É a ponte mais antiga de Paris — respondi. — E o nome significa "ponte nova".

Ela riu.

— Os franceses têm um senso de humor estranho.

Descemos as escadas até o Square du Vert-Galant, na pontinha da ilha. As árvores criavam uma sombra suave, e o rio corria devagar ao nosso redor.

O sol da tarde já começava a mudar de cor, e Paris se preparava para o pôr do sol.

— E aquela estátua? — perguntou Katya, apontando para o centro da ponte.

— Henrique IV. Foi destruída durante a Revolução Francesa. A que está ali hoje é uma réplica.

Katya não disse nada por um momento. Apenas observou a estátua, o sol poente refletindo em seus olhos.

— Uma réplica — repetiu ela, baixinho.

Eu a olhei. Ela ainda estava de perfil, os olhos fixos na estátua.

Eu não respondi. Só olhei para o Sena, a luz dourada se espalhando sobre a água.

Katya sorriu. E, juntas, ficamos em silêncio vendo o sol se pôr sobre a ponte mais antiga e mais "nova" da cidade.

———

O celular vibrou na minha mão. O coração disparou — Sasha, pensei. Sasha finalmente.

Atendi sem olhar o nome na tela.

— Alô?

— Larah! — A voz de Claire me surpreendeu. — Oi, menina! Estamos aqui!

Levei um segundo para processar. Claire.

— Claire? — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — O que você quer dizer com "aqui"?

— Paris, boba! Chegamos ontem. Não poderíamos perder o desfile da Sophie por nada neste mundo. O Jacques está indo buscar os pais na casa deles.

Olhei para Katya, que me observava com preocupação. Sorri — um sorriso verdadeiro, dos que doem de tanto alívio misturado com surpresa.

— Vocês estão em Paris — repeti, como se dissesse em voz alta para acreditar.

— Estamos. E amanhã vamos nos encontrar no desfile. Mas não conta pra Sophie, tá? É surpresa.

— Não vou contar — prometi, a voz ainda trêmula.

Desliguei e fiquei olhando para o celular por um momento. O peso no peito ainda estava lá — Sasha, Donetsk, os homens armados — mas agora havia uma luz no meio daquela escuridão.

— Quem era? — perguntou Katya.

— Claire. A cunhada de Sophie. Eles vieram do Brasil para o desfile. — respirei fundo. — É uma surpresa.

Katya sorriu.

— Sua mãe, você quis dizer.

— Ela não é minha mãe.

— Mas ela te criou desde os 6 anos.

— Isso é verdade. — olhei para o Sena, a luz dourada se desfazendo. — Mas minha mãe morreu. Na verdade, tem muita coisa que eu não sei.

Katya não disse nada. Apenas tocou meu braço, e ficamos ali, em silêncio, vendo a noite começar a cair sobre Paris.

◆

Larah Yang — O Brilho da Bijuteria

Paris  •  04/03/2014

Acordei com o barulho. A equipe da Chanel praticamente tinha sequestrado Sophie. Eram tantas pessoas, tanta gente falando ao mesmo tempo em francês e inglês, que ela mal conseguiu me dar um "bom dia" antes de ser puxada pelos braços para o carro de preparação.

Katya já estava na cozinha, tomando café sozinha, quando desci. A luz cinzenta da manhã parisiense cortava as cortinas de linho do dúplex. Juntei-me a ela na mesa de mármore, ainda tonta pelo sono entrecortado.

— Você dormiu? — perguntou ela.

— Um pouco.

— E o Sasha?

Apertei o guardanapo entre os dedos.

— Nada. Nenhuma mensagem.

Ela não insistiu. Apenas empurrou uma xícara de café quente na minha direção. Sabia exatamente o que o silêncio significava.

———

Chegamos ao Grand Palais pouco antes das dez. A luz da manhã entrava pelo teto colossal de vidro e aço, criando um clarão dourado sobre tudo o que tocava.

O cheiro era inconfundível: uma mistura refinada de perfumes importados, arranjos de flores frescas e um fundo acolhedor de pão quente saindo do forno. O cenário montado na nave central parecia saído de um sonho cinematográfico — gôndolas altas e impecáveis repletas de produtos com a logomarca da Chanel, frutas coloridas polidas à mão, garrafas com rótulos estilizados de água mineral e massas com caixas exclusivas de alta-costura. Um supermercado de luxo em escala monumental.

O som era uma sinfonia contínua: o clique frenético de centenas de lentes, o burburinho ritmado de mais de três mil convidados ocupando os assentos e a voz grave dos anunciantes em francês e inglês orientando a multidão para os seus lugares.

Katya parou estática no meio do corredor principal, olhando ao redor de boca aberta, o queixo quase tocando o peito.

— Isso é... uma loja? — sussurrou ela, atordoada.

— É a Chanel — respondi, abrindo um meio sorriso.

As modelos começavam a cruzar o espaço entre as prateleiras cenográficas, algumas carregando cestinhas de compras aramadas em couro preto acolchoado. Reconheci de imediato alguns dos rostos mais famosos do planeta: Caroline, Issa, Maartje, Rianne.

Katya as observava sem piscar, os olhos arregalados de quem vinha de um hospital de campanha onde pessoas morriam em macas de compensado.

— Elas parecem... de outro mundo. — Sua voz saiu quase como uma confissão silenciosa. — Lá no Maidan, tudo era só terra, fumaça e ossos. Aqui, parece que a gente entrou numa vitrine.

— São de outro mundo — falei, baixinho, sentindo o nó na garganta. — Por um dia.

— E as joias? — perguntou ela, sem tirar os olhos do desfile. — Isso é ouro mesmo?

Segui o olhar dela. As modelos carregavam peças da joalheria da casa — colares robustos em metal dourado, pulseiras empilhadas, broches em formato de camélia. Tudo real. Tudo Chanel.

Mas não era isso que me prendeu a atenção.

Na segunda fila da plateia VIP, uma mulher de blazer vermelho acompanhava o desfile com um colar imenso — pedras redondas, brancas, grandes demais para serem o que fingiam ser. Eu sabia exatamente o que eram. Cresci rodeada de mulheres que usavam o real; aprendi cedo a diferença pelo reflexo. Pedra genuína captura a luz e a fragmenta. A pedra falsa simplesmente a devolve — lisa, perfeita, morta.

Aquele colar devolvia a luz.

— Aquela ali — murmurei para Katya, inclinando levemente a cabeça na direção da mulher. — Biju. Com certeza.

Katya franziu a testa.

— Como você sabe?

— O reflexo — respondi. — O real nunca é tão perfeito.

Ela ficou olhando por um segundo, tentando enxergar o que eu via. Desistiu e voltou os olhos para as modelos.

Eu fiquei com o pensamento: ali, no meio de tudo que era genuíno — o ouro, o tweed, o talento —, uma bijuteria passava despercebida. Brilhava como tudo o mais. Enganava à distância. E ninguém ao redor sequer suspeitava.

Lembrei de uma frase que meu pai adorava dizer: "Nem tudo que reluz é ouro."

Naquele momento, sem saber ainda o porquê, aquela frase pesou diferente.

———

A música eletrônica pulsou forte pelas caixas acústicas e o desfile começou. As modelos desfilavam entre as gôndolas com passos seguros e despreocupados — os clássicos casacos de tweed misturados a tênis esportivos brilhantes e detalhes em neon. O público aplaudia a cada bloco temático.

E então, Sophie apareceu.

Ela surgiu no final da nave, vestindo exatamente a peça de seda creme que Katya tinha provado no estúdio de Monsieur Moreau. O caimento era perfeito. O tecido parecia flutuar rente ao chão, refletindo a claridade que descia da abóbada de vidro como se tivesse sido desenhado sob medida para aquele instante exato, aquela luz e aquela passarela.

O público inteiro se levantou. Sophie era o fechamento.

Caminhou devagar, segurando a cesta de compras com uma elegância altiva, os olhos cravados no horizonte das arquibancadas. Mas, por uma fração de segundo, seu olhar cruzou a multidão e encontrou o meu. Ela sorriu — um sorriso mínimo, cúmplice, guardado só para mim.

Uma tempestade de aplausos tomou o Grand Palais. Chuva de flores, clarões de flashes espocando por todos os lados.

O desfile culminou em uma marcha conceitual: as modelos retornaram em fileira empunhando megafones de tweed e erguendo cartazes de protesto de alta-costura: "History is her story", "Tweed is better than tweet", "Women First".

Olhei para o lado. Katya aplaudia de pé, os olhos azuis marejados.

— Eu estou... emocionada — disse ela, com a voz embargada, quase como se estivesse confessando um crime diante do contraste com Kiev.

— É a Chanel — murmurei, segurando o braço dela. — Sempre faz isso.

———

Nos bastidores, após o encerramento, o ar era pura euforia e vapor de ferro de passar. Sophie estava cercada por assistentes, estilistas com tesouras penduradas no pescoço e dezenas de fotógrafos da imprensa mundial.

Assim que ela se virou e nos viu no meio do corredor de acesso, seus olhos brilharam com intensidade.

— Vocês viram? — gritou ela, em francês, a voz rouca de excitação. — Eu fechei!

— Nós vimos! — respondi, adiantando-me e envolvendo-a num abraço apertado. — Você estava absolutamente deslumbrante.

Katya deu um passo à frente, encabulada, e estendeu a mão com delicadeza.

Sophie deu uma gargalhada solta e puxou Katya para o mesmo abraço coletivo.

Foi então que meus olhos se desviaram para o fundo do corredor de circulação.

Parado a cerca de vinte metros, entre o vaivém de araras e caixas de maquiagem, um grupo familiar nos observava em silêncio, sorrindo.

Jacques, com Claire ao lado em um casaco de lã suave. Antoine, o irmão primogênito, discreto e elegante com seus óculos de armação fina. E, de braços dados com eles, os pais de Sophie — Henri e Margot —, visivelmente comovidos.

Sophie ainda estava rindo das palavras de Katya quando seu olhar seguiu o meu e encontrou os cinco.

Ela travou. O riso congelou em seus lábios.

— Não... — sussurrou Sophie, cobrindo a boca com as duas mãos trêmulas. — Não acredito...

Ela não esperou que ninguém dissesse nada. Ergueu as barras de seda do vestido e correu.

Jacques a ergueu do chão num abraço vigoroso. Depois Antoine a abraçou com seu afeto contido de irmão mais velho, beijando-lhe a testa. Em seguida, Claire a acolheu entre lágrimas, e os pais a envolveram num ninho de carinho. Todos começaram a falar ao mesmo tempo — um turbilhão caótico de português, francês, gargalhadas e exclamações de orgulho.

Dei dois passos para trás, sentindo o calor daquela cena me inundar. Katya se encostou ao meu ombro.

— São eles? — sussurrou Katya ao meu lado. — A sua família do Brasil?

— A família de Sophie — respondi, a voz tremendo de leve. — Os irmãos, a cunhada e os pais. — Fiz uma pausa, sentindo o peito apertar. — Jacques e Claire me criaram. Desde os meus seis anos, no Brasil. Então aquela também era minha família.

Katya buscou meus dedos e apertou minha mão em silêncio. Não precisou dizer nada.

Sophie se virou no meio da família, com o rímel levemente borrado, apontou na minha direção e acenou com urgência, me chamando para dentro do círculo.

Caminhei até eles.

Antes que eu pudesse falar qualquer palavra, os braços macios de Claire me envolveram. O perfume inconfundível dela — lavanda fresca e um toque suave de baunilha — me atingiu como uma onda de maré do Campeche, trazendo à tona a praia, as noites quentes de Florianópolis e a segurança da casa que eu havia deixado para trás.

— Minha menina... — disse Claire em português, beijando minha bochecha com fervor e segurando meu rosto entre as palmas quentes. — Como você está linda. Que saudade, meu Deus.

Jacques me envolveu logo em seguida com seu abraço firme, batendo duas vezes nas minhas costas, a voz grave e reconfortante:

— Conseguimos fazer a surpresa, petite. Sophie quase desmaiou.

Não consegui formular uma frase inteira. Apenas afundei o rosto no casaco de Claire e apertei o abraço, deixando que aquele amor familiar fizesse uma trégua no caos que ardia dentro de mim.

———

Depois da explosão de cumprimentos, champanhes abertos e entrevistas que arrastaram Sophie para os estúdios laterais, consegui me afastar por alguns minutos.

Sentei-me num banco isolado de madeira escura perto de uma das saídas de emergência dos bastidores, onde o barulho dos salões chegava abafado.

Tirei o celular do bolso. O metal estava gelado.

Deslizei a tela.

Nenhuma notificação. Nenhuma chamada perdida. Nada.

Sasha continuava mudo.

Olhei para a fotografia rápida que eu havia conseguido fazer de Sophie desfilando com o vestido creme. O enquadramento era limpo, profissional, digno de uma capa de revista. Mas, por trás daquela estética impecável, minha cabeça estava a milhares de quilômetros dali: nos blindados carbonizados da Instytutska, nas salas gélidas de Pisky, na sede do governo de Donetsk cercada por homens armados e naquele amigo que havia me protegido de uma granada de choque para agora sumir sem deixar rastro.

Katya apareceu na curva do corredor e veio caminhando devagar até mim. Sentou-se ao meu lado sem pedir licença.

— Você está bem? — perguntou ela.

— Estou — menti, sem desviar os olhos da tela apagada do celular.

Katya apenas repousou a cabeça no meu ombro. Sabia que era mentira.

———

O burburinho na área VIP dos bastidores voltou a ficar mais alto quando Jacques e Claire apareceram com duas taças de cristal na mão.

Só que eles não vieram sozinhos.

Atrás deles, vinha meu pai. Com aquele jeito dele de andar devagar, como se o tempo fosse dele e ele não devesse nada a ninguém. Terno cinza-chumbo sob medida, sobretudo de caxemira aberto sobre os ombros largos — o visual de sempre, impecável, meio distante — como se ele ainda não tivesse decidido se aquele lugar merecia a presença dele.

Ele cumprimentou Jacques com um aperto de mão seco. Formal, direto — o gesto de homens que se conheciam há tempo suficiente para não precisarem provar nada um ao outro. Seus olhos escuros e atentos se voltaram para mim, avaliando se eu havia dormido pouco, se estava inteira. E por um segundo imperceptível, uma fresta de alívio suavizou o canto de sua boca, como se confirmasse que eu estava bem.

— Larah — ele disse, com aquela voz baixa e firme que eu conhecia bem. — Fez boa viagem?

— Sim, pai — respondi, levantando-me para receber seu abraço. — Foi uma viagem rápida.

Puxei Katya pelo braço, trazendo-a para perto de mim.

— Pai, essa é a Katya. Minha amiga de Kiev. Ela faz Medicina.

Katya estendeu a mão. Sem hesitação, sem aquele jeito de quem fica esperando o outro decidir se vai cumprimentar ou não.

Meu pai apertou a mão dela — rápido, seco, polido. O aperto de quem faz isso centenas de vezes por ano e já nem pensa mais no gesto.

Nesse exato instante, o celular dele vibrou. Um som curto, seco, abafado pelo tecido pesado.

Meu pai não hesitou. Tirou o aparelho, olhou para o visor — e algo mudou. Não no rosto, que continuou impassível. Foi no ritmo. Aquele microssegundo de pausa que ele sempre fazia antes de qualquer gesto... sumiu.

Ele guardou o telefone e fez um gesto cortês com a cabeça para Katya.

— Com licença. Preciso atender uma ligação.

Virou as costas e caminhou com passos rápidos em direção a uma alcova vazia sob os arcos de ferro do Grand Palais, onde o vão das escadarias engolia o som.

Katya foi até Claire e Sophie. Ninguém prestava atenção em mim.
Eu deveria ter voltado para o grupo. Deveria ter pego minha taça, rido da piada de Jacques, comemorado com Sophie.
Em vez disso, fiquei parada.

Estranhei. Ele nunca havia atendido um telefone no meio de uma conversa. Nunca.

Deslizei entre as cortinas pesadas de veludo preto que dividiam a antessala. O barulho do Grand Palais ficou abafado, distante. A alcova estava a menos de quatro metros. Eu não conseguia ver o rosto dele — só o perfil, o telefone encostado na orelha, a mão livre enfiada no bolso do sobretudo.

Conversaram menos de um minuto. O barulho do Grand Palais era tanto que apenas ouvi:
— ...Ivan... Do pobachennya.

Ele guardou o celular. Ficou imóvel por um segundo, olhando para a claraboia, reorganizando a compostura.

Até então, eu não sabia que meu pai falava ucraniano.

Voltei até onde Katya estava encostada na parede. Ela olhou para mim e franziu a testa.
— Você está pálida.
— É o calor aqui dentro — menti. — Vou pegar uma água.
Ela não insistiu. Mas seus olhos ficaram em mim por um segundo a mais do que o necessário.
Foi então que meu pai reapareceu entre as araras de roupas. A máscara estava de volta — não que ele tivesse tirado, mas agora eu sabia que existia. Ele ria de algo que Jacques disse, com aquela risada curta e educada que usava em eventos. A mão direita enfiada no bolso do sobretudo, a esquerda segurando uma taça que não beberia.
— Larah — chamou Claire, aproximando-se com o rímel levemente borrado de tanto chorar de alegria. — Me conta, como está o curso de jornalismo? Está conseguindo acompanhar tudo?
— Estou indo bem — respondi, a voz saindo mais plana do que eu gostaria. — As aulas estão intensas, mas... estou indo bem.
Ela me estudou por um instante. Claire sempre soube quando eu estava cansada, mas nunca soube quando eu estava mentindo. Felizmente, aquela tarde ela confundiu uma coisa com a outra.
— E Kiev? — perguntou ela, baixando a voz. — Jacques e eu vimos as notícias. Pareceu horrível.
— Foi — disse eu. — Mas no campus é seguro. Estamos longe do centro.
Meu pai se aproximou por trás de Claire, colocando a mão levemente no ombro dela. O gesto era gentil, fraternal. Eu tinha visto aquele mesmo gesto mil vezes em jantares de família.
— Se você sentir que corre perigo — disse ele, olhando para mim com aquela preocupação que eu já não sabia mais se era real —, uma ligação. O jato está à disposição a qualquer hora.
— Não se preocupe, pai. Estou bem.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, de canto, do homem que sempre tinha um plano B para tudo.
Sophie estava cercada por produtores da Vogue e do Le Figaro, segurando um buquê de orquídeas brancas que alguém lhe entregou.

O rímel agora estava derretido nas bochechas, mas ela parecia o retrato da felicidade. Aquele desfile foi o topo dela — eu sabia, ela sabia, todos sabíamos. Pelos próximos meses, Sophie pertenceria a esse mundo de flashes e aeroportos. Ela estava se despedindo de nós sem saber.

Antoine apareceu por um instante, tímido como sempre, e beijou a testa da irmã.

Henri e Margot, os pais de Sophie, trocavam cumprimentos com Jacques num francês rápido e caloroso.

Katya ficou ao meu lado durante todo aquele tempo, quieta, observando o espetáculo com os olhos de quem ainda não tinha decidido se aquilo era maravilhoso ou absurdo.

De vez em quando, ela me olhava de soslaio. Eu fingia não notar.

A despedida veio naturalmente, como essas coisas vêm quando ninguém quer admitir que é uma despedida.

Claire me abraçou demoradamente, cheirando a lavanda e champanhe.

Jacques bateu duas vezes nas minhas costas, com aquele afeto contido de quem me criou mas nunca precisou dizer isso em voz alta.

Sophie me puxou para um abraço apertado, sussurrando no meu ouvido:

— Obrigada por ter vindo. Você não imagina o que isso significou.

— Eu imagino — respondi. — E você foi deslumbrante.

Meu pai me beijou a testa, rápido, seco.

— Cuide-se — disse ele.

— Sempre me cuido, pai.

Ele não respondeu. Apenas acenou com a cabeça.

Katya e eu saímos do Grand Palais pelo corredor lateral, onde o ar de março ainda carregava o cheiro de ferro velho do rio Sena. Nenhuma de nós falou durante os primeiros minutos. Eu olhava para trás, para a fachada de vidro e aço, para as sombras que se moviam lá dentro.

Quando viramos a esquina, o edifício sumiu.

— E agora? — perguntou Katya, finalmente.

— Agora a gente volta para o apartamento da Sophie. Pega as malas. E... decide o que fazer.

Ela não perguntou o que eu queria dizer com decidir. Talvez soubesse. Talvez apenas estivesse cansada demais para exigir explicações.
O táxi nos deixou na Place du Trocadéro pouco antes do crepúsculo.

O apartamento estava vazio e silencioso, com o cheiro de velas apagadas e café da manhã de outra pessoa. Katya foi direto para o quarto de hóspedes, arrastando os pés. Eu fiquei na sala, parada diante da janela que dava para a Torre Eiffel, já acesa em luz dourada contra o céu cinzento.

Foi quando o celular vibrou na minha mão.
Sasha.

"Tenho novidades. Encontrei uma pista. Me liga quando puder."

Olhei para a tela por um longo tempo. Depois olhei para a porta fechada do quarto de Katya. E então, pela primeira vez desde que deixei Kiev, percebi que não sabia mais em quem confiar.

Guardei o celular no bolso. A palavra Ivan continuava queimando na minha cabeça, e agora ela tinha companhia: Do pobachennya. Meu pai, falando ucraniano com alguém.

A Torre Eiffel piscou do outro lado da janela, anunciando a hora. Eu deveria sentir saudade daquele lugar.
Mas tudo o que sentia era a urgência de voltar para o frio, para a fumaça, para o país onde nada fazia sentido — eu ainda não sabia o que meu pai estava escondendo. Só sabia que, pela primeira vez, eu queria descobrir a verdade.

◆

Larah Yang — Beco sem Saída

Kiev  •  05/03/2014

O avião pousou em Boryspil às três da tarde, com o sol baixo e o campo coberto por uma neve velha e cinzenta. Katya dormiu durante quase todo o voo — o rosto encostado no vidro, a respiração lenta, como quem finalmente cedia à exaustão. Eu não consegui fechar os olhos. Fiquei olhando para as nuvens e repetindo, num sussurro mental, as palavras que ouvira dois dias antes na alcova do Grand Palais: Ivan. Do pobachennya.

O táxi nos deixou em Pechersk pouco depois das cinco. O céu já escurecia e a luz dos postes piscava num amarelo doentio. Antes de subir, verifiquei o celular: nenhuma mensagem de Sasha.

No elevador, o silêncio pesava. Katya encostou a cabeça no espelho de olhos fechados. Fiquei encarando os números vermelhos no painel, sentindo um aperto no peito que eu não sabia nomear.

Entramos no apartamento e largamos as malas no corredor.

— Alguma notícia do Sasha? — perguntou ela, a voz arrastada pelo cansaço.

— Esqueci de te falar. Ele mandou mensagem ontem.

Katya parou no meio do caminho e se virou:

— Sério? O que ele disse?

— Que encontrou uma pista. — Puxei o celular do bolso, mas a tela continuava limpa. — Estranho... achei que ele teria mandado mensagem para você também.

Katya foi até o aparador e pegou o aparelho que deixara guardado antes da viagem. Ligou a tela.

— Nada. Nenhuma notificação. — Ela encarou o visor por um segundo a mais do que o necessário. — Ele deve ter imaginado que eu não levaria o celular e mandou só para você.

— Pode ser. Vamos organizar as coisas logo; amanhã bem cedo a gente pega a estrada.

— Vou ligar para o hospital e avisar que vou ficar mais uns dias fora — disse Katya, indo em direção ao quarto.

— Isso não vai te prejudicar? — perguntei.

— Que nada. Os plantões estão um caos desde o Maidan. Metade dos residentes sumiu e o hospital está remanejando todo mundo. Se eu me ausentar por uns dias, ninguém vai nem notar.

Foi quando meus olhos pousaram no canto da sala.

O carregador do MacBook estava plugado na tomada, o cabo enrolado no rodapé — exatamente como eu tinha deixado. Mas sobre a mesa não havia nada. Só o cabo solto.

Fiquei estática por um segundo.

— Katya.

— Oi?

— Você pegou o MacBook?

Ela apareceu na porta do quarto com uma blusa dobrada nas mãos:

— Não. Por quê?

— Ele não está aqui.

— Como assim? Você deve ter guardado em algum lugar.

— Tenho certeza absoluta de que não guardei.

Fui até o telefone fixo e liguei para a portaria. O tom de chamada tocou três vezes antes de o porteiro atender.

— Boa noite. É a Larah Yang. Alguém esteve no meu apartamento nos últimos dias?

Ouviram-se folhas de papel sendo manuseadas do outro lado da linha.

— Não, senhora Yang. Ninguém subiu ao seu apartamento.

Desliguei devagar. Encarei o cabo da fonte na parede por alguns instantes até que um pensamento me atingiu como um soco.

A câmera.

Corri para o armário do quarto. A bolsa preta estava lá, no nicho de sempre. Puxei o zíper.

Vazia. A Nikon não estava lá.

— Katya — minha voz saiu rasgada, mais alta do que eu pretendia.

Ela correu até a porta:

— O que foi?

— A câmera. Também sumiu.

Katya travou na entrada do quarto. De repente, os olhos dela se arregalaram num sobressalto de pânico:

— E os cartões, Larah?!

Meu estômago despencou. Ajoelhei-me junto à escrivaninha e puxei a gaveta lateral. O fundo falso continuava na mesma posição, mas, ao erguê-lo, o espaço estava limpo.

— Levaram os cartões — murmurei, sentindo o ar faltar nos pulmões.

Katya deu um passo à frente, a voz falhando:

— Quem sabia da existência do fundo falso?

Olhei para ela. O silêncio entre nós duas durou mais do que deveria.

— Você. E o Sasha.

A acusação flutuou no ar por um segundo denso e incômodo antes de Katya quebrar o transe:

— O que mais sumiu?

Corri os olhos pela penteadeira, pela caixa de joias no guarda-roupa, pelos eletrônicos na estante da sala.

— Nada — respondi, com uma calmaria assustadora. — O colar da Claire. Os brincos. O anel de ouro. Está tudo intacto.

— Não levaram nada de valor?

— Levaram apenas a nossa história — fechei a porta do armário com cuidado. — Levaram as fotos.

Katya levou a mão à boca, pensativa:

— Nem tudo... O Sasha fez o backup de segurança nos servidores.

— Sim — disse eu, tentando me agarrar àquilo. — As cópias existem. Mas precisamos do Sasha para acessar as chaves de encriptação.

O alívio veio fraco, como uma faísca impotente no meio da escuridão. Não adiantava ter o backup se a única pessoa com o acesso continuava incomunicável a centenas de quilômetros dali.

Liguei para a locadora e reservei um carro para a primeira hora da manhã. Katya voltou para o quarto e recomeçou a arrumar a mochila com gestos firmes e velozes.

— Larah — ela parou no meio do quarto, com a mochila meia aberta. — A gente reveza o volante. Não vamos parar para dormir em hotel nenhum. Chegamos a Donetsk direto.

Olhei para ela. Estava exausta, com sombras escuras sob os olhos e o cabelo desalinhado, mas trazia no rosto uma determinação feroz.

— Katya... estou com medo do que possa ter acontecido com o Sasha.

Katya assentiu em silêncio, fechou o zíper da mochila com força e me encarou:

— Eu também. É por isso que nós vamos encontrar ele.

Examinei a fechadura da porta de entrada. O espelho de metal estava intacto. Nem um risco no tambor, nenhuma marca de pé-de-cabra.

Katya percebeu o que eu estava olhando.

— Como eles entraram, Larah?

— Não arrombaram — murmurei, me levantando com a garganta seca. — Usaram chave.

Levei a mão ao bolso e tirei o celular. A dúvida queimava no meu peito.

Digitei o número do meu pai.

Ele atendeu no terceiro toque, com a voz impecável e o fundo em silêncio absoluto.

— Larah? Aconteceu alguma coisa?

Engoli em seco, forçando o tom mais leve e natural que consegui:

— Não, pai. Só liguei para avisar que cheguei bem a Kiev.

Houve uma pequena pausa do outro lado. O tom de voz dele mudou para a postura calculada de sempre:

— Você não avisou que ia voltar hoje? Por que não foi de jato com o Julien?

— As passagens comerciais já estavam compradas desde quando eu estava em Paris, pai — menti com rapidez. — Não queria incomodar.

— Você nunca incomoda, petite. Mas a cidade ainda está instável.

Acompanhei os olhos de Katya, que me observava em silêncio perto da porta.

— Tudo calmo por aqui. As aulas devem voltar ao ritmo normal esta semana.

Ele fez um breve interrogatório paternal — perguntou se eu precisava de transferências bancárias, se Katya estava comigo e se eu pretendia continuar na cidade até as eleições de maio. Respondi a tudo mantendo a calma.

— Está certo — disse ele, por fim. — Descanse e me avise se precisar de qualquer coisa.

— Pode deixar. Boa noite, pai.

Desliguei o aparelho e fiquei encarando a tela escura.

Organizei os fatos na minha cabeça. Meu pai poderia querer me afastar de Kiev, poderia querer esconder o que sabia sobre a Elena Petrova ou sobre a minha mãe... mas roubar fotos do Maidan? Não fazia sentido. Ele não tinha interesse nenhum no registro fotográfico de uma revolução de rua. A invasão do apartamento e o roubo cirúrgico dos cartões e da câmera vinham de outra direção — alguém que queria apagar os rastros do que aconteceu na Instytutska.

Olhei para Katya.

— Não era ele — falei, baixinho. — Mas quem quer que tenha entrado aqui tinha a chave. E pode voltar.

Katya encarou a fechadura intacta e assentiu, ajeitando a alça da mochila no ombro.

— Não vamos passar a noite aqui — disse ela.

— Não mesmo. Vamos pegar o essencial e ir para o ibis Kyiv City Center, na Tarasa Shevchenka. Fica longe de Pechersk, é discreto. Dormimos lá, pegamos o carro da locadora bem cedo e seguimos viagem para Donetsk.

Deixamos o apartamento em silêncio, descendo pelas escadas em vez do elevador.

Trinta minutos depois, estávamos no ibis Kyiv City Center, na Tarasa Shevchenka — já estivemos aqui antes.

O recepcionista era o mesmo. Levantou os olhos do computador quando entramos, e por um instante achei que ele fosse nos reconhecer. Mas ele não disse nada. Contou o dinheiro sem pressa, e deslizou a chave sobre o balcão.

Foi então que aconteceu de novo.

Os olhos dele ficaram fixos por um instante num ponto além dos nossos ombros, na direção da porta de vidro e da rua vazia lá fora — o mesmo movimento exato de semanas atrás, como se esperasse ver mais alguém atravessar aquela porta atrás de nós.

Ninguém entrou.

Ele baixou os olhos de volta para o computador, e o momento se fechou tão rápido quanto tinha se aberto. Talvez fosse só cansaço, ou hábito, ou o tique nervoso de quem trabalha sozinho de madrugada numa cidade em guerra. Mas alguma coisa naquele gesto era coincidência demais.

Subimos para o quarto em silêncio. Katya encostou a cabeça no travesseiro e adormeceu quase de imediato, vencida pela exaustão.

Fiquei junto à janela, vendo os flocos finos de neve caindo sobre as luzes amareladas da rua deserta.

— Katya — sussurrei, sem saber se ela ainda estava acordada.

— Hm? — a voz dela saiu abafada pelo travesseiro.

— Aquele recepcionista. Ele fez de novo aquela coisa de olhar pra porta, como se esperasse mais alguém.

Ela ficou em silêncio por um segundo antes de responder, os olhos ainda fechados.

— Eu vi. Não foi só você.

Ela não disse mais nada, e a respiração dela logo ficou pesada de novo, entregue ao sono.

Fiquei ali, olhando a neve cair, sentindo a certeza crescer dentro de mim como um frio que não vinha da janela: aquele gesto não podia ser coincidência.

◆

Larah Yang — O Fardo da Verdade

Kiev  •  06/03/2014

Acordamos antes do primeiro raio cinzento de sol tocar a vidraça embaçada do Ibis.

Eram seis da manhã em ponto. Precisávamos comer rápido, fechar a conta e seguir direto para a locadora perto da estação central antes que o trânsito da cidade despertasse. Na minha cabeça, cada minuto ganho era um quilômetro a menos entre nós e a estrada para o leste.

Descemos as escadas em silêncio. O salão do café estava praticamente deserto, banhado apenas pelas luzes fluorescentes e pelo zumbido mecânico da máquina de filtro. O cheiro de café forte e pão amanhecido preenchia o ar frio.

Foi quando o vimos.

O recepcionista da madrugada não estava atrás do balcão. Sentado numa mesa de canto, ao lado de um aquecedor de metal que estalava baixinho, ele vestia um casaco grosso de lã sobre o uniforme e segurava uma xícara fumegante com as duas mãos, esperando o fim do próprio turno.

Quando entramos, ele ergueu os olhos. Não foi um olhar banal de funcionário. Havia uma curiosidade pesada e incômoda naqueles olhos cansados — uma atenção que durou uma eternidade.

Olhei para Katya. Não precisamos de nenhuma palavra. A mesma certeza que tínhamos compartilhado na penumbra do quarto na noite anterior se acendeu entre nós.

Em vez de pegar uma bandeja, mudamos de rumo. Atravessamos o piso de linóleo e fomos direto até a mesa dele. Katya puxou uma cadeira sem pedir licença; eu me sentei logo em frente.

— Bom dia — falei, a voz clara, aberta, pontuada por uma firmeza que nem eu sabia que tinha.

O homem quase entornou o café. O susto foi nítido nos ombros tensos, na forma como o queixo dele recuou contra o colarinho. Ele pousou a xícara no pires com um tinido estridente e já ensaiava levar as mãos à mesa para se levantar.

— Meu turno acabou — murmurou ele, os olhos esquivando dos meus. — A Anna já está no saguão se precisarem de qualquer...

— O senhor nos deve explicações — cortou Katya, a voz baixa, cortante como um bisturi, sem dar espaço para ele respirar.

Inclinei-me ligeiramente sobre a mesa, sustentando o olhar dele.

— É a segunda vez que nos hospedamos aqui — continuei, mantendo o tom contido. — E é a segunda vez que o senhor nos atende olhando para a porta de vidro, medindo a rua, esperando ver quem vem atrás de nós. Quem o senhor estava esperando ver entrar ontem à noite?

O recepcionista congelou. A respiração dele saiu curta, condensando uma fumaça fina no ar frio do salão. Ele correu os olhos rapidamente pelo salão vazio, certificando-se de que a faxineira ainda estava na copa, e então, devagar, voltou a encostar as costas na cadeira de madeira.

Quando falou, o tom desceu quase a um sussurro rouco:

— Cadê o rapaz que sempre vem aqui? — perguntou ele.

Seus olhos deslizaram por um instante até a cadeira vazia ao lado da nossa mesa.

— Estranhei não ver o rosto dele ontem à noite.

Franzi a testa.

— Essa é apenas a segunda vez que nós viemos aqui.

— Vocês duas, sim — respondeu o recepcionista.

Ele baixou os olhos para a xícara, girando-a lentamente entre as mãos.

— Mas ele vem com certa frequência.

Senti Katya se mexer ao meu lado.

— Com que frequência? — perguntei.

O homem ergueu os olhos para mim, como se já tivesse dito mais do que pretendia.

— O bastante para eu notar quando não está.

O chão pareceu sumir sob as solas das minhas botas. Meu coração saltou contra as costelas com a violência de uma coronhada.

Um zumbido fino tomou conta dos meus ouvidos. Minhas mãos sobre a mesa ficaram geladas instantaneamente.

— O que o senhor sabe sobre o nosso amigo? — perguntei, a garganta tão seca que a frase quase não saiu.

O homem deu um sorriso amargo, sem nenhum traço de humor, balançando a cabeça devagar.

— Ele mora num alojamento de estudantes perto do rio — falei. — Nunca mencionou que vinha aqui.

— Ele frequenta este lugar — cortou o homem, sem alterar a cadência monótona. — Às vezes aluga um quarto. Às vezes sobe para o mezanino. Nunca fica muito tempo. E quase toda vez que aquele garoto atravessa a porta de vidro, não passam dez minutos antes de outro homem cruzar a mesma entrada atrás dele. Sempre homens de casaco escuro, olhar pesado, jeito de quem não é daqui. Fazem perguntas no balcão, querem saber se ele subiu sozinho, com quem falou.

O silêncio caiu como chumbo sobre a mesa.

Katya soltou uma risada curta, rouca e nervosa — aquele riso automático que a mente fabrica quando a lógica se recusa a aceitar o que ouve.

— Larah, esse homem está inventando — disse ela, gesticulando em desdém, mas com a voz falhando na ponta. — Só pode ter se confundido. Sasha é um garoto de 22 anos que estuda computação na KNU, divide um quarto minúsculo e quase desmaiou quando viu a perna daquele voluntário rasgada por estilhaço na praça...

O homem nem piscou diante da risada de Katya. Apenas continuou, fitando-a com uma calma desconcertante:

— Posso não saber quem vocês são nos papéis, mas não erro um rosto. Toda vez que vejo aquele menino entrar, eu fico olhando para a porta esperando ver quem é o próximo a cruzar a calçada atrás dele. Ontem à noite, quando vocês duas entraram sozinhas... achei que ...

Engoli em seco. Uma pontada fria desceu pela minha nuca. A lembrança do meu apartamento em Pechersk voltou em estalo: a fechadura intacta, a gaveta do fundo falso aberta sem um único arranhão, o cabo solto do MacBook sobre a escrivaninha. Quem entrou sabia exatamente onde procurar.

— Nós não estamos aqui por acaso — falei, inclinando-me para mais perto, a voz baixa e tensa. — Invadiram meu apartamento ontem. Estamos deixando Kiev agora de manhã.

O homem franziu a testa, os vincos profundos ao redor dos olhos se apertando em desconfiança e surpresa.

— Para onde vocês pretendem ir?

— Donetsk — respondi.

O recepcionista arregalou os olhos. Desta vez não havia indiferença nem hesitação; havia pavor genuíno. Ele se inclinou para a frente, as duas mãos espalmadas na borda da mesa:

— Menina tola... Não vá. Dê meia-volta agora. Em Donetsk não sobrou nada para você. Lá não há respostas. Só há morte.

— O que o senhor está dizendo? — perguntei.

Ele olhou rapidamente para a entrada do salão, como se até as paredes pudessem escutar.

— Vocês não viram as notícias?

Neguei com a cabeça.

O recepcionista se inclinou sobre a mesa.

— Na madrugada, a polícia entrou no prédio da administração regional. Tiraram os homens de lá e prenderam dezenas. O homem que dizia ser o governador do povo também foi levado.

— Gubarev? — perguntou Katya.

O recepcionista confirmou com um movimento curto.

— Esse mesmo. Mas não pensem que acabou. Durante o dia, eles voltam. À noite, aparecem outros. Alguns são daqui. Outros não.

— Outros quem? — perguntei.

— Homens que chegam em grupos, em carros sem identificação. Falam russo. Não usam uniforme, mas sabem exatamente onde ficar e a quem obedecer.

Katya se inclinou para a frente.

— Então o governo está ocupado pelos russos?

— Ainda não — respondeu ele. — Mas é isso que todos estão esperando para descobrir.

Ele apertou a xícara entre as mãos.

— As estradas para o leste estão cheias de barreiras improvisadas. Algumas são da polícia. Outras, de homens que ninguém conhece. Mandam os carros parar, perguntam de onde vêm e para onde vão. Ontem ouvi dizer que uma aldeia perto de Donetsk foi saqueada. Hoje dizem que foi outra. Ninguém sabe o que é verdade.

— E o senhor acredita nessas histórias? — perguntei.

Ele me encarou.

— Nesta cidade, menina, a verdade chega sempre depois do boato. Às vezes chega tarde demais.

O silêncio caiu entre nós.

— Donetsk não está em guerra — falei, mais para convencer a mim mesma do que a ele.

— Ainda não — disse o recepcionista. — Mas as pessoas já estão escolhendo de que lado vão ficar. E quando começam a escolher lados, ninguém mais pergunta quem começou.

Ele abaixou a voz.

— Se vocês forem mesmo, não parem em bloqueio nenhum. Não digam que estão procurando alguém. E, se encontrarem o rapaz que costuma vir aqui...

O homem parou.

— O que tem ele? — perguntei.

— Não deixem que ele escolha o caminho por vocês.

Saímos do hotel sem dizer mais nada.

Donetsk agora era nossa prioridade.

Já não estávamos indo apenas atrás de Ivan, Pont de Lumière ou da resposta sobre minha mãe.

Estávamos indo para uma cidade que começava a desaparecer dentro dos próprios rumores.

No saguão, pedi à recepcionista que chamasse um táxi. Enquanto esperávamos, tentei ligar para Sasha.

Uma vez.

Depois outra.

O telefone chamou até cair na caixa postal.

Na terceira tentativa, a ligação nem chegou a completar.

— Nada? — perguntou Katya.

Balancei a cabeça.

— Nada.

— Então vamos encontrá-lo.

Não havia drama na voz dela. Apenas uma decisão.

---

O carro estava no estacionamento subterrâneo de uma agência perto da estação central. Era um sedã compacto, cinza, com pneus de inverno e o interior cheirando a plástico novo.

O funcionário conferiu nossos documentos, apontou alguns riscos na lataria e explicou que o tanque estava cheio.

Katya guardou a bagagem e ocupou o banco do passageiro. Eu ajustei o espelho retrovisor, liguei o motor e deixei o aquecedor trabalhar por alguns segundos.

No rádio, uma voz em ucraniano falava sobre manifestações no leste, homens armados sem identificação e a situação cada vez mais tensa em Donetsk. As palavras se misturavam ao chiado da transmissão, como se até as notícias tivessem dificuldade para atravessar a distância.

Saímos do estacionamento pouco depois das sete.

Kiev ainda dormia sob uma camada de neve suja.

No cruzamento seguinte, olhei uma última vez para a cidade pelo espelho.

Não sabia quando voltaria.

Talvez não soubesse nem se voltaria.

Katya abriu o mapa sobre os joelhos.

— Primeiro Poltava?

Olhei para a estrada vazia diante de nós.

— Não. Direto para o leste.

— Larah, são muitas horas.

— Sasha está sozinho em Donetsk.

Ela não discutiu.

Apenas dobrou o mapa, guardou-o no colo e começou a observar a estrada.

O carro avançou para fora de Kiev enquanto o rádio anunciava que a situação no leste permanecia sob controle.

Poucos minutos depois, a transmissão caiu. Apenas o chiado estático da frequência vazia preenchia o carro.
Nenhuma de nós comentou.
A rodovia M03 se estendia como uma cicatriz cinzenta cortando a planície ucraniana. O céu de março não era azul nem branco; era uma cúpula de chumbo derretido, baixíssima, pressionando a terra. A neve das semanas anteriores havia se transformado em uma lama espessa e marrom que respingava nos vidros laterais a cada passagem de caminhão.
Eu dirigia com as duas mãos no volante, os nós dos dedos brancos. O aquecedor do carro novo soprava ar seco, mas o frio que eu sentia vinha de dentro.
Katya estava no banco do passageiro, o mapa de papel aberto sobre os joelhos, embora seus olhos raramente saíssem do retrovisor lateral.
— Quanto tempo até Poltava? — perguntei, a voz rouca.
— Quatro horas. Se o asfalto continuar assim — ela respondeu, dobrando uma ponta do mapa. — Larah... você tem certeza de que ele está lá?
— O recepcionista disse que o Sasha ia para Donetsk. E a última mensagem dele...
— A última mensagem dele foi ontem de manhã — Katya cortou, a voz trêmula, mas firme. — Antes de Gubarev ser preso. Antes de a cidade começar a fechar. Se o Sasha é inteligente, ele já saiu de lá.
— Ele não sairia sem me avisar.
Katya suspirou, esfregando os olhos.
— E se ele não puder avisar?
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o chiado do rádio. Eu sabia o que ela estava pensando. Eu também pensava. Mas parar significava aceitar que tínhamos deixado nosso amigo para morrer no escuro. E eu não estava disposta a carregar esse peso.
A paisagem começou a mudar conforme cruzávamos a região de Poltava. As fazendas coletivas abandonadas deram lugar a vilarejos de casas de tijolos baixos, com chaminés soltando fumaça branca. Os poucos carros que vinham na direção oposta tinham os faróis acesos, mesmo sendo dez da manhã.
Foi perto de Lozova que vimos a primeira fumaça preta.
Não era de uma chaminé. Era de um pneu queimado no meio do asfalto.
— Diminua — sussurrou Katya.
A duzentos metros, a pista estava bloqueada. Não era uma barreira oficial da polícia de trânsito. Era um amontoado de troncos de madeira, tambores de metal enferrujados e um ônibus velho tombado de lado.
Atrás da barricada, quatro homens. Dois usavam uniformes da polícia ucraniana, mas sem os distintivos. Os outros dois vestiam calças camufladas, botas pesadas e balaclavas pretas que escondiam seus rostos. Um deles segurava um fuzil AK-74 apontado para o chão, mas o dedo estava perto do gatilho.
— Stoy — disse Katya, apertando meu braço. Pare.
Pisei no freio. O sedã deslizou sobre a lama e parou a dez metros da barricada.
O homem de balaclava caminhou até o capô do carro. O cano do fuzil subiu, apontando direto para o meu para-brisa.
— Vidro abaixo — ordenou ele. O russo era arrastado, com um sotaque que eu não conseguia identificar. Leste? Sul?
Abaixei o vidro. O ar gelado entrou no carro, trazendo o cheiro de diesel e tabaco barato.
— Documentos. Para onde vão?
Entregui minha carteira. Katya entregou o passaporte ucraniano dela e a carteirinha da faculdade de Medicina.
O homem olhou os documentos, depois olhou para nós. Os olhos dele, visíveis através dos buracos da máscara, eram de um tédio cruel.
— Duas garotas de Kiev. Indo para Donetsk. — Ele riu, um som seco. — Vocês estão perdidas. A estrada está fechada para civis.
— Somos estudantes de Medicina — interveio Katya, a voz surpreendentemente estável. Ela apontou para a bolsa de lona no banco de trás. — Temos suprimentos. Analgésicos, gaze, antibióticos. Os hospitais em Donetsk estão sem nada desde os tumultos de ontem.
O homem de balaclava olhou para a bolsa. Por um segundo, achei que ele ia mandar a gente dar meia-volta. Mas a menção a remédios parecia ter um valor diferente ali.
— Médicas? — Ele olhou para o policial fardado ao lado da barricada, que deu de ombros.
O homem da balaclava se inclinou na janela. O cheiro de suor e metal saiu dele.
— Escutem bem. — A voz dele baixou, perdendo a arrogância, ganhando um tom de aviso. — O governo em Donetsk não existe mais. Quem manda lá são os homens do leste. E eles não gostam de gente de Kiev. Especialmente gente que faz perguntas.
— Estamos procurando um amigo — insisti, tentando manter o tom de súplica controlada que meu pai usava em negociações. — Ele sumiu.
O homem congelou. O tédio desapareceu dos olhos dele.
— Qual é o nome dele?
— Sasha. Sasha Volkov.
Ele olhou para o policial ao lado. Uma comunicação silenciosa, feita de microexpressões, aconteceu entre os dois. O homem da balaclava se endireitou e devolveu os documentos pela janela.
— Não conheço nenhum Volkov. Mas se vocês são médicas, passem. — Ele bateu no teto do carro com o cano do fuzil. — Mas se encontrarem um bloqueio russo depois de Izium, digam que são do setor de saúde. E rezem para que o comandante de lá esteja de bom humor.
Levantei o vidro. Meus pés tremeram ao pisar no acelerador. Contornamos o ônibus tombado e voltamos para o asfalto.
— Ele sabia de alguma coisa — murmurei, o coração batendo na garganta.
— Ele nos deixou passar porque achou que somos úteis — corrigiu Katya, olhando para trás. — Ou porque tem medo do que quer que esteja acontecendo lá na frente.
A tarde caiu como uma pedra. O leste da Ucrânia não escurecia; ele simplesmente se rendia a uma escuridão sem estrelas.
A paisagem fora do carro mudou de forma sutil, mas inconfundível. Os letreiros nas estradas, antes em ucraniano, agora ostentavam o cirílico russo com muito mais frequência. As estações de rádio que conseguíamos captar não falavam mais sobre o Parlamento em Kiev. Falavam sobre "autodefesa local", sobre "proteção contra fascistas", sobre "irmãos do outro lado da fronteira".
Era como atravessar uma membrana invisível. O ar parecia mais denso. A hostilidade, mesmo através do rádio, era palpável.
Perto das nove da noite, o ponteiro de combustível começou a baixar. Katya avistou a luz neon piscando de um posto de gasolina isolado, cercado por campos de beterraba congelados.
— Precisamos abastecer — falei.
Entrei no pátio de concreto rachado. Havia apenas um outro veículo estacionado: um SUV preto, de vidros fumê, motor desligado.
O frentista, um senhor de rosto enrugado e mãos manchadas de graxa, nos atendeu em silêncio. Enquanto ele enchia o tanque, Katya foi ao banheiro do posto. Eu fiquei no carro, tentando ligar para Sasha novamente.
Caixa postal.
Foi quando a porta do SUV preto se abriu.
O homem que desceu não usava balaclava. Usava um casaco de couro caro, botas de grife e um relógio que brilhava sob a luz fraca do posto. Ele não olhou para o frentista. Olhou direto para o meu carro.
Meu sangue gelou.
“Sempre homens de casaco escuro, olhar pesado, jeito de quem não é daqui.” As palavras do recepcionista do Ibis ecoaram na minha cabeça.
O homem caminhou devagar na minha direção. O som das botas dele no cascalho era o único ruído no mundo.
Meu pai. A ligação no Grand Palais. “Ivan. Do pobachennya.” Até logo.
O homem parou ao lado da minha janela. Não bateu no vidro. Apenas ficou ali, parado, me encarando através do vidro. Ele sabia quem eu era. Ou sabia de quem eu estava procurando.
Minha mão desceu para a bolsa, no banco do passageiro. Meus dedos roçaram o coldre de couro que meu pai me dera de presente no meu décimo oitavo aniversário, quando eu insisti em ir fotografar zonas de conflito na América Latina. Eu nunca tinha sacado a arma. Nunca tinha precisado.
A porta do banheiro do posto se abriu. Katya saiu, secando as mãos num pano de papel. Ela parou ao ver o homem parado ao lado do meu carro.
Ela não hesitou. Katya abriu a porta do passageiro, entrou, e bateu a porta.
— Dirige — ela disse, a voz baixa, os olhos fixos no homem lá fora.
O homem inclinou a cabeça, um sorriso mínimo e terrível curvando os lábios. Ele levantou a mão direita, num gesto que poderia ser um aceno de despedida, ou uma ameaça.
Pisei fundo. O carro cantou no asfalto molhado, deixando o posto para trás.
— Quem era aquele homem? — Katya perguntou, ofegante.
— Eu não sei — respondi, a verdade saindo amarga. — Mas ele sabe quem eu sou. E ele sabe que estamos indo para Donetsk.
Chegamos aos arredores de Donetsk pouco depois da meia-noite.
Não havia placas de "Bem-vindo". A cidade não nos recebeu; ela nos engoliu.
Os subúrbios eram um labirinto de fábricas soviéticas abandonadas, silos de concreto pichados e fileiras intermináveis de prédios de apartamentos cinzentos, com poucas janelas acesas. O céu sobre a cidade tinha um brilho alaranjado e doentio, reflexo de incêndios distantes ou de fornos industriais que nunca apagavam.
A rua principal estava deserta. As vitrines estavam cobertas por placas de madeira compensada. De vez em quando, víamos grupos de homens fumando na esquina de prédios, observando o carro passar com olhos desconfiados.
— Onde a ONG ficava? — perguntei, guiando o carro devagar por uma avenida de asfalto remendado.
— O endereço que o Sasha achou era numa rua residencial perto do rio Kalmius — Katya respondeu, consultando o celular sem sinal. — Mas com esses bloqueios... não sei se vamos conseguir atravessar a ponte.
Paramos o carro numa rua escura, sob a sombra de um prédio de nove andares. O silêncio de Donetsk era diferente do silêncio de Kiev. Em Kiev, o silêncio era de luto. Ali, o silêncio era de caça.
Descemos do carro, puxando os casacos para cima. O vento cortava a pele.
Caminhamos por dois quarteirões até o endereço.
Quando viramos a esquina, paramos.
O prédio da ONG não existia mais.
No lugar do número 14 da Rua Artema, havia apenas um terreno baldio, cercado por uma grade enferrujada. No centro do terreno, os escombros carbonizados de uma estrutura pequena. A madeira queimada ainda cheirava a cinzas frias. Alguém tinha colocado um buquê de cravos vermelhos, agora murchos e pretos de geada, sobre os destroços.
— Larah... — Katya sussurrou, cobrindo a boca.
Me aproximei da grade. Meus olhos varreram o terreno. E então, eu vi.
Preso nos arames farpados da cerca, a cerca de dois metros do chão, havia um pedaço de tecido azul.
Escalei a grade, ignorando o rasgo que o arame fez na minha calça jeans. Puxei o tecido.
Era um estilhaço de nylon azul-claro.
Com a palavra UN pintada em branco, desbotada pela fuligem e pelo fogo.
O capacete da ONU. O capacete de Ustym. O capacete que o rapaz carregava na catedral de São Miguel antes de morrer.
Meus joelhos cederam. Caí de joelhos na lama congelada, segurando o pedaço de plástico como se fosse uma relíquia sagrada.
— Ele esteve aqui — minha voz saiu como um gemido. — O Sasha esteve aqui.
Katya se ajoelhou ao meu lado, segurando meu ombro.
— Larah, olha — ela apontou para o chão, perto da base da cerca.
Enterrado na lama, semioculto por uma pedra, havia um pequeno objeto metálico.
Puxei-o para fora. Era um pendrive. Um pendrive barato, de plástico vermelho, com um arranhão profundo na lateral.
Não havia nome. Não havia etiqueta. Mas na lateral, gravado com a ponta de uma faca ou de uma chave, havia um símbolo.
Um pequeno círculo. Com uma cruz estilizada dentro.
O logotipo da Pont de Lumière.
Meu coração batia tão forte que doía. O Sasha não tinha sido apenas capturado. Ele tinha deixado um rastro. Ele sabia que estava sendo encurralado, e sabia que eu viria.
Guardei o pendrive no bolso interno do casaco, junto com os cartões de memória que eu tinha copiado em Paris.
Nesse momento, o som de motores pesados ecoou no fim da rua. Faróis varreram as fachadas dos prédios, iluminando a neve suja. Um comboio de três caminhões militares, sem insígnias, dobrava a esquina em nossa direção.
— Para o beco — Katya puxou meu braço. — Agora!
Corremos para a escuridão entre os prédios, enquanto os faróis nos cegavam e o som das botas pesadas começava a ecoar no asfalto.
A viagem tinha acabado. A guerra tinha nos encontrado.