Sobre a História
Mapas do Destino - A História de Larah é uma jornada comovente de superação, amor e destinos entrelaçados. Nascida em 1994, no caos de Donetsk, Ucrânia, Larah enfrenta a perda de seus pais biológicos ainda bebê, mas encontra esperança ao ser acolhida por Cheng Yang, um milionário franco-chinês movido por um impulso emocional mais forte. Levada para a França e, mais tarde, para o acolhedor Brasil, Larah cresce em Florianópolis sob os cuidados amorosos de Jacques e Claire Dubois, que se tornam sua família improvável. Entre memórias de um passado marcado pela guerra, encontros inesperados em Istambul e a construção de laços que transcendem o sangue, esta narrativa explora a força da conexão humana e a capacidade de redesenhar o futuro. Acompanhe Larah nesta história emocionante sobre curar feridas, encontrar pertencimento e descobrir que o destino é moldado pelas escolhas e pelos corações que cruzam nosso caminho.
Informações Editoriais
Autor: Everaldo José de Souza
Editora: Projeto Nexus
Ano de Publicação: 2025
Edição: 1ª edição
Número de Páginas: 200 (estimativa, ajustar conforme necessário)
ISBN: 978-0-000-00000-0 (placeholder, substituir pelo ISBN real)
Gênero: Romance
Tipo: Ficção
Formato: Livro físico (capa comum, 14x21 cm); e-book (opcional, confirmar)
Idioma: Português
Direitos Autorais: © 2025 Everaldo José de Souza. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma sem permissão escrita do autor, exceto em breves citações para resenhas.
Impressão: Impresso no Brasil
Contato: [email protected] (placeholder, substituir pelo contato real)
Personagens de Mapas do Destino - A História de Larah, em ordem alfabética.
Ana Prestes ..................... 12/01/1971 . Amiga de Jacques
Antonine Duboi .................. 22/07/1962 . Amiga de Jacques
Carlos Mendes ................... 20/03/1965 . Advogado
Cheng Yang ...................... 15/03/1964 . Franco-chinês milionário
Claire Dubois ................... 10/04/1972 . Esposa de Jacques
Dmytro Melnyk ................... 05/08/1971 . Pai biológico de Larah
Elena Petrova ................... 18/09/1966 . Enfermeira ucraniana
Everaldo Jose de Souza .......... 19/04/1976 . Líder do Projeto Nexus
Helena Silva .................... 25/02/1954 . Mãe de Claire
Henri Dubois .................... 15/10/1935 . Pai de Jacques
Ivan Kovalenko .................. 08/11/1952 . Guia ucraniano
Jacques Dubois .................. 22/06/1965 . Advogado francês
Julien Moreau ................... 12/12/1954 . Piloto de avião
Larah Yang ...................... 15/04/1994 . Protagonista
Margot Dubois ................... 30/07/1939 . Mãe de Jacques
Mei Yang ........................ 17/05/1967 . Irmã de Cheng
Nadia Shevchenko ................ 03/01/1951 . Parteira ucraniana
Oksana Melnyk ................... 28/02/1976 . Mãe biológica de Larah
Pedro Schmidt ................... 14/08/1968 . Amigo de Jacques
Petro Marchenko ................. 09/07/1959 . Piloto ucraniano
Pierre Dupont ................... 16/04/1944 . Administrador de hospital
Roberto Silva ................... 05/09/1949 . Pai de Claire
Sophie Dubois ................... 19/03/1976 . Irmã de Jacques
Shahra Marsh .................... 15/09/1956 . Vendedora de relíquias
Donetsk, 14 de Março de 1994
Escrevo no meu quarto, sob uma lâmpada que pisca com um zumbido constante. O vento entra pela janela mal fechada, trazendo um frio que corta os dedos e o cheiro de diesel da rua. O ar aqui tem um peso, misturado com mofo, que faz o peito apertar. Ouço passos pesados lá fora, botas ecoando na calçada, como se esta cidade nunca descansasse. Donetsk carrega um cheiro de carvão úmido e algo mais, uma tensão que nasce do abandono. Cheguei a Kiev ontem. No saguão do aeroporto, Ivan Kovalenko me esperava, um ucraniano de olhos fundos e rosto marcado. Ivan é o homem que escolhi para ser meus olhos e ouvidos. Viajamos doze horas até Donetsk, passando por fábricas paradas e vilas fantasmas. Meu hotel é uma relíquia soviética. A cama range e a janela mostra uma rua onde cachorros reviram latas de lixo. Donetsk é uma cidade dividida: prédios antigos misturam-se a mercados improvisados. Falam de greves nas minas e de bandidos armados nas estradas. Nossa ONG presta apoio humanitário, mas sinto que é pouco.
15 de Março
Acordei com um estrondo distante, provavelmente um acidente em mina de carvão. Ivan bateu na porta. — A vila a leste fica a poucos quilômetros — disse, em tom de aviso.
O Lada rangeu por estradas cheias de buracos até chegarmos a casas de madeira caindo aos pedaços. Entreguei uma caixa de remédios a uma mulher de olhos cansados; ela murmurou "spasiba", o filho magro agarrado à mão dela. Eles têm tão pouco, mas uma força enorme.
Mais tarde, num celeiro coberto de musgo, a atmosfera mudou. Um homem de barba rala, com um casaco militar velho, abriu uma sacola de lona. Vi um reflexo metálico, algo que carregava o peso de séculos. Ivan trocou palavras em ucraniano e fomos embora. O silêncio entre nós era denso.
20 de Março
Já estou imerso numa rotina de entregas. Conheci Petro Marchenko numa vila remota, um ex-piloto soviético com mãos trêmulas. Bebíamos horilka numa mesa improvisada. Petro mencionou rotas aéreas que poucos usam. Perguntei a Ivan sobre os rumores de conflitos e as máfias locais. — Aqui, sempre tem guerra, de um jeito ou de outro — ele disse.
25 de Março
Fomos a uma vila onde o silêncio pesava mais que o frio. Nadia Shevchenko, uma parteira idosa, pediu remédios e me levou até uma jovem grávida, pálida na cama. O quarto cheirava a ervas. Na volta, Ivan me contou que a jovem se chamava Oksana e estava sozinha. — Ninguém vive fácil aqui — murmurou ele.
1º de Abril
Donetsk amanheceu mais pesada. Vi homens suspeitos numa esquina; Ivan disse que são bandidos usando o caos pós-greves. Em Horlivka, uma menina de tranças loiras, Sofia, me deu uma flor murcha em troca da sopa. O sorriso dela contrastava com a sujeira do rosto. Depois, num armazém com cheiro de madeira podre, um homem com cicatrizes mostrou um relógio de parede com letras em cirílico. — Volte sempre — disse ele, com um sorriso torto.
7 de Abril
O cansaço já toma conta. Em Pisky, numa escola precária, um menino chamado Mykola escreveu seu nome num caderno novo e me mostrou, orgulhoso. À noite, a atmosfera mudou novamente. Ivan me levou a uma casa abandonada. Um ex-soldado mostrou uma adaga antiga com pedras no cabo. Quando a peguei, ele alertou: — As coisas vão piorar. Amanhã, volto à vila de Nadia. Ivan disse que Oksana piorou. Hoje, num mercado, vi um colar de pérolas numa banca. O vendedor, Bohdan Tkachenko, jurou que era "de sua família".
Donetsk, 15 de Abril de 1994
O vento sacode a janela, trazendo um frio que corta a pele, e a lâmpada no teto pisca, como se estivesse tão cansada quanto eu. Acordei cedo, com o peso de Donetsk na cabeça. Em Nice, o dia começava com o aroma de lavanda e o som das gaivotas. Aqui, cada amanhecer é uma luta. Vesti o casaco, desci as escadas rangentes e encontrei Ivan Kovalenko e Elena Petrova, prontos para mais um dia com a ONG.
Entramos no Lada, os pneus chiando no asfalto quebrado. Ivan dirigia, acendendo um cigarro, o cheiro de tabaco velho misturando-se ao ar frio. Seus olhos fundos varriam a estrada, como se conhecesse cada sombra.
— Vila a 20 quilômetros — disse, a voz curta, sem espaço para conversa.
Elena, no banco de trás, organizava caixas de remédios, os cabelos castanhos presos num lenço simples, as mãos rápidas apesar do cansaço. O Lada sacudia nos buracos, o motor rugindo contra a neblina fina da manhã. Os voluntários seguiam atrás em um UAZ, todos nós cortando o frio de 8 °C que parecia não acabar.
Chegamos à vila, um grupo de casas de madeira tortas sob um céu pesado. O chão, coberto de terra e folhas, grudava nas botas, e o ar cheirava a lenha queimada. Uma igreja com a cúpula quebrada aparecia ao fundo, quase sumindo na neblina. A vila estava quieta, com poucas luzes nas janelas e fumaça subindo de fogueiras improvisadas. Não havia vozes nem rádios, apenas o silêncio de um lugar que mal sobrevivia.
Descarregamos caixas de cobertores e remédios, o som dos pacotes cortando o ar. Elena pegou sua bolsa de remédios e foi com Nadia Shevchenko, a parteira, até uma casa onde Oksana estava em trabalho de parto. Ivan ficou comigo, os olhos atentos, como se esperasse algo. Organizei as caixas, o frio pesando nos ombros, uma tensão que eu não sabia explicar.
Elena voltou minutos depois com o rosto pálido e os olhos úmidos. Trazia a bolsa de remédios apertada contra o peito e, na outra mão, segurava um maço de papéis amarelados, amarrados com um barbante sujo. Parecia um caderno escolar velho, quase desfeito pela umidade.
— O que é isso? — perguntei, apontando para o entulho em sua mão.
Elena hesitou por um segundo, olhando para os papéis como se fossem vidro. Depois, guardou-os rápido no bolso fundo do casaco.
— Nada — respondeu, a voz trêmula. — Só... memórias. Ela não tinha mais nada.
Não insisti. Lixo sentimental não me interessava, e tínhamos problemas maiores.
— A jovem mãe morreu de hemorragia — Elena continuou, recuperando a postura profissional, embora a voz falhasse. — Sem chance de ajuda numa vila sem médicos. O marido dela, Dmytro, já estava morto, vítima de bandidos semanas antes. A filha deles, porém, nasceu viva.
A notícia me atingiu como o frio, pesada e sem aviso. Nadia correu até mim, segurando a bebê embrulhada num pano sujo. Seus cabelos grisalhos escapavam do lenço, e um pingente de cruz brilhava em seu peito, refletindo a luz fraca do amanhecer. Seus olhos azuis, duros como o inverno, encontraram os meus.
— A mãe morreu, o pai também — disse, com a voz cansada. — O orfanato em Donetsk não tem espaço. Ela precisa de vocês.
A bebê, com olhos azuis brilhando na palidez, chorava baixo, e algo em mim quebrou. Nunca segurei uma bebê antes; nunca senti um peso tão pequeno e tão grande. Nadia a abençoou dizendo "Larah", tirou o pingente do próprio pescoço e o colocou na bebê.
Elena, agora ao meu lado, tocou de leve o ombro da criança, lágrimas caindo. Os olhos dela, tão vivos, estavam fixos em mim. Elena olhou para a bebê e disse, com um sorriso torto e a voz cheia de esperança:
— Podemos cuidar dela.
Ivan cortou, seco:
— Não, Elena. Deixe a bebê aqui. É o lugar dela.
Seus olhos duros a calaram, numa ordem que não dava espaço. Nesse momento, embrulhei a bebê no meu casaco, o calor dela contra meu peito selando algo que eu não entendia.
— Ela vai conosco — eu disse.
Elena assentiu, aliviada, e vi sua mão tocar o bolso do casaco onde guardara os papéis, como se conferisse se o segredo — qualquer que fosse — ainda estava lá. Rapidamente, preparou uma mamadeira com o leite que levávamos para doações. Entreguei a bebê a Elena enquanto Nadia voltava para a casa. Olhei o relógio: seis da manhã.
Donetsk, 15 de Abril de 1994
A vila começava a acordar num murmúrio lento. As fogueiras cresciam, e um mercado improvisado surgia no centro. Uma mulher trocava batatas por uma vela usada, o cheiro azedo de horilka caseira no ar. Um homem, com um casaco de lã gasto e chapéu torto, oferecia um relógio velho por botas furadas, o rosto marcado pelo frio. Mulheres com lenços desbotados carregavam filhos magros, as mãos rachadas, sem nenhum traço de vaidade. Nossos cobertores e latas de sopa eram como ouro. Outros voluntários distribuíam suprimentos. Elena segurava a bebê junto ao peito, envolta em panos grossos. A pequena respirava curto, um som frágil que contrastava com a dureza ao redor. O pingente de cruz que Nadia colocara nela balançava levemente a cada movimento de Elena. Ivan caminhava pela vila, atento, ouvindo fragmentos de conversa em voz baixa, sempre olhando além das pessoas — para as estradas, para o horizonte. Quando derrepente Ivan ficou imóvel, o rosto voltado para o sul. Depois, abaixou-se e tocou a poeira da estrada com dois dedos. Tem coisa vindo — disse, sem elevar a voz. Não houve tempo para perguntas. O som chegou logo depois: motores desregulados, gritos distantes, o eco metálico de tiros disparados para o alto. Caminhonetes surgiram na linha de árvores, avançando rápido demais para serem curiosidade. Bandidos vindo em nossa direção. A vila entrou em pânico. Mulheres puxaram bebês para dentro das casas, panelas caíram no chão, voluntários largaram caixas abertas. Elena correu até mim, protegendo a bebê. Ivan correu até o UAZ e saltou para o banco do motorista. Entramos logo atrás dele; ajudei Elena a subir com a bebê e me joguei no banco do carona. Ivan arrancou em direção oposta, jogando o UAZ para uma trilha de terra estreita, quase invisível entre o mato seco. O primeiro tiro acertou a lateral de uma casa atrás de nós, levantando farpas de madeira. Outro passou alto demais, um zunido que se perdeu no vento. A estrada era um castigo. Buracos, pedras soltas, lama recente. O UAZ sacudia como se fosse se desmontar. A bebê começou a chorar, assustada pelo barulho e pelos solavancos. Inclinei o corpo sobre ela, protegendo-a com o braço, sentindo o coração pequeno bater rápido demais. Ivan dirigia em silêncio, os nós dos dedos brancos no volante. Ele disse vamos para o Aeródromo de Kramatorsk sem me olhar. Eu concordei. A vila ficou para trás, engolida pela poeira. Depois, nada além da estrada.
Aeródromo de Kramatorsk, 15 de abril de 1994
O relógio marcava pouco depois das nove. O aeródromo surgia no meio da planície como um cadáver esquecido. A pista de concreto estava rachada, coberta por poças antigas e marcas de pneus que ninguém se deu ao trabalho de apagar. Hangares desabados se alinhavam ao fundo, e carcaças de aviões soviéticos enferrujavam sob o mato alto, como ossos expostos ao tempo.
Ivan estacionou o UAZ atrás de um galpão semi-caído, fora da linha direta da pista. O motor ainda vibrava quando ele desligou. Ficamos em silêncio por alguns segundos, ouvindo apenas o vento e, ao longe, o eco de motores que já não nos seguiam de perto — mas também não haviam desistido.
Elena desceu primeiro, protegendo a bebê com cuidado. A bebê estava quieta, envolta em panos grossos. O rosto de Elena estava tenso, mas firme. Ela não perguntou nada. Apenas fez o que precisava ser feito.
Eu desci em seguida, avaliando o espaço, a pista, as rotas de saída. Não havia controle algum ali. Nenhuma torre ativa. Nenhum rádio confiável. Isso era bom. Lugares assim não fazem perguntas. — Ali — disse Ivan, apontando. No centro da pista, como se tivesse sido deixado ali por engano, estava o Antonov An-2. Grande demais, antigo demais, feio demais para inspirar confiança. Um biplano verde-oliva, com a pintura descascada e manchas de óleo marcando a fuselagem. As asas rangiam sob o vento frio. Um homem fumava encostado no trem de pouso. Baixo, ombros largos, rosto marcado por cicatrizes antigas. Petro Marchenko. Eu o reconheci na hora. Bebemos horilka há poucos dias e algumas histórias que prefiro não contar. Ivan foi até ele. Conversaram em ucraniano, rápido e baixo. Petro olhou para mim apenas uma vez, o suficiente para me medir. Não parecia impressionado. Melhor assim. — Ele voa — Ivan disse, voltando. — Baixo, fora das rotas. Até Lviv. — Quanto tempo no ar? — perguntei. — O necessário. Caminhei até Petro. Ele jogou o cigarro no chão e apagou com a bota. — Combustível não está barato — disse, em inglês rudimentar. Abri a bolsa, tirei o maço de notas e coloquei na mão dele sem contar ali mesmo. — Isso é para decolar agora — falei. — O restante, quando pousarmos. Petro pesou o dinheiro, avaliando não o valor, mas a minha calma. Depois assentiu. — Subam. Um estalo seco ecoou perto do galpão. Um tiro. Não perto o suficiente para acertar, mas próximo o bastante para avisar. — Agora — disse Ivan. Elena subiu primeiro pela escada metálica, com a bebê junto ao peito. Eu passei a mochila, subi logo atrás. Ivan foi o último, puxando a escada e fechando a porta pesada com um baque surdo. O interior do Antonov era pior do que parecia por fora. Cheiro de querosene, graxa velha e metal úmido. Bancos de metal presos às laterais, caixas de carga amarradas com cordas gastas. Nada ali fora feito para conforto. Tudo era funcional — ou já tinha sido, um dia. Elena sentou-se e ajeitou a bebê com cuidado, protegendo-a do frio. A bebê abriu os olhos por um instante, depois voltou a dormir, como se o barulho fosse apenas parte do mundo. O motor radial começou a girar, tossindo antes de ganhar força. O barulho era brutal, fazendo o corpo vibrar por dentro. O avião começou a se mover, lento, pesado. Outro tiro. Depois mais um. O Antonov correu pela pista esburacada, sacudindo como se fosse se desmontar. Por um segundo longo demais, tive certeza de que não sairíamos do chão. Então, com um solavanco violento, o avião se desprendeu da terra. Subimos devagar, relutantes, como se o ar não nos quisesse ali. A pista ficou menor. Os hangares viraram manchas. Os tiros desapareceram no vento. Só então respirei fundo. Elena manteve os olhos na bebê, murmurando algo baixo, talvez uma oração. Ivan observava pela pequena janela lateral, atento até mesmo agora, como se o perigo pudesse voar atrás de nós. O voo seguia áspero. O Antonov tremia com cada corrente de ar, e o motor rugia sem piedade. Não havia conforto, apenas resistência. Depois de algum tempo, Elena ergueu os olhos para mim. — Cheng — disse, quase gritando para vencer o barulho. — Precisamos dar um nome a ela. Olhei para a bebê. Pequena demais para tudo aquilo. Forte demais para não ter sobrevivido. — O que Nadia disse? — perguntei. Elena hesitou por um instante, lembrando. — Ela a abençoou — respondeu. — Chamou de *Larah*. Disse que significa fortaleza. Fiquei em silêncio. O avião sacudiu outra vez. — Então é isso — falei. — Larah. Elena sorriu, cansada, mas aliviada. A bebê se mexeu levemente, como se aceitasse o som. Lá fora, abaixo das nuvens, a Ucrânia passava em silêncio. Vilas, campos, estradas quebradas. Tudo ficando para trás. Eu não sabia ainda o que Larah seria para o mundo. Mas sabia exatamente o que ela era para mim.
Aterrissamos em Lviv pouco depois das duas da tarde. O Antonov tocou o chão com um impacto seco, fazendo a fuselagem gemer como um animal velho que finalmente aceita parar. O motor foi silenciado e, por um instante, tudo ficou quieto demais. O vento varria a pista improvisada, trazendo o cheiro de grama úmida e terra fresca — um contraste quase cruel depois de dias respirando querosene, poeira e medo. Larah dormia tranquila, embrulhada em panos grossos nos braços de Elena. O rosto pequeno estava relaxado, os lábios entreabertos, como se o mundo ainda não tivesse aprendido a feri-la. Aquilo me atingiu com força. Sobrevivemos. Não por sorte — por escolha. Descemos do avião sem pressa. Petro já não nos observava; estava ocupado demais contando dinheiro e cuidando para que ninguém fizesse perguntas. O acordo terminara ali. Petro sabia exatamente quando não falar. Ivan caminhou alguns passos à frente, avaliando o entorno com o mesmo olhar de sempre — atento, frio, prático. Elena levou Larah para uma sala de serviço próxima ao hangar e, com cuidado meticuloso, limpou-a e a preparou para a viagem, como quem apaga um rastro. Envolveu-a em panos limpos, secos e macios, depois a alimentou em silêncio. Quando terminou, Larah dormia profundamente. Elena veio até mim, respirou fundo e então, sem cerimônia, estendeu a bebê. Segurei Larah com cuidado. O peso dela encaixou contra meu peito como se sempre tivesse pertencido ali. Elena tocou de leve o rosto da menina, desta vez sem lágrimas. Apenas decisão. Inclinou-se e beijou a testa de Larah uma única vez — longa o suficiente para dizer tudo o que não precisava ser dito.
Ivan se aproximou. Não olhou para Larah; olhou para mim. Seus olhos diziam o que a boca não costumava permitir. — E agora, eu assumo tudo aqui? Respondi. — Sim. Eu confio em você. Ele assentiu uma única vez. Depois pousou a mão pesada no meu ombro. — Não olhe para trás, Cheng. Ele ficaria. Eu partiria. Cada um carregaria seu próprio peso. À distância, o Learjet 35 aguardava na pista secundária. Pequeno, elegante, deslocado naquele cenário de concreto rachado e hangares em ruínas. Ao lado da escada, um homem de sobretudo escuro observava o céu como se o mundo fosse sempre um mapa em movimento. Julien Moreau. Sorriu quando me viu se aproximar, mas o sorriso vacilou por um instante ao notar o que eu carregava. Não surpresa — cálculo. Julien era bom nisso. — Vejo que você trouxe algo que não estava no plano — disse, com a voz calma de quem prefere entender antes de julgar. — Mudei o plano — respondi. — E você vai me ajudar a sustentá-lo. Julien olhou para Larah. Os olhos azuis da bebê se abriram por um segundo, claros demais, profundos demais para algo tão pequeno. Ele expirou lentamente. — Certo — disse apenas. — Então vamos fazer isso direito. Enquanto os mecânicos checavam a aeronave, Ivan sorriu de lado, quase imperceptível. — Então está feito. A despedida não teve abraços longos nem promessas. Apenas acenos firmes. Pessoas como nós não dramatizam o que já dói o suficiente. Subi no Learjet com Larah nos braços. Julien fechou a porta atrás de nós e tomou o assento oposto, ajustando os cintos com tranquilidade. — Preciso de algumas horas — disse ele, enquanto ligava os sistemas. — Não para fazer perguntas. Para resolver coisas. — Você vai ter — respondi. O jato ganhou velocidade com suavidade, destacando-se do chão como se nunca tivesse pertencido àquele lugar. Lá embaixo, Lviv encolheu rápido. Depois, apenas nuvens. A cabine era silenciosa, confortável demais para quem acabara de sair do inferno. Segurei Larah com cuidado. Os olhos dela se abriram outra vez. Azuis. Não um azul comum — havia profundidade ali, algo que prendia o olhar. Julien percebeu, mas ficou em silencio. O Mediterrâneo ainda estava longe, mas já podia senti-lo. O passado de Larah ficava para trás, dissolvido entre pistas abandonadas e vilas sem nome. Ela se mexeu levemente em meus braços, como se entendesse que algo havia mudado. — Seu nome é Larah — murmurei. — E ninguém vai tirar isso de você. O Learjet seguiu firme rumo ao oeste. Antes da noite, estaríamos em casa.
Um novo lar para Larah
Aterrissamos num aeródromo privado nos arredores de Nice às sete e meia da noite. O impacto foi suave demais para quem vinha de pistas improvisadas e aviões sucateados. Quando os motores silenciaram, o ar entrou limpo pela escada aberta — lavanda, mimosas, sal do mar distante. Um cheiro de primavera que parecia quase indecente depois de tudo que ficara para trás. Desci do jato com Larah protegida sob o casaco. O peso dela era pequeno, mas absoluto. O céu de Nice estava limpo, tingido de azul profundo, e o Mediterrâneo brilhava ao longe como algo que sempre existira, indiferente a conflitos e acordos quebrados. Julien Moreau desligou os sistemas e ficou alguns segundos sentado, como se respeitasse o momento. Mei esperava no asfalto, ao lado da grade cromada do carro preto que reluzia sob o sol do Côte d'Azur. O motorista aguardava em silêncio. Julien havia ligado para ela ainda em voo, antecipando nossa volta da Ucrânia, e notei a expectativa nos olhos dela — tão parecidos com os de nossa mãe. Contudo, quando o olhar de Mei cruzou com o de Larah, o sorriso de boas-vindas morreu instantaneamente. — Quem é? — perguntou, baixo, já se aproximando. Sem dizer nada, entreguei Larah a ela. Mei a segurou com cuidado e curiosidade. Entrou no carro. Eu a segui em silêncio. Sentei ao seu lado. O cheiro de combustível misturava-se ao das oliveiras ao redor. Nice parecia um cenário artificial depois de Donetsk — limpa demais, silenciosa demais. O contraste quase feria. Pensei nos olhos azuis de Larah, no instante em que os vi pela primeira vez, e em como aquele olhar tinha atravessado tudo. O motorista nos levou para casa. Durante a viagem, Mei me disse: — Ela está bem. — E completou, sem tirar os olhos dela: — Agora você vai me contar? Contei o que ela precisava saber, apenas o suficiente: a vila, a ONG, a fuga, o nascimento, a morte da mãe. Falei de Ivan, de Elena, de como aquela criança mudou o que havia sido planejado para aquele dia. Mei ouviu sem interromper, o olhar firme. — Você fez o que nossa mãe faria — disse por fim, tocando minha mão. Assenti. Seguimos para a mansão da família Yang, à beira-mar. Chegamos pouco depois das oito. O jardim de lavandas e oliveiras estava prateado pela lua, e o canto dos grilos parecia ensaiado. A casa cheirava a jasmim e madeira encerada. Luxuosa, silenciosa. Mei improvisou uma cesta com cobertores macios e acomodou Larah na sala, perto da lareira. Depois preparou chá de jasmim e sentamos à mesa da cozinha. — Ela não pode voltar para a Ucrânia — disse, objetiva. — E sem documentos, não pode existir em lugar nenhum.
— Eu sei. Larah dormia. Pequena demais para entender que sua história já estava sendo reescrita. — Ela será registrada aqui. Em Nice. Mei me olhou por alguns segundos. — A hora do nascimento: seis da manhã. Mei assentiu. Entendeu que aquilo era importante. Julien, durante o voo, já havia ligado para Pierre Dupont, administrador do hospital Lenval. Pierre chegou às nove. Veio acompanhado de um médico que não fez perguntas desnecessárias. À luz dos candelabros da sala principal, o atestado foi preenchido: Larah Yang. Nascida em 15 de abril de 1994, às 06:00, em Nice, França. Antes de sair, recolhi do bolso interno do casaco um pequeno objeto embrulhado em pano. A correntinha. Fina, simples, quase nada. Guardei-a novamente, agora em local seguro. A Ucrânia tornou-se passado naquele instante. Pierre guardou o envelope no bolso do casaco e saiu com a promessa de que o registro estaria no cartório em dois dias. Às dez da noite, Larah existia oficialmente. Mei estava cuidando dela, ajeitando os cobertores. — Ela vai precisar de tudo — disse. — Fraldas, roupas, uma cama de verdade. Amanhã resolvo isso.
Sentamos na varanda. O mar refletia a lua como uma superfície de vidro. Dormimos pouco naquela noite. Fiquei no sofá da sala, perto da cesta. O som das ondas me embalou por algumas horas. Acordei com o choro de Larah já de manhã. Mei estava ajoelhada ao lado dela, trocando-a com cuidado. — Ela é forte — disse, sorrindo.
O cheiro de café e croissants encheu a casa. O dia começou com listas, telefonemas, compras. Um quarto foi preparado. Uma vida começou a se organizar em torno de algo frágil e definitivo. Segurei Larah enquanto Mei preparava o banho, observando seu rosto tranquilo. Seis da manhã. Eu lembrava do relógio. Sempre lembraria.
Um Futuro no Silêncio
Os dias após nossa chegada foram um borrão. Pierre Dupont confirmou o registro de Larah dois dias depois. A mansão, com seus muros altos e vista para o Mediterrâneo, tornou-se nosso refúgio. Mei dedicou-se inteiramente a Larah, enquanto eu cuidava dos negócios da família. Por diversas vezes, observei Mei alimentar Larah — seus olhos azuis brilhando — e senti alívio. Ela raramente chorava, e Mei, com uma melodia suave em cantonês, a acalmava no jardim, onde o cheiro de jasmim se misturava ao sal do mar. Nice, com seus cafés na Promenade des Anglais e o aroma constante de crêpes, parecia distante. Durante esse tempo, Larah crescia feliz. Parti em maio para viagens de negócios e retornei em julho, sob o calor de 28 °C. Larah engatinhava pelo tapete da sala, rindo quando Mei a perseguia. Toquei sua mão — uma pequena chama de vida que agora eu tinha o privilégio de conviver. Minha vida era feita de transações e negociações em Hong Kong e Bangkok. Ainda assim, Larah tornara-se o que eu tinha de mais precioso, e eu procurava, à minha maneira, ser o melhor possível para ela. Ao regressar em setembro, ela já dava passos hesitantes, caindo entre risos no pátio. Mei sorria, orgulhosa, e eu, de longe, assistia a tudo com incredulidade — mas com a certeza silenciosa de que tinha feito a coisa certa. Em fevereiro, o Carnaval pulsava em Nice. Confetes surgiam nas calçadas, e o som distante de música subia da Promenade. Dentro da mansão, o ritmo era outro — mais lento, marcado pelo balbucio de Larah e pelo canto das gaivotas. Mei a levava ao jardim num carrinho, onde o perfume de lavanda a fazia apontar flores. Larah dizia “mamã” para Mei, misturando francês e cantonês, e espalhava papinha, sujando o avental dela. Eu gostava de vê-la brincar com blocos de madeira, empilhando-os na sala; sua energia me fazia sorrir. A mansão tinha empregados suficientes para cuidar de Larah, mas Mei recusava ajuda. Dizia não confiar em mãos estranhas para isso. Eu não insistia. Nunca fui bom em discutir cuidados ou rotinas. Mei insistia para que eu brincasse com Larah. Eu até tentava, mas era desajeitado. Minha vida nunca fora feita para isso. Viajei ao Cairo em março, por duas semanas, e a Paris em junho, por um mês, em compromissos de negócios. A cada retorno, Larah parecia mais autônoma. Em agosto, sob o calor de 30 °C, corria pelo pátio, caía na grama e chegou a ralar o joelho. O som do mar, misturado ao canto de Mei, enchia a mansão. Naquela altura, a Ucrânia já não fazia parte da vida de Larah. Parti novamente para Bangkok em novembro, por três meses, e, ao voltar, Larah apontava gaivotas no céu, rindo alto. Larah e eu sempre tínhamos nossos momentos; com Mei eram brincadeiras e risos, comigo tudo era mais silencioso. Eu gostava de observá-la. Durante o Festival de Jazz, em julho, o som distante de trompetes chegava fraco até a mansão. Larah, com dois anos, falava frases curtas ao ver as lavandas. Mei lia contos, e Larah, sentada no tapete, ouvia com os olhos brilhantes. Brincava com bonecas de pano, correndo pelo jardim, onde o cheiro de sal e oliveiras a envolvia. Mei ensinava cores, e Larah apontava o azul do mar, sorrindo. Ao retornar de Milão em abril, passei algum tempo com ela e senti orgulho ao vê-la crescer. Era saudável, feliz, e Mei era tudo o que ela precisava. Entre maio e setembro, fiz negócios em Dubai e Londres, onde o ouro e as leis se misturam. Um aviso anônimo me deixou atento: “Você está chamando atenção. Tem gente grande de olho em você.” Reforcei a segurança da mansão com guardas discretos. Larah continuava saudável e protegida. Mei, com sua paciência, era a âncora que eu não podia ser. Ao voltar de Genebra em dezembro, sob o frio de 10 °C, Larah veio correndo me receber com um abraço quente. Em janeiro 1997, o aroma de socca pairava nas ruelas do Vieux Nice, mas a mansão permanecia um mundo à parte. Larah, com três anos, corria pelo pátio, desenhando com giz na pedra. Inventava histórias sobre borboletas que via no jardim. Mei a ensinava a contar, e Larah recitava números, rindo quando errava. O som das ondas, misturado ao perfume de jasmim, compunha seu cenário. Observei-a brincar de boneca ao voltar de Istambul em março, após um mês fora. Seus olhos azuis, brilhando como o Mediterrâneo, me desarmavam. Mei dizia que Larah perguntava por mim — e isso me deixava em silêncio por mais tempo do que eu admitia. Minhas viagens, porém, não podiam parar. Passei por Nova York em maio e Tóquio em agosto; fiquei longe por tempo demais. Em novembro, um homem me procurou na mansão, e isso me deixou atento. Mei continuava cuidando de Larah com a mesma dedicação silenciosa. Em dezembro, decidi ficar mais tempo em casa. A cidade se iluminava para o Natal — guirlandas nas varandas vizinhas, luzes refletidas no mar, o cheiro distante de castanhas assadas vindo das ruas. Dentro da mansão, Mei improvisou pequenos enfeites, mais por delicadeza do que por tradição. Larah desenhou uma casa com giz no pátio e disse que era “nossa”. Sorriu ao apontar uma estrela torta sobre o telhado. O brilho em seus olhos tinha algo de definitivo, como se aquele instante se gravasse sem pedir permissão. Voltei de uma viagem longa em abril de 1998, com o cheiro de mimosas enchendo o ar. Larah fez quatro anos no dia 15. Mei planejou uma celebração simples, quase discreta demais para ser chamada de festa — um bolo caseiro cujo aroma inundou a cozinha. Larah corria entre as lavandas do jardim, rindo, com um vestido de linho branco escolhido naquela manhã. Mei trouxe uma câmera compacta, normalmente guardada na biblioteca. — Para lembrar — disse, ajustando a lente. Começou com fotos de Larah sozinha, os dedos sujos de cobertura, rindo sem saber para onde olhar. Depois pediu que eu ficasse. Relutei por um instante, mas obedeci. Posicionou-nos entre as flores, o mar azul ao fundo. Em algumas imagens, Larah estava entre nós; em outras, apenas Mei e ela. Houve mais de um clique. Em uma das fotos, Larah sorriu diretamente para a câmera, os olhos claros brilhando — e naquele instante, algo que ainda não sabíamos nomear ficou registrado em silêncio. Fui a Pequim em julho, por dois meses, e retornei em setembro. Quando cheguei, Larah cantava músicas com Mei na sala. Ao me ver, largou tudo e veio correndo me abraçar, sem hesitar. Ao longo do dia, observei-a desenhar conchas no pátio, concentrada, e percebi como se encantava com o som das gaivotas cruzando o céu. Mais tarde, brincou de boneca à sombra da varanda, inventando diálogos que só ela compreendia. Mei a ensinava francês com paciência, e Larah já recitava pequenos poemas, rindo ao errar as palavras, sob o calor ameno de setembro, de 25 °C. Um momento ficou comigo. Larah apontou para o alto, acompanhando o voo de uma borboleta, e disse, com convicção tranquila: — Voa alto. Sorri. Não por acaso — mas porque, sem saber, ela descrevia exatamente o que eu desejava para ela.
Promessa à Distância
Ivan escreveu no início de dezembro. A letra era firme, como sempre, mas havia pausas estranhas entre as frases, como se tivesse pesado cada palavra antes de deixá-la no papel. Disse que continuavam no leste, ajudando onde ainda era possível. Que as estradas estavam mais perigosas, que vilas inteiras haviam sido esvaziadas depois de confrontos entre grupos armados. Que o medo agora não vinha com aviso — apenas se instalava. Falou de Elena. Disse que ela recusara sair quando teve a chance. Que assumira os atendimentos de emergência e organizava rotas improvisadas para levar crianças e mulheres a cidades menores, menos expostas. Ela não sabe ficar parada quando ainda há alguém precisando, escreveu, sem julgamento. Mencionou Nadia. A parteira havia se juntado aos voluntários da ONG e agora cuidava de recém-nascidos cujas mães não puderam ficar. Alguns nem têm nome ainda, acrescentou, quase como um pensamento tardio. Só então mudou o tom. Contou que, durante uma noite de bebida em Dnipro, ouvira homens falando de antiguidades, rotas antigas, peças que nunca chegaram a museus. Não eram locais. Falavam francês, inglês, um pouco de russo. Um deles mencionou o chinês. Disse que era cuidadoso demais para ser coincidência. Disseram que você acredita estar protegido atrás de muros e vista para o mar, escreveu. Riram disso. Ivan não fez ameaças. Nunca fazia. Apenas concluiu: Há mais caçadores agora. Alguns começaram aqui. Outros seguem rastros antigos. E quando alguém começa a fazer perguntas, não importa em que país você esteja. No final, quase como um detalhe prático, escreveu: Petro continua sendo meu homem de confiança para as próximas remessas de “relíquias”, como você gosta de chamar. Se algo mudar, aviso antes. Dobrei a carta com cuidado excessivo e fiquei algum tempo olhando o mar pela janela do escritório. Nice sempre parecera distante do mundo real — limpa, silenciosa, protegida por hábitos e dinheiro. Mas Ivan não escrevia rumores. Nunca escrevera. Pela primeira vez, pensei em Mei e Larah não como parte da minha vida, mas como alvos possíveis. E isso bastou. Na manhã seguinte, Larah brincava no tapete da sala com uma boneca nova, murmurando palavras que só ela entendia. Observei por alguns instantes antes de chamar Mei ao escritório. Fechei a porta com cuidado. Falei de forma simples, sem alarmes — disse que alguns problemas antigos estavam voltando e que talvez fosse prudente passarmos um tempo fora de Nice. Mei ouviu em silêncio, os braços cruzados, o olhar atento. Perguntou apenas se estaríamos seguras. Respondi que sim. Ela assentiu devagar, como quem aceita algo que não controla, mas confia. Mei saiu do escritório sem dizer nada, fechando a porta com cuidado. Fiquei ali por alguns instantes, ouvindo apenas o crepitar baixo da lareira e o vento frio vindo do mar, que fazia as janelas vibrarem levemente. Do corredor, passos pequenos cruzaram o tapete grosso. Larah surgiu, ainda segurando a boneca contra o peito. Os cabelos loiros estavam um pouco bagunçados; o rosto, quente demais para uma manhã tão nublada. Aproximou-se sem pressa. Seus olhos azuis — mais atentos do que eu gostaria — carregavam perguntas. Por que o mar faz barulho à noite? Por que as gaivotas brigam no céu? Depois, olhou para mim e perguntou, à sua maneira, por que eu viajava tanto. Não respondi de imediato. A casa estava aquecida, protegida, mas aquela pergunta atravessava os muros com facilidade demais. Ajoelhei-me diante dela e toquei sua mão pequena. Mesmo sem compreender o mundo, Larah já percebia quando algo nele parecia deslocado. Abracei-a. Conversamos por um tempo que não sei medir. Nos dias seguintes, Mei preparava discretamente a ceia de Natal. Alguns pratos simples, uma mesa arrumada com cuidado, pequenas luzes acesas na sala ao cair da noite. Não era uma data que eu comemorasse, mas havia uma criança em casa, e isso mudava o peso das coisas. Larah observava tudo com curiosidade, esperava presentes. Mei falava do Papai Noel com delicadeza, adaptando uma tradição estrangeira à nossa própria lógica. Teríamos uma noite familiar — breve, silenciosa — antes que o ano terminasse e decisões maiores nos alcançassem. Janeiro chegou frio em Nice. As manhãs eram úmidas, com o céu baixo e um vento cortante vindo do mar. Os documentos de Larah estavam prontos havia tempo; o resto foi resolvido com praticidade. Mei aceitou a viagem sem resistência. Para Larah, era simples: veríamos outro mar, outra areia, outras gaivotas. Ela repetia a palavra Brasil com curiosidade, como se fosse um brinquedo novo. Partimos numa manhã cinzenta. O carro deslizou pelos portões da mansão, e Nice ficou para trás envolta numa névoa leve. Julien nos acompanhava, discreto como sempre. No avião, Larah sentou-se entre Mei e eu, alternando o olhar entre a janela e nossas mãos. Em certo momento, perguntou se o mar do outro lado do mundo também fazia barulho à noite. Respondi que sim — mas que cada mar tem seu próprio idioma. Ela pareceu satisfeita. Mei sorriu. Foi a primeira vez que viajamos os três juntos, e isso alterou o peso do trajeto. Chegamos ao Brasil sob um calor que contrastava com tudo o que havíamos deixado. O ar era mais denso, salgado de outro modo, e a luz tinha uma intensidade quase indecente. Florianópolis nos recebeu sem cerimônia. A casa ficava próxima ao Campeche, afastada o suficiente para garantir silêncio, simples o bastante para não atrair atenção. Naquela mesma tarde, Larah correu descalça pela areia pela primeira vez, rindo quando a água fria tocou seus pés. Mei observava em silêncio, como quem decide guardar aquele instante para sempre. Fiquei poucos dias. O suficiente para garantir que tudo estivesse no lugar, que Mei se sentisse segura, que Larah associasse aquele novo espaço a algo leve. Para ela, era apenas uma viagem longa com o pai. Para mim, era outra coisa. Na manhã da despedida, Larah me abraçou sem saber por quanto tempo. Disse que me mostraria as conchas que encontrasse quando eu voltasse. Assenti. Sempre assinto. Quando parti, levei comigo apenas o que nunca consegui deixar para trás: a certeza de que estavam protegidas.
Eu, Jacques Dubois. Nasci em 1965, em Le Marais, um bairro pulsante no coração de Paris, onde o passado sussurra em cada esquina. As ruas estreitas, ladeadas por livrarias centenárias e cafés cheios de vozes, eram meu playground. Meu pai, Henri Dubois, era professor de História na Université Paris-Panthéon-Assas. Ele via o passado como um mapa vivo, traçado por revoluções, impérios e ideias que moldavam a justiça. À noite, na sala de nossa casa geminada, com janelas altas que filtravam a luz dourada do inverno, ele contava histórias de Robespierre, de Atenas, de revoltas distantes que faziam meus olhos de menino brilharem. “A justiça, Jacques, é o que segura o mundo”, ele dizia, apontando para os livros que lotavam as prateleiras, seus óculos refletindo a luz da lareira.
Minha mãe, Margot, esculpia o presente com mãos sempre manchadas de argila ou tinta. Artista plástica, ela transformava pedaços de barro em jarros delicados ou estátuas que pareciam capturar almas. Suas obras, expostas em galerias pequenas do Quartier Latin, atraíam poetas, filósofos e boêmios que discutiam arte como se fosse a própria vida. Eu, sentava no canto de seu ateliê, um espaço abarrotado de telas e cheiro de terebintina, fascinado por como ela dava forma ao caos. “Você já pensou no que quer moldar, Jacques?”, ela perguntava, sorrindo, enquanto eu tentava imitar seus gestos com pedaços de argila que sempre desmoronavam.
Nossa casa, antiga e cheia de rangidos, era um refúgio de ideias. O jardim interno, pequeno mas vivo, explodia em ervas e flores que Margot cultivava com o mesmo cuidado que dedicava às suas esculturas. Era ali que eu e meu irmão mais velho, Antoine, nascido em 1962, passávamos tardes discutindo o mundo. Enquanto eu sonhava com aventuras, Antoine, Já se perdia em livros acadêmicos, anotando ideias que o levariam a se tornar pesquisador. Ele tinha os olhos sérios do meu pai, mas um humor seco que me fazia rir, mesmo quando eu não entendia suas piadas sobre Maquiavel. Minha irmã caçula, Sophie, Corria pelo jardim com uma curiosidade que parecia não ter fim, dividida entre desenhar com Margot e ouvir as histórias de Henri, ainda sem saber se pertencia à arte ou aos livros.
Paris era mais que uma cidade; era minha escola. Eu caminhava por Le Marais com um caderno nas mãos, anotando os nomes das ruas — Rue de Birague, Place des Vosges — como se fossem versos de um poema. Os músicos de Montmartre, com suas melodias melancólicas, me paravam no caminho, e eu ficava ali, hipnotizado, imaginando as histórias por trás de cada acorde. Na margem do Sena, os livreiros abriam suas caixas verdes, oferecendo volumes amarelados que cheiravam a tempo. Eu comprava livros que mal entendia — Voltaire, Rousseau, até um exemplar surrado de Les Misérables — e os levava para casa, onde Henri me incentivava a ler com um brilho orgulhoso nos olhos. “A justiça não está só nas leis, Jacques. Está nas histórias das pessoas”, ele dizia, e eu acreditava, mesmo sem compreender totalmente.
Na adolescência, Paris começou a parecer pequena. As discussões no jantar, onde Antoine, desafiava meu pai com ideias sobre política moderna, eram intensas, mas eu me sentia à margem. Queria mais que as palavras dos livros; queria sentir o mundo. Caminhava até o Quartier Latin, onde os cafés transborda de vozes — estudantes, artistas, intelectuais debatendo Sartre, feminismo, revoluções distantes. Eu ouvia, tímido, tomando um café que custava metade do meu dinheiro de bolso. mamãe me levava às suas exposições, onde eu via suas esculturas ganharem vida sob as luzes suaves. “Você tem que encontrar seu próprio caminho, Jacques”, ela dizia, enquanto eu tentava entender por que meu peito parecia apertado, como se Paris, com toda sua grandeza, não fosse suficiente.
Entrei na Université Paris-Panthéon-Assas para estudar direito, seguindo os passos de meu pai, mas com uma inquietude que ele nunca teve. As aulas, cheias de termos jurídicos e debates sobre leis, eram fascinantes, mas eu passava mais tempo nas ruas que na sala de aula. Caminhava por Montmartre ao entardecer, o céu rosado refletindo no Sacré-Cœur, e me perguntava o que havia além daquelas colinas. Sophie, me acompanhava às vezes, rindo do meu jeito sério. “Você pensa demais, Jacques!”, ela dizia, pulando nas pedras da calçada. Antoine, mergulhado em sua pesquisa, me provocava: “Vai salvar o mundo com suas leis?” Eu ria, mas no fundo, queria mesmo era entender como a justiça funcionava fora dos livros.
Minha vida era confortável, mas incompleta. Paris, com seus cafés caros e invernos cinzentos, parecia um quadro que eu admirava, mas não pertencia. Conheci Carlos Mendes, um advogado brasileiro em Paris para um congresso jurídico. Ele falava francês com fluência, mas seus olhos brilhavam quando contava histórias do Brasil — um país de contrastes, onde a justiça era tão necessária quanto desafiadora. Sentado em um café na Place Saint-Michel, com o cheiro de croissants e fumaça no ar, Carlos descreveu Florianópolis, uma ilha de praias douradas e montanhas verdes, onde a vida parecia pulsar em um ritmo diferente. “Você já pensou em sair daqui, Jacques?”, ele perguntou, e a pergunta ficou ecoando na minha cabeça como um sino.
Em 1990, minha família decidiu fazer uma viagem ao Brasil, uma pausa do frio europeu que mamãe dizia “congelar os ossos". Papai, estava curioso com a história do Brasil colonial; mamãe, queria pintar os tons vibrantes do Atlântico. Antoine, ficou em Paris, preso a um projeto acadêmico, mas Sophie, veio conosco, fascinada pela ideia de um lugar tão diferente. Florianópolis foi um choque. O mar turquesa lambia as praias de areia fina, o ar cheirava a sal e liberdade, e as pessoas sorriam com uma leveza que Paris nunca teve. Passei dias explorando a ilha — a Lagoa da Conceição, com suas águas calmas; o Mercado Público, onde o cheiro de peixe se misturava ao som de risadas; as dunas de Joaquina, onde o vento parecia sussurrar promessas.
Na Praia do Campeche, sentado na areia com Sophie, observei as ondas quebrarem sob um céu que parecia infinito. “Você já se sentiu em casa em um lugar que não é seu?”, perguntei a ela. Sophie, com um caderno de desenhos nas mãos, riu. “Você tá ficando poético, Jacques.” Mas eu sabia que algo havia mudado. Paris era minha raiz, mas Florianópolis parecia meu destino. Carlos Mendes, que parecia sempre estar no lugar certo na hora certa, reforçou isso. Ele nos encontrou em Florianópolis com uma facilidade que, na época, atribuí à sorte das cidades pequenas, mas que hoje me faz pensar sobre como as pontas do destino se unem. “O Brasil precisa de pessoas como você, que acreditam na justiça”, ele disse, enquanto tomávamos água de coco. Suas palavras acenderam algo em mim — não era só curiosidade, era necessidade.
De volta a Paris, passei semanas inquieto. A cidade, com suas luzes e debates, parecia um eco do que eu já conhecia. Henri, percebendo minha agitação, sentou comigo no jardim. “Você não precisa ficar, Jacques. O mundo é maior que Paris”, ele disse, com um sorriso raro. Margot, ao lado, segurou minha mão. “Vá moldar seu próprio caminho.” Com um visto de estudante e economias modestas, tomei a decisão. Peguei uma mala, alguns livros e um caderno onde anotava sonhos que nem eu entendia. Disse adeus a Antoine, que me abraçou com um “Não se perca por aí”, e a Sophie, que prometeu me visitar. Paris ficou para trás, mas suas ruas, seus cafés, suas histórias viajaram comigo.
Enquanto observo Larah agora, em 2002, correndo pelo jardim sob o sol de Campeche com a mesma liberdade que eu buscava, sei que cada passo em Paris — cada livro, cada conversa, cada vazio — me trouxe até aqui. Florianópolis me espera, como me esperou em 1990, quando desembarquei com um misto de medo e esperança. O que encontrei aqui mudou minha alma, e sinto que o destino, que começou nas ruas de Le Marais, está apenas começando a revelar sua verdadeira face.
Cheguei em Florianópolis no dia 17 de setembro de 1990, com minhas malas, um visto de estudante e um coração dividido entre excitação e medo. A primavera despontava na ilha, o ar quente carregado de maresia e o céu tão azul que parecia infinito. Paris, com suas ruas estreitas e cafés enfumaçados, ficou para trás, um eco abafado pelas palavras de meu pai, Henri: “O mundo é maior que Paris.” Minha mãe, Margot, me abraçara com um sorriso que dizia tudo. Aqui, com praias douradas e ruas simples, sentia que meu caminho, ainda nebuloso, começava a se formar.
O avião pousou no Aeroporto Hercílio Luz após uma conexão cansativa no Galeão, Rio de Janeiro. O terminal era pequeno, com poucos voos internacionais, e o calor úmido me envolveu como uma promessa. Táxis eram escassos e caros para um estudante, então segui a dica de um passageiro e peguei o ônibus “Corredor Centro-Aeroporto”. O veículo, barulhento e lotado, sacolejava pelas ruas, enquanto o cobrador gritava os pontos de parada num português acelerado que eu mal decifrava. Segurei firme meu mapa da cidade, tentando entender onde estava, os olhos grudados nas palmeiras que passavam pela janela.
Aluguei um quarto em um sobrado na Rua Felipe Schmidt, no coração do centro. O espaço era apertado, com uma janela que dava para um coqueiro torto. O colchão rangia, o ventilador zumbia, e o cheiro de sal entrava com a brisa, misturando-se ao mofo das paredes. À noite, o som distante das ondas me fazia companhia, e eu pensava em Paris — nas livrarias do Sena, nas provocações de Antoine, nas esculturas de Margot. Mas Florianópolis era outra coisa: as pessoas sorriam sem pressa, os pássaros cantavam ao amanhecer, e a vida parecia dançar no ritmo do mar.
Inscrevi-me na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para cursar direito. O processo foi um pesadelo burocrático, exigindo traduções e provas que pareciam intermináveis. “O sistema jurídico brasileiro é diferente do francês”, dizia um funcionário, olhando meus documentos com desconfiança. Eu estava prestes a desistir quando um advogado local, que dizia representar investidores europeus interessados em intercâmbios acadêmicos, interveio e acelerou minhas traduções juramentadas. Na época, achei que era apenas a lendária hospitalidade brasileira; hoje, sei que portas fechadas não se abrem sozinhas com tanta facilidade. Após essa “ajuda” inesperada, consegui minha vaga como aluno especial na Trindade. Não era o ideal, mas era um começo.
As aulas eram um desafio. Os professores misturavam teoria jurídica com histórias do Brasil Colônia, e eu, com um caderno lotado de anotações, tentava acompanhar, traduzindo cada frase para o francês na minha cabeça. O campus da UFSC era um universo à parte — árvores altas, gramados onde estudantes jogavam truco ou futebol, e um cheiro de eucalipto que pairava no ar. Cães vadios, os famosos “UFSCães”, passeavam entre os prédios, alimentados por alunos engajados. Eu era o estrangeiro, o “francês” de sotaque esquisito, mas os olhares curiosos viraram sorrisos. Pedro Schmidt, um colega de cabelo bagunçado e risada fácil, foi o primeiro a me acolher. “Cê fala igual o Zorro, mano!”, ele brincava, e eu ria, aliviado por encontrar um amigo.
O português era minha muralha. Nos primeiros meses, eu me comunicava com gestos exagerados, apontando objetos ou desenhando no ar. “Como se diz ‘processo’?”, perguntava, envergonhado. “É ‘pro-cés-so’, não ‘pro-ces-sô’!”, Pedro corrigia, rindo. Meu português era um desastre, mas meus gestos eram um show. Fui com ele ao Mercado Público, onde o cheiro de peixe frito e camarão se misturava às vozes dos vendedores. Sentado num bar, com uma Brahma gelada, aprendi gírias catarinenses: “bah” para espanto, “tá se achando o bichão, é?” quando alguém se gabava, e “vamo nessa, tchê!” para animar. Pedro contava lendas da ilha, como a do Boitatá, uma cobra de fogo que protegia as matas. “Floripa te pega, Jacques”, ele dizia, e eu começava a acreditar.
A cidade me conquistava aos poucos. Caminhava pela Avenida Beira-Mar, ainda um caminho de paralelepípedos sem o calçadão moderno, o céu laranja refletindo na água. Aos fins de semana, explorava a Lagoa da Conceição, onde barquinhos balançavam e o vento trazia o cheiro de mato, ou a Praia do Campeche, um refúgio tranquilo com areia branca e ondas agitadas. Subia as dunas de Joaquina, a areia quente sob os pés, rindo de mim mesmo — um parisiense desajeitado tentando surfar na vida. Florianópolis era mais que um lugar; era um convite a ser leve. Em 1991, percebi que a ilha estava se enraizando em mim, mesmo que meu português fosse uma obra em progresso.
Em 1992, o idioma começou a fluir. Lia o Diário Catarinense com menos esforço, rindo das charges. Nas aulas, discutia casos jurídicos com Pedro e Ana Prestes, uma colega que adorava corrigir meu sotaque. “Você disse ‘consti-tui-ção’ de novo”, ela ria, e eu retrucava: “É poesia francesa!” Meu português tornou-se parte de mim, como as ruas de Florianópolis. Fazia piadas no bar, contava histórias de Paris, e até sonhava em português — um sinal de que a ilha me reivindicara. Amigos me levavam a festas na praia, onde o som de violão se misturava às ondas, e eu, com uma cerveja na mão, sentia que pertencia.
Em outubro de 1993, minha vida mudou. Eu estava na Biblioteca Central da UFSC, soterrado por livros de direito, quando Claire Silva, estudante de psicologia, sentou-se à minha frente. Ela tinha olhos castanhos que pareciam ler além das palavras e segurava um livro de Freud com naturalidade. “Como se pronuncia ‘jurisprudência’?”, perguntei, massacrando a palavra. Ela sorriu, um sorriso que aqueceu a biblioteca inteira. “É ‘ju-ris-pru-dên-cia’, mais suave”, disse, e me fez repetir até acertar. Rimos baixo, para não atrair olhares, e a conversa fluiu como se nos conhecêssemos há anos. Falamos de Paris, das livrarias do Sena; de Florianópolis, da Lagoa que ela jurava ser mágica ao amanhecer. Ela queria curar almas; eu, defender os injustiçados.
Claire virou minha professora de português, corrigindo meu sotaque com humor. “Você disse ‘juízo’ em vez de ‘juízo’”, ela brincava, imitando meu tom com exagero. Eu a ensinava francês — “liberté”, “amour” — enquanto caminhávamos pela Avenida Beira-Mar, o vento salgado bagunçando seu cabelo. Nossos estudos viraram pretextos para passeios: almoços em botequins do centro, com cheiro de pastel frito; tardes na Praia do Campeche, onde as ondas sussurravam segredos; noites na Lagoa da Conceição, com bares lotados de manezinhos. Claire era Florianópolis em forma de pessoa — acolhedora, vibrante, impossível de resistir.
Em novembro de 1993, conheci sua família. O jantar foi na casa dos Silva, uma residência térrea em Trindade, com um jardim de azaléias e o cheiro de bolo de laranja no forno. Roberto Silva, professor de física no Colégio Estadual Getúlio Vargas, me encarou como se calculasse minha alma. “Você pretende ficar no Brasil?”, perguntou, entre garfadas de feijoada, seus óculos refletindo a luz. “Sim, Florianópolis é meu lar agora”, respondi, e ele assentiu, reservado. Meses depois, discutindo relatividade num café, percebi que ele me aceitara, com um aceno que valia mais que palavras.
Helena Silva, professora na Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi São Thiago (no bairro João Paulo), era o oposto. “Você fala com as mãos, Jacques!”, riu, enquanto eu gesticulava para explicar um caso jurídico. Seu sorriso transformou o jantar numa conversa fluida, e contei de Paris — as esculturas de Margot, as provocações de Antoine, as aventuras de Sophie. Helena ouviu como se me conhecesse há anos, e ao fim, me chamou de “Jacques” com o tom que Claire herdara. Roberto e Helena, tão diferentes, criaram um lar onde Claire cresceu — e agora, eu comecei a fazer parte.
Nos meses seguintes, nosso namoro se enraizou. Explorávamos a ilha — a Ponte Hercílio Luz, com sua silhueta contra o pôr do sol; o Morro da Cruz, onde o vento parecia carregar nossos sonhos. Claire me apresentou seus amigos de infância, e eu me misturei à sua vida, frequentando a Igreja Nossa Senhora de Lourdes, no bairro Agronômica, onde ela rezava aos domingos. Lavava louça com Helena, que contava histórias de Claire pequena, e até discutia física com Roberto, sem entender metade dos termos. O futuro sem Claire era inconcebível, e o casamento, que começou como um sussurro, tornou-se inevitável.
Em janeiro de 1994, fiz o pedido. Escolhi uma colina na Praia do Campeche, onde o mar se estendia sob um céu claro, as ondas agitadas ecoando meu coração. Era um lugar tranquilo, longe do burburinho do centro, com areia branca e o cheiro de sal no ar. “Fica comigo para sempre?”, perguntei, minha voz tremendo, palavras simples como as de um menino. Claire riu, segurou meu rosto com mãos quentes, e disse “Sim”, como se a resposta já existisse antes da pergunta. Nos abraçamos, o vento salgado envolvendo-nos, e soube que ali, naquela ilha, eu havia encontrado meu lar.
Em fevereiro de 1994, escolhemos a data: 15 de abril de 1994, na Igreja Nossa Senhora de Lourdes. Claire disse que era um dia que trazia o perfume da primavera francesa para o outono catarinense. Recebi uma carta de Sophie na semana seguinte; ela enviara um par de abotoaduras de prata de Le Marais, com um bilhete dizendo: "O destino se move em círculos, Jacques". Enquanto escrevo hoje, em 2002, sinto o peso dessa data. Eu não sabia que, a milhares de quilômetros dali, em uma vila gelada na Ucrânia, o universo — ou alguém agindo em seu nome — estava conspirando para que esse dia se tornasse o marco zero da minha existência. O laço que começou em Paris estava pronto para o próximo passo, sob o céu de Florianópolis. Vila gelada... como as cinzas que Cheng descreveu.
O vento sopra suave em Florianópolis no dia 15 de abril de 1994, trazendo o cheiro de maresia e azaleias em flor, tão típico do outono catarinense. A Igreja Nossa Senhora de Lourdes, no bairro Agronômica, espera por mim às 16h30, mas agora, enquanto me arrumo no quarto alugado na Rua Felipe Schmidt, sinto o coração batendo como as ondas da Joaquina. Claire, minha Claire, será minha esposa hoje. Paris é um eco distante, e esta ilha, com sua alma manezinha, é onde nosso laço se formará, sob o céu de Floripa.
Acordei com o sol invadindo o quarto, o coqueiro torto balançando lá fora. O calor úmido de abril grudava na pele, e o ventilador zumbia como um velho amigo. Meu terno de linho bege, comprado na Havan por um preço que não ofendesse a inflação galopante do cruzeiro real, pendurava no cabide. Minha mãe, Margot, que chegou de Paris com meu pai, Henri, e minha irmã, Sophie, insistiu por um terno de lã “europeu”. “Você vai parecer um pescador, Jacques”, ela disse, franzindo o nariz. “Melhor que um turista suado”, retruquei, e ela riu, cedendo. papai, lia o Diário Catarinense na varanda, resmungando sobre o português com um dicionário na mão. Sophie, ouvia “Dreams” do Cranberries no walkman Sony, os fones pendurados enquanto reclamava do calor.
Pedro, meu padrinho, chegou com uma Brahma gelada e um sorriso torto. “Tá se achando o bichão, é?”, brincou, jogando uma fita cassete no meu colo — uma mixtape com “Canção da América” de Milton Nascimento e “Eternas Ondas” de João Paulo & Daniel, “pra te botar no clima”. Rimos, mas o nó na gravata parecia mais apertado que o nervosismo no peito. Enquanto me barbeava, pensei nos últimos quatro anos: o ônibus lotado do “Corredor Centro-Aeroporto”, a burocracia da UFSC, as aulas de português com Claire na biblioteca. Cada passo me trouxe até aqui, como um laço do destino.
Às 16h30, cheguei à Igreja Nossa Senhora de Lourdes, uma construção branca com um sino que ecoava pelo bairro Agronômica. A Baía Norte brilhava ao fundo, e o cheiro de maresia misturava-se às azaleias que ladeavam o caminho. A decoração era simples, mas cheia de alma: arranjos de copos-de-leite e hibiscos, flores baratas e abundantes na ilha, amarrados com fitas de cetim verde e branco, cores da sorte manezinha. Cadeiras de madeira, alugadas da Casa São Jorge, rangiam sob os convidados, e um radinho de pilha tocava “Canção da América” em looping, o som abafado pelo burburinho.
Os convidados eram um retrato de 1994. Pedro, da UFSC, usava uma bermuda cargo com camisa social, o máximo de formalidade que um estudante aceitava. Ana, outra colega, exibia um vestido estampado com flores grandes, direto da revista Cláudia. Roberto Silva, pai de Claire, vestia um terno marrom que gritava anos 80, fumando um Derby atrás da igreja, escondido das tias. Helena Silva, brilhava num vestido rosa-choque com ombreiras, abraçando as tias de Claire, todas com cortes à la Linda Evangelista. Henri, meu pai, suava num terno azul-marinho, claramente deslocado no calor. Margot, com um chapéu de palha comprado no Mercado Público, tentava não derreter. Sophie, com o walkman pendurado, balançava a cabeça ao som do Cranberries.
Claire entrou às 17h, e o tempo parou. Seu vestido, costurado pela Dona Maria do bairro Trindade, era puro 1994: mangas bufantes, cauda curta, inspirado no casamento de Sarah Ferguson, com um véu preso por uma tiara simples. Seus sapatos brancos de salto baixo — ninguém aguentava saltos na areia — brilhavam sob o sol poente. Seus olhos castanhos encontraram os meus, e o nervosismo sumiu. O padre, um senhor de voz calma que conhecia Claire desde criança, leu um trecho de “O Casamento” de Adélia Prado, e o fotógrafo da Foto Silva, com uma câmera Olympus analógica, clicava sem parar, o flash iluminando a igreja.
Meu voto veio primeiro, com a voz tremendo: “Claire, você me ensinou que ‘jurisprudência’ se pronuncia com doçura. E que a vida, como o mar da Joaquina, é melhor quando a gente se joga sem medo.” Ela riu, os olhos marejados, e respondeu: “Jacques, seu sotaque ainda é um crime, mas eu aceito ser sua cúmplice.” Os aplausos foram abafados pelo ronco de um fusca 78 passando na rua, um som tão Floripa que parecia ensaiado. Trocamos as alianças, e o sino da igreja tocou, misturando-se ao cheiro de flor de laranjeira e protetor solar Avon.
A Recepção: Mates e Ritmos de 1994
A recepção foi no salão paroquial da igreja, um espaço simples decorado com balões pastéis e uma mesa de doces que era a cara de Florianópolis: bem-casados embrulhados em guardanapos de renda, cuscuz doce com leite condensado, herança açoriana, e salgadinhos da Confeitaria Colatin — enroladinhos de salsicha e pastéis de vento que sumiam rápido. As bebidas eram clássicas: chopp da Baden Baden, a cerveja artesanal da época, e vinho Sangue de Boi, o preferido dos tios de Claire, que brindavam com taças de vidro grosso. Uma banda cover de Engenheiros do Hawai animava a festa com “Pra Ser Sincero”, hit de 1994, e, para meus pais, uma versão desafinada de “La Vie en Rose” que fez Margot tapar os ouvidos, rindo.
O bolo foi um debate cultural. Margot queria um croquembouche, com suas torres de profiteroles franceses. Helena insistiu num bolo de noiva de três andares, com recheio de goiaba, típico do Sul. O resultado? Dois bolos na mesa, um tratado de paz entre Paris e Florianópolis. Cortamos o de goiaba primeiro, sob aplausos e flashes da Foto Silva, enquanto as tias de Claire cochichavam: “Esse francês roubou nossa menina.”
Nossa primeira dança foi ao som de “More Than Words” do Extreme, sob luzes coloridas de gel — o auge da tecnologia de festas em 1990. Claire encostou a cabeça no meu ombro, e os convidados formaram uma roda, jogando arroz pintado com anilina, que manchou meu terno, mas deixou as fotos mais vivas. Pedro gritou “Bah, que bichão!” do fundo, e Ana jogou um hibisco na nossa direção, rindo. A festa seguiu com a banda tocando “O Papa é Pop” dos Engenheiros, e até Henri arriscou uns passos, para delírio de Sophie, que tirou o walkman por um instante.
Os presentes, empilhados numa mesa, eram um retrato da época: um jogo de jantar da Polenghi, sonho de toda noiva; uma panela de pressão Rochedo; um conjunto de copos Nadir Figueiredo com estampa de flores. O cheiro de fumaça de cigarro Carlton, misturado ao protetor solar e às flores, pairava no salão, enquanto as tias de Claire dançavam com os tios, rindo de piadas sobre o Plano Real, que prometia mudar tudo em julho.
À meia-noite, a festa começava a se dispersar. O fusca de um tio de Claire buzinou na saída, e a banda tocava “Infinita Highway”, enquanto os últimos convidados brindavam com Sangue de Boi. Claire e eu nos sentamos numa cadeira de madeira, exaustos, mas felizes. Ela segurou minha mão, o anel brilhando sob a luz fraca, e disse: “Agora somos nós dois, Jacques.” Olhei para ela, para a ilha lá fora, e soube que Florianópolis, com sua maresia e ritmo lento, era meu lar.
Enquanto escrevo hoje em Istambul, penso nos passos que me trouxeram até aqui. “Agora somos nós dois, Jacques”, Claire sussurrou naquela noite. Eu não sabia que, naquele exato momento, do outro lado do mundo, a vida que eu chamaria de minha já estava sendo embalada por mãos que eu jamais apertaria. O sino de Lourdes ecoava, mas o silêncio das estepes era o que realmente selava nosso futuro. Eu era um homem casado; em breve, seria um pai por um decreto do destino que eu ainda chamava de acaso. O laço estava feito. O céu de Floripa agora carregava o peso de uma promessa que cruzara oceanos para me encontrar. Vila gelada... como as cinzas que Cheng descreveu. — A lembrança de Cheng volta, persistente. — Jacques Dubois, o sucessor involuntário.
A recepção no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora de Lourdes vibrava com a alma de Florianópolis. O cheiro de maresia misturava-se ao doce do bolo de goiaba e ao amargor do chopp Baden Baden, enquanto balões pastéis pendiam, cansados, como soldados após a batalha. As cadeiras de madeira rangiam, espalhadas, e os últimos convidados — o “povo do fervo”, como Pedro dizia — enchiam o ar com risadas. Claire, com o vestido de mangas bufantes salpicado de arroz colorido, estava ao meu lado, o meu terno bege manchado, mas o sorriso intacto. Meus pais, Margot e Henri, conversavam num canto, a luz das lâmpadas refletindo nos óculos dele. Helena e Roberto, pais de Claire, gesticulavam com Sophie, minha irmã, tentando superar a barreira do idioma com sorrisos.
“Vamos abrir os presentes?” sugeriu Claire, ajeitando uma mecha de cabelo castanho que escapava do véu.
“Com calma,” respondi, rindo. “Cada presente, um abraço, como manda a tradição manezinha.”
A mesa de presentes era um retrato de 1994: copos Nadir Figueiredo com estampa de flores, um faqueiro dourado que Ana jurou ser “chique demais”, uma toalha bordada com “Jacques & Claire” que fez Helena suspirar, e uma panela de pressão Rochedo que Pedro ergueu, gritando: “Tá se achando o bichão, é? Agora é só feijoada na casa dos Dubois!” Ana jogou um hibisco na nossa direção, rindo: “Essa panela vai ver mais cuscuz que feijoada, aposto!” A risada coletiva ecoou, abafada por “Pra Ser Sincero” dos Engenheiros do Hawaii, tocando num radinho de pilha.
De repente, Sophie, com seus cachos loiros balançando e o walkman pendurado no pescoço, aproximou-se com um brilho nos olhos. Ela segurava um envelope fino, decorado com lavandas secas coladas à mão e um laço de cetim azul. O salão silenciou, como se todos sentissem a magia do momento.
“Excusez-moi,” disse ela, em francês, olhando para Claire e depois para mim. “Ceci est un cadeau spécial.”
Claire, sem entender, sorriu, curiosa. Antes que eu pudesse traduzir, Carlos Mendes, o advogado brasileiro que conheci em Paris em 1989, aproximou-se. Carlos, cabelo penteado para trás e terno azul que parecia caro demais para a ilha, estivera na festa, conversando com Sophie sobre Montmartre. Ajustando os óculos, ele traduziu com sotaque carioca: “Ela disse que é um presente especial.”
Sophie entregou o envelope a Claire, continuando em francês: “C’est de la part d’Antoine, mais c’est moi qui ai insisté. J’ai rêvé que Claire devait voir la lumière bleue du Méditerranée.”
Carlos, vendo minha emoção enquanto eu segurava a mão de Claire com força, traduziu suavemente: “É do Antoine, irmão de Jacques, mas foi ideia da Sophie. Ela sonhou que você, Claire, merecia ver a luz azul do Mediterrâneo.”
Claire abriu o envelope, os dedos trêmulos. Dentro, um cartão artesanal trazia a caligrafia de Sophie: “Deux billets pour l’amour... vers la lumière bleue de la mer.” — “Dois bilhetes para o amor... rumo à luz azul do mar.” Uma folha impressa confirmava:
Hôtel du Levant - Nice, FrançaCheck-in: 19 de abril de 1994Duração: 7 noitesQuarto com vista para o MediterrâneoPassagens incluídas (Florianópolis-São Paulo-Paris)
Claire levou a mão à boca, os olhos castanhos brilhando. “Meu Deus... isso é real?”
“Oui. Real e... maravilhoso,” respondi, a voz embargada.
Pedro, com uma Brahma na mão, gritou: “E eu achando que a panela era o melhor presente!” Ana completou: “Tem vaga pra dama de honra nesse voo, hein?” As risadas encheram o salão, misturando-se a “More Than Words” do Extreme.
Sophie nos abraçou, dizendo em francês: “L’amour mérite le plus beau des départs.” Carlos traduziu, sorrindo: “O amor merece o mais belo dos começos.”
Margot sussurrou algo a Henri, que assentiu, os olhos marejados. Helena abraçou Roberto, emocionada, mesmo sem entender tudo. Sob as lâmpadas fracas, o presente de Sophie e Antoine uniu continentes, prometendo um novo capítulo para nós.
Dois dias depois, a casa dos Silva, no bairro Trindade, era um furacão de preparativos. O cheiro de bolo de laranja pairava na cozinha, onde Helena embrulhava pão de mel caseiro. “Vocês vão sentir saudade da comida da ilha,” disse, entregando o pacote a Claire. Roberto, com o Diário Catarinense na mão, resmungava sobre o cruzeiro real, mas sorria ao ver a filha radiante. Eu arrumava uma mala pequena, rindo com Pedro, que insistia em ensinar gírias: “Se um francês te olhar torto, é só dizer ‘tá se achando o bichão, é?’”
Meus pais, Margot e Henri, e Sophie, que nos acompanhariam até Paris, davam conselhos em francês. “N’oubliez pas un manteau, Nice peut être frais le soir,” disse Margot. Sophie, com o walkman tocando Cranberries, sugeriu: “Visitez le Musée Matisse, c’est magique.” Traduzi para Claire: “Mamãe disse pra levar um casaco, e Sophie quer que visitemos o Museu Matisse, que é mágico.”
Às 10h, um fusca 78 azul, emprestado por um tio de Claire, nos levou ao Aeroporto Hercílio Luz. O terminal, pequeno e barulhento, cheirava a café e protetor solar. Helena abraçou Claire com força: “Aproveite cada segundo, minha filha.” Roberto apertou minha mão: “Cuida dela, francês.” Sophie, em francês, disse: “Ramène-la heureuse,” e traduzi para Claire: “Ela disse pra te trazer de volta feliz.”
O voo da Varig, com destino a São Paulo, decolou às 12h. Claire, agarrada ao meu braço, olhava as nuvens, fascinada. Em Guarulhos, pegamos um voo da Air France para Paris, um Boeing 747 que balançava com turbulências leves. Meus pais e Sophie, sentados à frente, cochichavam em francês, enquanto Claire dormia no meu ombro. Aterrissamos no Aeroporto Charles de Gaulle às 6h de 18 de abril, o céu cinza de Paris contrastando com o sol de Florianópolis.
Na Gare de Lyon, nos despedimos. “On se verra bientôt,” disse Henri, com um aceno. Margot abraçou Claire, dizendo: “Profitez de Nice, ma chère.” Sophie, tirando os fones do walkman, sorriu: “Faites des rêves bleus.” Traduzi para Claire: “Eles disseram que nos veremos em breve e pra sonharmos com o azul.” Claire, sorrindo, respondeu: “Obrigada, merci.”
Às 22h, embarcamos no Train Bleu, um trem noturno para Nice. A cabine, simples mas charmosa, balançava suavemente. Claire adormeceu no meu ombro, o apito do trem misturando-se ao seu respirar calmo, enquanto eu imaginava o Mediterrâneo à nossa espera.
Chegamos à Gare de Nice-Ville ao entardecer do dia 19 de abril de 1994, 17h, o céu alaranjado refletindo no Mediterrâneo. A brisa de primavera, a 17°C, trazia o perfume de lavanda e sal. Claire, com uma mochila leve, respirou fundo, os olhos castanhos arregalados. “Parece um quadro, eu,” disse, descendo do trem.
Um táxi Peugeot 405, com interior de couro bege e rádio tocando “La Vie en Rose”, nos levou pela Promenade des Anglais até o Hôtel du Levant, na Avenue Jean Médecin, um hotel elegante, mas acessível, em 1994. O motorista, de bigode fino, apontava: “Voilà la Place Masséna, très belle!” Traduzi, rindo: “Ele disse que a Place Masséna é muito bonita.”
No quarto, a sacada exibia o Mediterrâneo, azul profundo sob o sol poente. Claire se encostou no parapeito, o vento bagunçando seus cabelos castanhos. “Parece um cartão-postal,” sussurrou.
“Ou um sonho,” respondi, abraçando-a por trás. “Você é minha primavera, Claire.”
Ela riu, virando-se para me beijar. “Então me mostra essa primavera, francês.”
Naquela noite, jantamos no bistrô do hotel, com vista para o mar. O garçom serviu moules marinières com molho de limão e ervas. Claire, provando um vinho branco local, disse: “Mais leve que o Sangue de Boi dos tios!” Uma crème brûlée com lavanda, de cortesia, veio com um “Félicitations”. Dormimos com a janela aberta, o som das ondas misturando-se às gaivotas.
Na manhã seguinte, o cheiro de pão fresco da boulangerie da esquina acordou Claire. Após croissants e café au lait, fomos ao Vieux Nice. As ruelas da Rue Rossetti e Rue Droite, com fachadas coloridas, cheiravam a lavanda e azeitonas. No Cours Saleya, um mercado vibrante, Claire comprou um sabonete artesanal. “Olha essas laranjas, parecem as da Lagoa!” disse, rindo.
Caminhando pela Place Rossetti, senti uma nostalgia agridoce. Aos 15 anos, eu lia Voltaire num banco sob a Cathédrale Sainte-Réparate, anotando sonhos que não entendia. “Eu vinha aqui com um caderno,” contei a Claire, que segurou minha mão. “Agora você tá aqui comigo, escrevendo um sonho novo.”
No dia seguinte, visitamos o Musée Matisse, em Cimiez, um prédio ocre cercado por oliveiras, exibindo as obras coloridas do pintor. Claire sussurrou: “É como se ele pintasse a alma do mar.” Comprei um postal de “Nu Bleu” para ela. À tarde, subimos ao Parc du Mont Boron, com vista para a Baía dos Anjos. Sentados na grama, Claire escreveu no diário: “O mar daqui é calmo, mas guarda histórias. Jacques sonhava aqui, e agora eu sonho com ele.”
No terceiro dia, fizemos um passeio de barco na Baía dos Anjos, saindo do Port Lympia. O iate alugado cortava as águas azuladas, e Claire, com o vento no rosto, riu: “Isso aqui existe mesmo?” Respondi, segurando-a: “Se não existir, a gente inventa de novo.” Apontei o horizonte, lembrando as palavras de meu pai: “O mundo é maior que Paris.” Com Claire, era maior que tudo.
No quarto dia, surpreendi Claire com um presente. No Cours Saleya, numa barraca de artesanato, comprei um colar de conchas brancas, com um pingente em forma de estrela. “Pra você levar o Mediterrâneo,” disse, colocando-o no pescoço dela. Claire, emocionada, tocou o colar: “É como carregar o mar comigo.”
Na penúltima noite, jantamos no Le Chantecler, no Hôtel Negresco, um ícone de Nice. O salão, com lustres de cristal e piano ao fundo, exalava requinte. Claire, no vestido azul do Cours Saleya, provava um carré d’agneau, rindo: “Mais chique que o pastel de camarão do Mercado Público!” Brindei com vinho rosé, sentindo Nice mais minha do que nunca.
O garçom, de colete preto, voltou com um sorriso constrangido. “Monsieur, je suis désolé, mais votre carte ne passe pas. Le système est hors service,” disse, em francês. Franzi o cenho, tentando decifrar as palavras, que soavam como um pedido de desculpas. Claire, percebendo minha hesitação, perguntou: “O que ele disse, Jacques?” Traduzi, meio atrapalhado: “Ele disse que o cartão não passou, o sistema tá fora do ar.” Claire, com um leve aperto na voz, sussurrou: “Você trouxe dinheiro?” Balancei a cabeça, sentindo um leve calor no rosto. “Não, só trouxe o cartão.”
Um homem se levantou de uma mesa próxima. Ele exalava uma autoridade silenciosa, algo que ia além do terno cinza impecável. O acompanhante dele, Julien, fechou um mapa de rotas aéreas com um estalo seco. O estranho aproximou-se e disse, em francês: “Permettez-moi, je vois que vous êtes en lune de miel. Ce dîner est mon cadeau pour votre mariage.” Suas palavras eram perfeitas, mas tinham o peso de um decreto, não de um pedido. Traduzi para Claire, sentindo um arrepio que não vinha da brisa do mar. Ele não parecia um turista generoso; parecia um soberano reconhecendo seus sucessores. Hesitei, mas ele sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos frios: “Bien sûr que si. Un tel moment mérite un geste.” Claire, agradeceu com um "Merci", enquanto ele se retirava. Uma abotoadura de prata, com um lótus estilizado gravado, caiu de seu bolso sobre a toalha de linho, como se fosse um sinal deixado de propósito.
O garçom o acompanhou para receber o pagamento, e o homem, com seu companheiro, partiu. Ficamos mais um tempo, saboreando uma crème brûlée com lavanda, enquanto o piano tocava ao fundo. Ao limpar a mesa, o garçom voltou e me entregou o abotoadura, dizendo em francês: “Monsieur, ceci était sur votre table, est-ce à vous?” Claire perguntou: “O que ele disse?” Traduzi: “Ele disse que encontrou isso na nossa mesa, perguntou se é nosso.” Ela franziu o cenho: “Mas não é nosso, Jacques.” Respondi, guardando o objeto no bolso: “Vamos tentar encontrar o dono.” Sabíamos que só podia ser do homem que pagou o jantar, mas, ao procurá-lo com o olhar, ele já havia sumido na noite.
De volta ao quarto, Claire abriu seu diário, a luz suave do abajur iluminando o colar de conchas em seu pescoço. Ela escreveu: “Um homem pagou nosso jantar hoje. Jacques achou o gesto estranho, disse que o olhar dele parecia carregar o peso de séculos. Ele deixou cair uma abotoadura de prata com um desenho estranho — um lótus estilizado, talvez? Guardamos como um amuleto. Sinto que Nice nos deu um presente que ainda não sabemos como abrir. O Mediterrâneo parece estar nos observando.”
Na última manhã, caminhamos pela Promenade des Anglais, o colar de conchas brilhando no pescoço de Claire. Comemos sorvetes de pistache na Fenocchio, uma sorveteria famosa no Vieux Nice em 1994. Claire, olhando o mar, disse: “Sophie tinha razão. Esse azul vive dentro da gente agora.”
Toquei o anel dela. “E você vive em mim.”
O trem para Paris partiu à tarde. O voo da Air France, com conexão em São Paulo, pousou em Florianópolis em 26 de abril. No Aeroporto Hercílio Luz, Helena e Roberto nos receberam com abraços. “Como foi, minha filha?” perguntou Helena. Claire, tocando o colar, sorriu: “Foi breve... e parece que vivemos um mês lá.”
“Alguns lugares moram dentro da gente,” disse eu, segurando sua mão.
No carro, rumo à Trindade, Claire olhou pela janela, o colar de conchas contra o peito. “O Mediterrâneo vive aqui,” disse. Completei: “E você mora em mim.”
Os dias após a lua de mel voaram como as gaivotas sobre o Campeche. Voltamos de Nice com o colar de conchas brilhando no pescoço de Claire e um abotoadura de prata, seu ideograma misterioso guardado numa gaveta. Florianópolis nos abraçou com o cheiro de tainha grelhada do Mercado Público e o ronco dos fuscas na Beira-Mar Norte. Claire, os olhos castanhos reluzindo, dizia: “O mar daqui não tem o azul do Mediterrâneo, mas é casa.” Eu sorria, meu português agora fluente, com um sotaque francês que Pedro Schmidt zoava, chamando-me de “o manezinho de Paris”. Ana Prestes, sempre com uma risada manezinha, completava: “Ele é mais catarinense que a gadoiada da Armação!”
1994: Um Novo Começo
Em maio de 1994, alugamos um apartamento pequeno no Centro, perto da Praça XV, com uma varanda onde Claire pendurava hibiscos. Eu trabalhava com Carlos Mendes, lidando com contratos de pescadores da Costeira, meu diploma francês revalidado na UFSC em 1993. Claire, recém-formada em Psicologia, mergulhava na Casa da Criança, uma ONG na Agronômica que oferecia reforço escolar e sopa quente para crianças carentes. “Eles têm sonhos maiores que a ilha,” dizia, voltando com histórias de meninos que queriam ser astronautas.
Florianópolis, em 1994, era uma cidade em ebulição. A Ponte Colombo Salles zumbia com kombis, e o Mercado Público fervia com peixeiros gritando preços. À noite, encontrávamos Pedro e Ana no Canto do Hugo, na Lagoa da Conceição, onde o chope Brahma gelado animava as conversas. “Tchê, tu já tá mais manezinho que eu!” dizia Pedro, gaúcho de coração, enquanto Ana jogava um amendoim, rindo: “Cuidado, Pedro, ele ainda cita Voltaire!” Claire escrevia no diário, o colar de conchas contra o peito: “Floripa é viva, como nós. O abotoadura de Nice espera na gaveta, como um segredo do mar.”
1995: Primeiro Aniversário
Nosso primeiro aniversário de casamento, em 15 de abril de 1995, foi em Jurerê, numa pousada simples com vista para o mar. Alugamos um quarto com varanda, onde comemos pastel de camarão e brindamos com guaraná Antártica. Claire, com o colar de conchas brilhando, disse: “Um ano, Jacques, e parece um dia.” Respondi, em francês: “Et pourtant, c’est toute une vie.” Ela riu, já pegando algumas palavras do meu idioma. Pedro e Ana apareceram com uma Brahma, gritando: “Ao casal mais bichão da ilha!” Ana dançou uma valsa improvisada, enquanto Pedro resmungava: “Bahô, isso é coisa de catarinense!”
Na Casa da Criança, Claire liderava uma campanha de arrecadação de livros, e eu ajudava com contratos pro bono. Florianópolis crescia: a Lagoa da Conceição ganhava o John Bull Pub, e a Praia Mole lotava de surfistas no verão. O turismo explodia, com cariocas invadindo a ilha. Claire, à noite, abria o diário: “A ilha muda, mas o coração é o mesmo. Vamos encontrar o dono do abotoadura um dia.”
1996: Segunda Comemoração
Em 1996, mudamos para um apartamento alugado na Trindade, mais perto da UFSC, com um quintal onde Claire plantava manjericão. Nosso segundo aniversário, em 15 de abril, foi na Praia dos Ingleses, com um piquenique ao pôr do sol. Claire, com um vestido leve e o colar de conchas, disse: “Dois anos, e ainda sinto Nice.” Respondi: “Porque você é meu Mediterrâneo.” Pedro trouxe um chimarrão, dizendo: “Tchê, isso aqui é mais gaúcho que catarinense!” Ana riu: “Deixa, Pedro, eles são o casal do berbigão!”
Na ONG, Claire organizava oficinas de leitura, enquanto eu lidava com causas trabalhistas no escritório de Carlos. Florianópolis via o boom imobiliário: Jurerê Internacional nascia, e a Beira-Mar Norte ganhava prédios modernos. O Mercado Público, porém, resistia, com seus boxes de camarão e conversas sobre o Figueirense. Claire escreveu no diário: “As crianças da ONG sonham grande. O abotoadura ainda espera, como uma promessa.”
1997: O Sobrado
Em 1997, compramos um sobrado modesto na Trindade, com um quintal cheio de hibiscos. Nosso terceiro aniversário, em 15 de abril, foi no quintal, com churrasco e Brahma gelada. Pedro, com uma bombacha imaginária, gritou: “Tchê, agora é casa de gaúcho!” Ana trouxe um bolo de goiaba, dizendo: “Isso é mais manezinho que a festa do berbigão!” Claire, com o colar de conchas, riu: “Vocês são a alma dessa ilha.”
Sophie veio de Paris, trazendo um CD do Daft Punk e histórias do Marais. “Floripa é mais colorida que Montmartre,” disse, em francês, enquanto comíamos tainha na Costeira. Traduzi para Claire, que respondeu: “Ela precisa ver a Lagoa no carnaval!” Na Casa da Criança, organizamos um mutirão para pintar a sede, com Pedro e Ana levando amigos. Claire, com tinta no rosto, parecia uma criança. No diário, escreveu: “Construímos mais que paredes. O sobrado é nosso, mas a ONG é de todos.”
1998: O Mar Cresce
Em 1998, Florianópolis pulsava. A Praia Brava virou point de surfistas, e o centrinho da Lagoa lotava com o Black Swan, onde ouvíamos Skank e Jota Quest. Nosso quarto aniversário, em 15 de abril, foi na Praia do Forte, com um piquenique de tainha e guaraná. Claire, tocando o colar de conchas, disse: “Quatro anos, Jacques, e o mar ainda nos une.” Respondi: “Você é a onda que me leva.” Pedro e Ana apareceram, ele com um “bahô” e ela com um hibisco na orelha: “Isso é amor manezinho!”
Na ONG, Claire conseguiu computadores para as crianças, enquanto eu defendia pescadores contra uma construtora em Canasvieiras. O Beiramar Shopping, no centro, era o novo ponto de encontro da elite e dos jovens, enquanto o trânsito na SC-401 começava a mostrar que a ilha estava ficando pequena para tantos sonhos. Claire e eu vivíamos para o trabalho e para os outros, mas no silêncio do sobrado na Trindade, o quarto extra permanecia vazio. Tentamos por anos, mas o destino parecia ter guardado o espaço para algo que ainda não podíamos imaginar. Claire escreveu no diário: “A ilha cresce, mas sinto que falta uma voz nesta casa. A abotoadura de lótus é um mistério que o tempo guarda, talvez como uma resposta.”
1999: Um Legado
Em 1999, Florianópolis pulsava com a virada do milênio. Nosso quinto aniversário, em 15 de abril, foi no Costão do Santinho. Claire, com o colar de conchas, disse: “Cinco anos, Jacques, e ainda sinto que estamos na antessala de algo grande.” Na Casa da Criança, ela conseguiu um patrocínio inesperado — vindo de uma fundação sediada em Nice, ironicamente — para a nova biblioteca. No diário, Claire escreveu: “A biblioteca é nosso legado. A abotoadura ainda espera, mas sinto que algo novo vem com o mar, uma onda que vai mudar tudo.” Enquanto isso, o trânsito na Beiramar Norte tornava-se um desafio diário, refletindo o novo fôlego da ilha.
Florianópolis crescia, mas o Mercado Público cheirava a camarão, e o berbigão reinava na Armação. À noite, no sobrado, Claire tocava o colar de conchas, e eu olhava o abotoadura, pensando no ideograma. O futuro, como o mar da Praia Mole, parecia guardar algo maior.
A varanda do nosso sobrado na Trindade estava cheia naquela noite de 15 de abril de 2000, nosso sexto aniversário de casamento. O cheiro de churrasco misturava-se à maresia, e uma música suave, talvez Caetano Veloso, embalava os poucos convidados: amigos da Casa da Criança, do escritório de Carlos Mendes, e da clínica onde Claire atendia como psicóloga. Copos de vinho tilintavam, e risadas adultas, mais contidas que as do passado, preenchiam o ar. Claire, num vestido branco que dançava com a brisa, circulava entre os convidados, seu colar de conchas brilhando sob as luzes amareladas. Eu me encostei na grade da varanda, observando a cena, quando Pedro Schmidt, meu melhor amigo, se aproximou com um copo de vinho.
“Tô pensando em pedir a Ana em casamento, Jacques,” disse ele, o sotaque gaúcho suave, sem o “tchê” de anos atrás. “Acha que ela topa?”Sorri, olhando Ana Prestes, que ria com uma amiga da ONG. “Se ela aguentou você até agora, Pedro, é porque já disse sim no coração.”Ele riu, batendo o copo no meu. “E tu, francês? Seis anos com Claire. Qual o segredo?”“Ela é o segredo,” respondi, vendo Claire ajustar uma mecha de cabelo castanho. “E o mar, talvez.”
Foi então que notei uma mulher parada na calçada, hesitante, segurando a mão de uma menina pequena. Pareciam deslocadas, como se não pertencessem àquela noite festiva. A mulher, elegante, vestia-se com discrição, e a menina, de olhos azuis intensos, olhava a varanda com curiosidade. Percebendo que me viram, ela hesitou, mas eu desci os degraus e fui até elas.
“Bonsoir,” disse ela, em francês, para meu espanto. “Desculpe interromper, mas estou com um problema e não falo português bem. Um voluntário da ONG me deu este endereço, Monsieur.” Ela parecia estar lendo um roteiro invisível, mas o desespero contido em seus olhos era real o suficiente. O incidente com o pneu furado, no exato momento em que nossa festa de aniversário de casamento atingia o ápice, parecia uma intervenção divina. Na época, não questionei por que o tal voluntário sabia exatamente onde eu morava ou por que Mei parara o carro metros antes do nosso portão. “Meu nome é Mei,” disse ela, com um sorriso tímido, enquanto a menina ao seu lado me encarava como se já me conhecesse.
Chamei um guincho pelo telefone, enquanto Claire, percebendo a cena, veio até nós. “Convide-as para entrar, Jacques,” disse, em português, os olhos castanhos cheios de hospitalidade. Traduzi, e Mei hesitou, claramente desconfortável em invadir uma festa. Mas a menina ao seu lado, apontou o colar de conchas no pescoço de Claire e sussurrou, em francês: “É lindo.”
Claire sorriu, ajoelhou-se e mostrou o colar. “Foi um presente do mar,” disse, em português simples, e eu traduzi. A menina sorriu, tímida, e Mei, desarmada pelo gesto, aceitou entrar, dizendo: “Só até o carro estar pronto.”
Enquanto Claire voltava aos convidados, entretendo Pedro, Ana, e os outros, sentei-me com Mei numa mesa de canto. Conversamos em francês sobre a ONG, Florianópolis, e sua vida no Brasil. Ela contou que chegou em 1999, vinda de Nice, e que se sentia solitária, com poucos amigos além dos contatos da Casa da Criança. Enfermeira por paixão, mas com recursos suficientes para doar generosamente, ela passava os dias cuidando da menina, que chamava de Larah. Não perguntei mais, sentindo que havia uma história maior por trás.
O guincho chegou, mas Mei e Larah ficaram até o fim da festa, com Larah brincando com Ana, que a chamava de “a nova manezinha da Trindade”. Naquela noite, sem sabermos, um novo capítulo começava.
Entre abril e junho, Mei e Larah entraram na nossa rotina. No início, eram visitas tímidas, jantares com vinhos franceses que Mei trazia, dizendo que eram “presentes de um amigo”. Aos poucos, os encontros viraram amizade: tardes na Praia Mole, onde Larah coletava caracóis, ou noites no sobrado, com risadas e histórias. Larah, com seus olhos azuis brilhando diante de uma estrela ou de um desenho, não era mais uma visita. Ela iluminava a casa, e Claire, encantada, dizia: “Ela traz um azul que não explica.” Eu observava, percebendo que, sem querer, já havíamos reservado um espaço para ela. Quando Mei precisava resolver algo, era conosco que Larah ficava, e a casa parecia mais completa com ela.
Mei contava pouco sobre si, mas mencionava Nice, sua carreira como enfermeira, e um irmão que garantia suporte para Larah. Cartas dela para ele, que eu via na mesa, falavam de nós, e eu sentia que a confiança crescia. Pedro e Ana, sempre presentes, adotaram Larah como “a pequena bichão”, e ela ria com as brincadeiras de Ana sobre o berbigão.
Em 12 de junho de 2000, Dia dos Namorados, organizamos um jantar íntimo no sobrado. Pedro, Ana, Mei e Larah estavam lá, já parte da família. Após o jantar, Mei nos chamou de lado, com um olhar hesitante. “Preciso voltar a Nice,” disse, em francês. “Minha carreira, algumas pendências... Não posso levar Larah agora. Vocês cuidariam dela?”
Claire, segurando uma xícara de chá, olhou para mim, os olhos marejados. “Sim,” disse, sem hesitar, como se Larah já fosse nossa. Mei explicou que seu irmão garantiria tudo: escola, roupas, uma mesada mensal, e reembolso de qualquer gasto extra. “Não é sobre dinheiro,” disse Claire, em português, e eu traduzi. “É sobre ela.”
Como advogado, fui meticuloso na organização da guarda temporária. Mas o que me surpreendeu foi a eficiência com que os documentos chegaram da França — uma procuração oficial assinada por um tal “Escritório de Gestão de Ativos em Nice”, que Mei dizia representar seu irmão, o misterioso padrinho da menina. Tudo estava selado e traduzido antes mesmo de Mei embarcar para a Europa em 12 de julho de 2000. Larah ficou, seus olhos azuis trazendo um novo azul à nossa vida, ocupando finalmente o vazio que o sobrado carregava.
Na pré-escola, Larah desenhava mares e caracóis, com a concentração de quem guardava um segredo. Claire, às vezes, a encontrava acordada à noite, falando de um “lugar frio”. “É só um sonho,” dizia, acariciando seus cabelos, mas eu via algo mais nos desenhos dela, como se o mar de Florianópolis carregasse ecos de outro lugar. No diário, Claire escreveu: “Larah é nosso presente do destino. O colar de conchas a trouxe, e o mar a mantém aqui.”
Olhando Larah brincar hoje, percebo que não escolhemos esse caminho. Ele nos escolheu. Claire escreveu no diário: “Larah é a resposta ao silêncio. O colar de conchas a atraiu, e a abotoadura de lótus na gaveta parece agora um sinal de que fomos selecionados por algo maior que o acaso.” Eu olhei para a abotoadura de prata por um longo tempo naquela noite. O lótus parecia brilhar sob a lua. O destino não é uma linha reta; é uma rede tecida no silêncio, cruzando de Nice ao Campeche.
A casa vibra com vida em 15 de abril de 2001, como se o mar de Campeche soprasse alegria pelas janelas abertas. O cheiro de maresia mistura-se ao doce dos balões azul e branco, inflados com o cuidado de Claire, que escolheu as cores preferidas de Larah. Na varanda, minha esposa revisa listas com aquela precisão que sempre admirei, movendo-se com a serenidade de quem sabe que está criando memórias que vão durar para sempre. O sol de abril aquece a areia, e as ondas, pacientes, dançam como convidadas de honra.
A festa está pronta: tendas brancas balançam na brisa, o buffet organizado com sucos de caju, brigadeiros, salgadinhos de camarão e um bolo de chocolate coberto de confeitos em forma de estrelas. O pula-pula e o escorregador inflável, que Larah batizou de “meu castelo”, ecoam com risadas de crianças. Claire convidou colegas da clínica e da ONG; eu, advogados do escritório e famílias de casos pró-bono. A Praia do Campeche, com suas dunas e ondas, é o palco perfeito para o sétimo aniversário de Larah, e também para nosso casamento, celebrados hoje, 15 de abril, desde aquele dia na Igreja Nossa Senhora de Lourdes em 1994. Florianópolis é meu lar, e aqui, entre a maresia e os sorrisos, sinto que pertenço.
Larah, nossa pequena estrela, é um prodígio. Na Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi São Thiago, onde Helena, mãe de Claire, é coordenadora pedagógica, ela brilha no 1º ano do ensino fundamental. Desde janeiro, quando as aulas começaram, Larah lê e escreve português com uma fluência que espanta os professores. “Ela devora as palavras como se fossem doces,” disse Helena, com orgulho, corrigindo os cadernos. A rotina de Larah, moldada pela disciplina de Mei, é rigorosa: quatro horas de escola pela manhã, com letras e números; três horas de aulas particulares à tarde — faz cursinho de matemática, inglês e francês. O lazer é desenhos na areia ou brincadeiras com amigos. À noite, Larah revisa as aulas e faz as tarefas antes de dormir. Ela é o melhor dos dois mundos: concentrada e sociável.
Enquanto Larah corre entre o pula-pula e os convidados, seu vestido vermelho com fita e desenhos bordados balança com o vento, noto uma figura se aproximando da tenda. É Mei, elegante em um vestido de linho bege, com um sorriso tímido. Não a víamos desde agosto de 2000, quando deixou Larah conosco e voltou para Nice. Claire corre para abraçá-la, os olhos marejados. “Mei, você veio!” exclama, e Larah, largando o escorregador, voa até ela, gritando: “Tatie Mei!” O abraço delas, com o mar de Campeche ao fundo, é um momento que o tempo parece guardar. Larah, com um sorriso radiante, pergunta em francês, a língua que flui natural entre elas: “Tatie, t’as un cadeau pour moi ?” Mei, com um brilho nos olhos, responde suavemente: “Bien sûr, ma chérie, j’ai quelque chose de spécial pour toi !” Claire olha para mim, curiosa, e eu traduzo baixo: “Larah perguntou se ela trouxe um presente, e Mei disse que sim, algo especial.” Rimos juntos da iniciativa de Larah e observamos ela receber o embrulho.
Mei entrega a Larah um pacote, dizendo com ternura: “C’est pour toi, petite étoile.” Larah rasga o papel com entusiasmo, revelando um caderno artesanal com capa de couro marrom, um fecho de metal brilhando ao sol. Mei se abaixa, olhando nos olhos dela: “Ce carnet est pour écrire tes jours, tes rêves, tout ce qui te rend heureuse.” Larah, com os olhos azuis faiscando, exclama: “Je vais écrire toutes mes histoires !” Ela abraça o caderno como um tesouro. Dentro, uma nota escrita à mão: “Ma petite étoile, écris tes rêves. Ils te guiderão sempre.”
Mei me entrega um envelope, dizendo em português hesitante: “De Cheng Yang.” Meu coração aperta. Abro o envelope e encontro uma carta e o voucher de três passagens aéreas para Istambul, com check-in para amanhã, 16 de abril de 2001. Uma reserva para sete noites num hotel com vista para o Bósforo, tudo pago pela família Yang. “Cheng queria que vocês celebrassem este ciclo lá”, explicou Mei. Claire, tocando o colar de conchas, olha para mim com perguntas nos olhos. “Um convite que cruzona oceanos,” respondo, sentindo o peso da generosidade de Cheng. No Negresco em 94, eu não podia imaginar que aquele estranho planejava nossas vidas com tanta antecedência.
Enquanto Claire e Ana recepcionam os convidados, fico conversando com Mei e Larah em francês, as palavras fluindo como a brisa do mar. Explico a Larah: “Ce carnet, ce n’est pas pour dessiner, d’accord ? C’est pour écrire sur toi, tes rêves, tes aventures.” Larah, balançando a cabeça com seriedade, responde: “Oui, papa, je promets ! Je vais écrire tout ce que je vois à Istanbul !” Mei ri suavemente e acrescenta: “Et je veux lire tes histoires un jour, ma petite étoile.” As crianças chamam Larah para brincar, e ela corre, o vestido vermelho esvoaçante. Mei e eu ficamos em silêncio, observando aquela pequena luz que brilha tão forte. Agradeço a Mei pelo presente e confirmo que iremos a Istambul. Pergunto se ela vai conosco, e ela balança a cabeça: “Non, je me prépare pour une nouvelle aventure.” Curioso, pergunto: “Quelle aventure, Mei ?” Ela sorri, com um brilho nos olhos: “Médecine, à Harvard. D’infirmière à médecin, un vieux rêve.” Fala baixo, sem alarde, e menciona, como um detalhe, que ajustou a agenda com um voo particular para estar aqui. Não pergunto mais — sua presença, por Larah, é o que importa. Ela pergunta: “Vous avez besoin de quelque chose pour vous ou pour Larah ?” Respondo, com um sorriso: “Nous avons déjà tout ce dont nous avons besoin.”
Pedro e Ana chamam a atenção de todos: é hora de cortar o bolo. “Amigos, hoje também celebramos nossos 7 anos de casados!” Pedro, com seu jeito irreverente, grita: “Um cara muito sortudo!” Dou risada, dizendo que sei da sorte que tive ao conhecer Claire há 7 anos. Ele retruca, rindo: “Eu tava falando de mim, francês! Eu te conheci antes dela, eu que te dei sorte!” Claire ri, mas logo diz, com a voz suave: “Somos todos sortudos, porque encontramos pessoas que nos amam.” Nesse momento, Larah nos olha, sem dizer nada, mas com um sorriso que ilumina mais que o sol do meio-dia. O bolo é imenso, com um noivo, uma noiva e uma estrela no topo.
Faço meu discurso, agradecendo a todos por fazerem parte das nossas vidas. No meio, Pedro abraça Ana e solta a novidade: “Vamos nos casar!” Paro de falar, peço uma salva de palmas para o novo casal e passo a palavra a Ana. Emocionada, ela segura as lágrimas e diz: “Estou muito feliz, porque hoje celebramos o amor — o de Jacques e Claire, o da Larah com todos nós, e o nosso, meu e do Pedro. Ele é meu gaúcho atrapalhado, mas é minha fortaleza. Obrigada por estarem aqui, por fazerem esta ilha nossa família.” Os aplausos ecoam, misturados às risadas e ao som das ondas.
Fazemos as fotos, e chamamos a estrela da festa. Larah olha para todos, sorri e diz: “Muito obrigado por estarem comigo hoje!” Então, vira-se para Mei e pede, com um sotaque doce: “Tatie Mei, aide-moi à couper le gâteau ?” Mei, com um sorriso maternal, ajuda Larah a cortar o bolo, servindo os convidados enquanto Larah volta a brincar. O dia passa rápido, como uma grande onda que abraça a praia e se desfaz em espuma.
Mei se despede ao entardecer. “Nos vemos em breve,” diz, abraçando Larah. Ficamos apenas nós, Pedro e Ana na areia. Noto o caractere 莉 bordado na capa do caderno que Mei dera a Larah. — Este símbolo... — sussurrei para Claire. — É o Jasmim. O mesmo desenho da abotoadura de lótus que aquele homem deixou na mesa em Nice. Cheng Yang não é apenas um doador, Claire. Ele é um arquiteto. Ele está desenhando a vida dela. — Claire apertou o colar de conchas: “E nós somos os guardiões desse desenho.” O mar de Campeche sussurra, e eu me pergunto que segredos Istambul nos reserva em 2002. Mostro a Claire a carta de Cheng. Ela diz: “Vamos ler depois.” O mistério da nossa família acabara de ganhar um nome chinês.
#Parte 9 – Sombras de Constantinopla
Escrevo agora, 11 de abril de 2001, sentado à escrivaninha da suíte no Çırağan Palace, com o Bósforo brilhando além da janela. Istambul me recebeu hoje, e a cidade é um caos que respira — tão antiga quanto os impérios que a ergueram. Cheguei em meu jato ao Aeroporto Atatürk por volta do meio-dia, e o ar me envolveu de imediato: uma mistura de sal marítimo do Bósforo, cominho tostado das barracas de rua e um toque doce de tabaco, como se Istambul fumasse seu próprio narguilé. A limusine, preta e silenciosa, aguardava na pista. Enquanto deslizávamos por Sultanahmet, as cúpulas da Mesquita Azul surgiram contra o céu de fim de tarde, curvas suaves emolduradas pelo frenesi da cidade. As ruas são estreitas, quase claustrofóbicas, com lojas tão próximas que parecem se fundir — um labirinto de cores onde vozes em turco ecoam como uma sinfonia desordenada. Pedi ao motorista uma parada estratégica no Grande Bazar antes de seguir para Beşiktaş. Encontrei Julien Moreau sob a luz filtrada de uma loja de lanternas otomanas. Ele me entregou o catálogo do leilão de amanhã; havia um item ali — um selo bizantino — que eu não permitiria que caísse em mãos erradas. Trocamos informações enquanto fingíamos examinar tapetes de seda. De volta à limusine, a cidade continuou seu assalto aos sentidos. As vielas de Beyoğlu, com pedras polidas pelo tempo, gemem sob carrinhos de simit, pães redondos cobertos de gergelim tostado, cujo cheiro quente parece impregnado nas paredes. Buzinas de táxis amarelos formam um coro desajeitado, disputando espaço com carroças puxadas por cavalos magros, seus cascos batendo como tambores. Acima, os minaretes lançam o ezan, o chamado à oração, e sua melodia paira sobre o barulho — um véu escuro que hipnotiza. É um lembrete constante de que Istambul vive entre mundos: o sagrado e o profano, o antigo e o moderno, o oriente e o ocidente. O Bósforo trouxe alívio ao caos. Ao chegar a Beşiktaş, a brisa do mar soprou fresca e salgada, com um leve toque de algas e diesel dos barcos que cruzam entre continentes. O rio é mais que água; é a veia que pulsa entre a Europa e a Ásia, refletindo palácios e mesquitas em um mosaico de ouro líquido. Da janela da limusine, vi os yalı, mansões de madeira alinhadas como sentinelas, suas janelas brilhando com segredos antigos. As ondas batem suaves, mas firmes, como se o Bósforo declarasse ser o verdadeiro senhor da cidade. O Çırağan Palace Kempinski, meu destino, é um refúgio de opulência suspenso acima do tumulto. Sento-me agora em minha suíte, um fantasma cercado por mármore e seda. Por um instante, ao observar o reflexo das luzes no Bósforo, pensei em Larah, minha princesa de olhos azuis. A caneta corre sobre o papel, mas a cidade não me deixa em paz. Seu murmúrio infiltra-se pelas janelas, um convidado que não pede licença. Antes de me instalar, explorei o calçadão de Ortaköy, a poucos passos do hotel. O Bósforo lambe as pedras, e o cheiro de peixe grelhado sobe de churrasqueiras improvisadas. Barcos de madeira balançam, amarrados por cordas grossas, e o som de um saz, com suas notas tristes, flutua sobre a água. Por um instante, senti o peso dos séculos que Istambul carrega — de Bizâncio a Constantinopla, de sultões a mercadores, de conquistas a cruzadas. É uma cidade que não se explica. Apenas existe. E desafia quem tenta dominá-la. Abro a janela da suíte, e o chamado à oração retorna, agora mais suave, misturado ao ronco distante de um ferry. O Bósforo brilha como um espelho de prata sob a lua, e as luzes da cidade dançam na água. Santa Sofia, com sua cúpula imensa, parece vigiar Istambul, enquanto os minaretes de Süleymaniye cortam o horizonte como lanças. O aroma de chá de maçã, servido em copos delicados, ainda paira no ar, misturado a um leve traço de especiarias. Istambul respira comigo — cominho, sal, tabaco e o peso de mil histórias que nunca contarei.
Escrevo agora, de volta à suíte do Çırağan Palace, a caneta deslizando sobre o papel enquanto o Bósforo murmura além da janela, suas luzes tremeluzindo como brasas na noite. O relógio marca 22:30, e o silêncio da sala contrasta com o tumulto da memória. Acabo de retornar do restaurante, o corpo ainda quente do raki e da tensão do encontro. Às 18h, antes de tudo, entreguei-me ao hamam privativo – azulejos otomanos brilhando sob luz suave, o vapor carregado de rosa e sândalo, os ossos aquecidos pela sauna. Vesti um terno de lã italiana, cortado em Milão, e o Patek Philippe brilha discretamente no pulso. Esta noite, Shahra Marsh, meu melhor contato, cruzou meu caminho, e cada detalhe de suas palavras ainda ecoa. Lembro-me de chegar ao restaurante às 20h, a limusine deslizando poucos metros do saguão, parte do ritual. O salão reluzia com lustres de cristal, o Bósforo refletindo um tapete de diamantes. Sentei-me à mesa reservada, o couro da cadeira macio sob as mãos, e esperei. O ar trazia o aroma de kuzu tandır e o anis do raki. Às 21h, Shahra entrou, e o salão pareceu segurar a respiração. Era uma visão – cabelo loiro curto em camadas elegantes, vestido de seda negra caindo como sombra líquida, um colar de pérolas destacando a pele clara. Seu sorriso era uma lâmina, quente e calculado. Levantei-me, e ela me cumprimentou com a graça de quem domina Paris. “Cheng, que prazer”, disse, a voz suave com sotaque britânico. “Shahra, você está radiante”, respondi, puxando a cadeira. “E você, como sempre, impecável”, retrucou, os olhos verdes cravados nos meus.
O garçom trouxe o raki, e brindamos, o licor queimando a garganta. Pedimos kuzu tandır, o cordeiro desmanchando na boca, acompanhado de pilav com pistaches e pão lavash quente. Então, o diálogo começou: “O que você tem para mim, Cheng?”, perguntou, inclinando-se, o perfume de jasmim invadindo o espaço.
“Tenho um lote que fará as casas de leilão de Londres implorarem, Shahra”, disse, mantendo a voz baixa e o olhar fixo. “Esmeraldas otomanas que não deveriam existir e safiras Mughal que foram dadas como perdidas. O valor de face é de $12 milhões, mas para os seus clientes, o preço é a eternidade.”
Ela ergueu uma sobrancelha, girando o copo de raki. “Nada mal. E os lances?” “Você decide”, disse. “Mas Paris está faminta por peças assim.” Shahra sorriu, confiante. “Venderei como heranças impecáveis. Minha rede em Londres e Genebra vai adorar.” “Confio em você para isso”, retruquei. “Mas cuidado com os marchands curiosos.” “Curiosidade é para amadores”, ela disparou, os olhos brilhando. “Eu os desarmo com um sorriso e um cheque – que, claro, sempre se resolve.” Riu baixo, e senti o peso de sua audácia. “E se o cheque não se resolver?”, provoquei, testando-a. “Então invento uma história”, respondeu, inclinando-se mais. “Um atraso bancário, uma viagem urgente. Eles me entregam o que quero antes de checar.” O tom era leve, mas carregado de segredos. O kuzu tandır esfriava enquanto falávamos, e o garçom trouxe mais raki. Ela falou das intrigas do Ritz em Paris; eu respondi com o fumo e o sangue das rotas do leste que ela jamais teria coragem de pisar. Shahra Marsh era a face limpa dos meus negocios. “Você brinca com o fogo, Cheng”, ela murmurou, a mão roçando a minha sobre a toalha de linho. E você, Shahra, é o combustível, pensei, retirando a mão com a frieza de quem já decidiu o próximo movimento. A luxúria é um luxo que eu não podia me permitir naquele momento. A conversa fluiu, mas a barreira estava erguida. Istambul guarda seus segredos, e eu guardo os meus. Agora, sozinho na suíte, o papel acumula palavras. Shahra partiu às 22h, deixando o ar carregado de jasmim e promessas. O lote está nas mãos dela, e o próximo passo será em Paris. Escrevo capturando cada nuance, pois sei que esta noite moldará o que virá.
Hoje é o primeiro dia do meu diário novo! Ganhei ele ontem, e a capa é tão bonita, com flores douradas, Claire disse que vou escrever tudo o que sinto.
Hoje, ela falou que vamos viajar para Istambul! Nunca ouvi esse nome antes, mas parece mágico. Jacques comprou passagens, e Claire está arrumando minha mala com vestidos e meu ursinho de pelúcia. Estou animada, mas um pouco com medo do avião. Quero ver o mar que a Claire falou, e ela prometeu me levar para comer doces. Escrevi meu nome na primeira página, e agora vou desenhar um sol!
A noite cai sobre Porto Alegre, 16 de abril de 2001. Larah completou sete anos ontem, e hoje o mundo parece ter ficado menor. A suíte no Sheraton é imponente, um luxo que o escritório em Florianópolis nunca poderia me proporcionar. O lobby, com seu mármore polido e o cheiro sutil de jasmim, reflete o poder invisível de Cheng Yang, enquanto Larah já dorme no quarto secundário. Cheng cuida de cada detalhe, como se estivéssemos em seu tabuleiro particular. É estranho ser o convidado de honra de alguém que nunca vi pessoalmente.
O dia começou cedo na Trindade, com Claire partindo às 08:00 para a Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi São Thiago. Lá, ela informou à coordenadora Helena, sua mãe, que Larah nos acompanhará numa viagem de sete dias a Istambul, retornando na próxima segunda, 23 de abril. Helena anotou a ausência com um sorriso, ajustando as aulas regulares e as particulares de francês e matemática, sem exigir formalidades além da comunicação direta. Claire voltou ao meio-dia, e eu confirmei que os passaportes de Claire e Larah precisam de validação no Consulado da Turquia, uma exigência para vistos na chegada, segundo a Varig ao telefone às 10:30, enquanto ouvia ao fundo o jingle da campanha “Voe Varig” na rádio.
Às 13:00, Roberto e Helena nos levaram ao Aeroporto Hercílio Luz em seu Fiat Marea 1998, o ronco do motor ecoando pela estrada enquanto passávamos por outdoors da Coca-Cola com o slogan “Viva o Momento”. No portão, eles nos despediram com abraços apertados – “Cuida da minha menina e da pequena,” disse Roberto, os olhos úmidos atrás dos óculos embaçados pelo calor. O voo da Varig decolou às 15:00, um trajeto curto de uma hora, com o cheiro de café da cabine e o zumbido dos motores nos deixando sonolentos, acompanhado pelo som de um walkman tocando “Aquarela do Brasil” de um passageiro ao lado. Chegamos a Porto Alegre às 16:00, e um motorista contratado por Cheng, um homem de terno discreto, nos aguardou com um Ford Mondeo preto, levando-nos ao Sheraton na Avenida Borges de Medeiros, um prédio imponente com letreiros neon que brilhavam na luz crepuscular, ao lado de uma loja da Renner exibindo manequins com roupas da coleção de outono.
Aproveitando que ainda era cedo, fomos ao Consulado da Turquia. Com os passaportes, a procuração de Mei e a reserva do hotel, o visto foi validado em 45 minutos. Saímos aliviados e decidimos explorar a cidade. Passeamos pela Rua da Praia, vendo vitrines com TVs de tela plana (uma novidade cara em 2002) e CDs nas lojas Multisom. Compramos um exemplar da Zero Hora, que trazia manchetes sobre a preparação da Seleção Brasileira para a Copa na Coreia e no Japão. O clima de expectativa no país combinava com o que eu sentia no peito. Jantamos no Restaurante Nabuco, na orla do Guaíba, com um Malbec argentino pago pela fundação de Cheng. Larah devorou um sundae, os olhos brilhando sob a luz das velas, enquanto Claire ria, o vento do sul bagunçando seu cabelo. Porto Alegre nos acolheu, mas Istambul é o que nos chama.
O motorista nos deixou no hotel às 20:30, entregando um cartão com seu telefone e se colocando à disposição. A suíte presidencial é um luxo – um quarto principal para mim e Claire, com cama king-size e banheiro de mármore, conectado por uma porta interna a um quarto secundário para Larah, equipado com uma mesinha de desenho e uma sacada com vista para o Guaíba, onde o reflexo das luzes dançava como um espelho líquido. Como resolvemos os passaportes rapidamente, temos até o dia 18 para conhecer Porto Alegre, antes de pegar o voo no dia 19 de manhã rumo a Istambul. Escrevo agora, o cansaço me puxando, mas o diário guarda este dia de transições sob o céu gaúcho, com o som distante de um jogo de sinuca vindo de um bar próximo.
Hoje foi o dia mais louco da minha vida! Cheguei em Istambul com o Jacques e a Claire, e o hotel é tipo um castelo gigante com luzes brilhantes e um rio que parece mágico! Eu estava super cansada depois de tanto avião, mas o quarto que é só meu tem uma caminha macia e um monte de brinquedos que o moço do hotel deixou. Antes de dormir, comi um doce grudento que chamaram de baklava, e era tão gostoso que sujou minha mão toda!
A viagem foi longa, longa mesmo. Saí de Porto Alegre num avião barulhento que balançava, e eu desenhei aviões no meu caderno. Depois, teve um avião enorme com cheiro de pão, e eu dormi sozinha na minha poltrona enquanto o Jacques e a Claire ficavam juntos. Em Paris, estava frio e tinha umas luzes feias, mas o avião pra cá tinha um cheiro engraçado de tempero. Quando chegamos, um carro preto nos levou pro hotel, e eu corri pra pegar sorvete na rua com o sol brilhando!
A Claire ficou toda feliz quando viu uma senhora bonita que deu um guardanapo com nome pra ela, mas eu não sei quem é. Agora tô com sono, meus olhos estão pesados, e o barulho de música diferente lá fora me faz querer sonhar. Amanhã vou explorar mais, prometo escrever tudo no meu diário!
2: 20 de abril de 2001. O quarto da suíte presidencial no Çırağan Palace Kempinski emudece com o sussurro gentil do Bósforo lá fora. O hotel, um palácio otomano restaurado, exsuda um luxo que beira o agressivo — um presente de Cheng Yang que me faz sentir, por um instante, como um convidado em uma peça de teatro que não ensaiei. Larah já dorme no quarto secundário; ela não sabe que seu padrinho está no mesmo hotel, talvez apenas alguns andares acima de nós. Escrevo estas linhas sentindo o peso dessa generosidade invisível que nos trouxe até aqui.
Os dois dias em Porto Alegre foram uma pausa encantadora – no Sheraton, passeamos pela Orla do Guaíba, Larah correndo entre vendedores de mate e rindo com o vento salgado, enquanto jantávamos no Nabuco com o requinte pago por Cheng. Na quarta, 18 de abril, exploramos mais a cidade, caminhando pela Rua da Praia, onde vitrines exibiam toca-fitas Sony, e compramos roupas leves e um caderno de desenhos para Larah na Galeria Chaves, entre o aroma de café torrado e o burburinho de transeuntes.
Partimos de Porto Alegre ontem, 19 de abril, às 08:30, num Boeing 737-300 da Varig, o ronco dos motores abafando as risadas de Larah enquanto ela rabiscava aviões em seu novo caderno, os cabelos balançando com a turbulência leve da decolagem. Em São Paulo, o Airbus A340-300 da Air France decolou às 12:00, um gigante que tremeu com rajadas inesperadas sobre o Atlântico, chegando a Paris às 03:30 após 11 horas de voo, o cheiro de croissants quentes pairando na cabine enquanto Larah dormia sozinha em sua poltrona, e eu e Claire nos aconchegávamos nas cadeiras ao lado, trocando olhares de alívio. Em Charles de Gaulle, a espera foi fria, com luzes fluorescentes zumbindo e anúncios em francês cortando o silêncio, até embarcarmos no Airbus A310 da Turkish Airlines, a entrada marcada pelo aroma de especiarias e o som de uma comissária saudando em turco, levando-nos a Istambul às 09:00, o nascer do sol tingindo o céu de laranja sobre o Mar Negro.
Um motorista de Cheng nos esperava com um Mercedes preto. Às 16:00, saímos para uma caminhada pelo Bósforo, o ar salgado misturado ao cheiro de incenso. Jantamos no Sunset Grill & Bar às 19:00, as luzes dançantes do estreito refletindo nos pratos. No caminho de volta, cruzamos com Monica Bellucci; Claire ficou radiante, ela admira a atriz desde Malèna. É curioso como o luxo parece atrair o extraordinário com uma facilidade que me assusta. Voltamos às 20:30, e agora, com Larah sonhando em seu quarto, o diário guarda este dia de chegada sob o céu estrelado de Istambul. Amanhã teremos o encontro no Parque Gülhane. Estou ansioso, e Claire, curiosíssima.
15 de abril de 2001
Dias se passaram desde minha última anotação. As negociações com Shahra Marsh avançaram como previsto — números ajustados, prazos redefinidos, nenhuma surpresa real. Ainda assim, minha atenção não estava ali. No início da noite, Mei ligou. Sua voz vinha calma, mas carregava aquele cuidado que ela só usa quando sabe que uma decisão importante já foi tomada por outros. Disse que a celebração havia sido simples, luminosa. Falou que Larah amou o diário. Depois, fez uma pausa breve, quase imperceptível, antes de dizer que eles aceitaram. A viagem começaria nos próximos dias. Agradeci. Disse apenas que tudo estava preparado. Após desligar, permaneci algum tempo em silêncio. Pensei que, em poucos dias, Larah estaria aqui.
21 de abril de 2001
Julien já havia estado com eles pela manhã. Confiei a ele o papel do convite para o encontro, ele saberia como conduzir a conversa da melhor forma. Eu tinha uma reunião crucial com investidores locais no escritório próximo ao Bósforo, perto do Parque Gülhane. Era parte das negociações para a modernização do Porto de Haydarpaşa, um projeto iniciado este ano para aumentar a capacidade de carga e integrar a Turquia às rotas comerciais da União Europeia, em meio às discussões de adesão à UE. Marcada para as 10:00, liderei as discussões, propondo ajustes nos contratos que garantiram lucros, enquanto Shahra, via teleconferência de Paris, sugeriu parcerias com joalheiros turcos para financiar a infraestrutura. O salão cheirava a café turco forte e couro das pastas, o som de canetas arranhando papéis misturando-se ao burburinho dos investidores. Minha mente, porém, divagava. Pensando em Larah. A reunião se estendeu até as 14:00.
Caminhei até o Parque Gülhane, chegando às 14:15 sob o perfume das tulipas. Observei-os de longe por alguns minutos antes de me revelar. Larah corria entre as flores, uma visão de vitalidade que eu não via a algum tempo. Quando nossos olhos se cruzaram, ela congelou por um segundo antes de explodir em um grito: “Papa!” — e veio correndo até mim. Eu a levantei, sentindo seu abraço. Com ela nos braços, caminhei até os Dubois, cumprimentei-os brevemente então pedi se nao se importavam de eu dar um volta com Larah. Fomos por um caminho de pedras. Eu e Larah conversamos muito, ouvindo-a falar sobre sua vida no Brasil — Florianópolis, as aulas de matemática e o sonho de ser piloto. Quando perguntou quando eu a buscaria, Ao inves de responder apenas perguntei. “Você é feliz lá, Larah?” . Ela respondeu sem hesitar “Sim, muito feliz,” os olhos azuis brilhando. Maktub. “Então este é o seu lugar por enquanto.”
Ao me despedir, sugeri o Palácio Topkapi; queria que ela visse a grandiosidade dos impérios. Caminhei até a limusine sob o aroma de kebabs, sentindo o olhar de Jacques em minhas costas.
A tarde foi um redemoinho. Shahra ligou antes da reunião, sua voz cortante pedindo atualizações sobre o lote do leilão – o colar otomano de esmeraldas, os brincos Mughal de safiras, o broche Lalique de rubi. Discutimos estratégias, e ela mencionou um comprador anônimo em Genebra interessado no colar. “Cuide dos detalhes,” disse, sentindo o peso da responsabilidade. Julien, ao meu lado no carro, manteve o silêncio típico, mas seus olhos varriam as ruas, sempre alertas.
Agora, sozinho na suíte, escrevo com a janela aberta, o Bósforo refletindo as luzes da cidade. O ar traz o perfume de jasmim dos jardins e o sal do mar. Penso em Larah, hoje senti isso mais do que nunca. Larah está segura e feliz, mas a saudade que ela expressou pesa em mim. Por agora, fecho este diário, o som do ezan ecoando, e me preparo para Paris, onde os negócios esperam – e os segredos persistem.
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#Diário de Cheng Yang
Parte 11 – Entre o Simit e o Silêncio
15 de abril de 2001
Dias se passaram desde minha última anotação.
As negociações com Shahra Marsh seguiram o curso esperado — números ajustados, prazos redefinidos, interesses alinhados. Tudo dentro do previsto. Ainda assim, percebi que escrevia menos. Não por falta de acontecimentos, mas porque minha atenção estava em outro lugar. No início da noite, Mei ligou. Reconheci o tom antes mesmo das palavras. Ela só fala daquela forma quando algo já foi decidido sem precisar ser reafirmado. Contou que a celebração havia sido simples, luminosa. Que a casa estava cheia, mas leve. Disse que Larah amou o diário — falou dele como se fosse um tesouro recém-descoberto. Depois, houve uma pausa curta. Pequena demais para ser hesitação, longa demais para ser casual. Eles aceitaram. A viagem começaria nos próximos dias. Agradeci. Conversamos um pouco mais. Após desligar, fiquei algum tempo em silêncio. Observei a cidade pela janela, os faróis se movendo como linhas vivas sobre o asfalto. Pensei que, em poucos dias, Larah estaria aqui.
21 de abril de 2001
Julien já havia estado com eles pela manhã. Confiei a ele o papel do convite para o encontro — ninguém saberia conduzir aquela aproximação com mais cuidado. Julien entende o valor do tempo e o peso das palavras. Eu tinha uma reunião marcada para as dez no escritório próximo ao Bósforo, proximo ao Parque Gülhane. O encontro fazia parte das negociações para a modernização do Porto de Haydarpaşa, um projeto sensível, cercado de interesses locais e olhares externos, especialmente agora, com as discussões iniciais sobre a aproximação da Turquia com a União Europeia. O salão cheirava a café turco forte e couro das pastas abertas sobre a mesa. Vozes se cruzavam em turco, inglês e francês. Canetas riscavam papéis com uma urgência quase mecânica. Conduzi a reunião com atenção suficiente para não levantar suspeitas, ajustando cláusulas, antecipando riscos. Ainda assim, minha mente se afastava com frequência. A reunião se estendeu até pouco depois das duas. Saí do prédio a pé. Caminhei em direção ao Parque Gülhane sem pressa, misturando-me aos turistas e aos moradores que aproveitavam a tarde de primavera. O ar estava carregado do perfume das tulipas e do cheiro quente de simit recém-assado, vendido em carrinhos de madeira ao longo do caminho. O som distante de um darbuka se misturava às vozes, ao canto dos pássaros, ao ruído constante da cidade. Entrei no parque às 14:15. Observei-os de longe por alguns minutos. Então a vi. Larah corria entre as flores, os cabelos loiros refletindo o sol, uma vitalidade que me atingiu como um golpe silencioso. Quando nossos olhares se cruzaram, ela parou por um segundo. Apenas um. Depois, correu. “Papa!” A palavra atravessou o parque com uma força que nenhum ruído conseguiu conter. Ajoelhei-me no tempo exato em que ela chegou e a levantei nos braços. O abraço veio forte, decidido, como se o corpo dela soubesse algo que a memória ainda organizava. Caminhei com ela até Jacques e Claire. Cumprimentei-os com poucas palavras, o suficiente para que não houvesse estranhamento, mas também sem abrir espaço para explicações longas. Pedi, com naturalidade, se poderia caminhar um pouco com Larah. Eles assentiram. Seguimos por um dos caminhos de pedra, sob a sombra das árvores antigas. Larah falou sem parar — sobre Florianópolis, sobre a escola, sobre as aulas de matemática, sobre o desejo de ser piloto. Eu a ouvi. Apenas ouvi. O mundo pode esperar quando uma criança fala. Em dado momento, ela perguntou quando eu a buscaria. Não respondi diretamente. Perguntei se ela era feliz. Ela respondeu sem hesitar. Disse que sim. Muito feliz. Os olhos azuis brilhavam com uma certeza que não precisava de reforço. Então disse apenas: “Então este é o seu lugar, por enquanto.” Maktub. Ao nos despedirmos, sugeri que visitassem o Palácio Topkapi. Queria que ela visse a dimensão dos impérios, o peso do tempo, a beleza do que permanece. Caminhei de volta até a limusine sob o aroma de kebabs assando nas ruas próximas. Senti o olhar de Jacques em minhas costas. Não virei. A tarde seguiu como um redemoinho. Shahra ligou, discutimos o lote do leilão — o colar otomano de esmeraldas, os brincos Mughal de safiras, o broche Lalique de rubi. Ela mencionou um comprador em Genebra. Julien permaneceu em silêncio ao meu lado, atento ao mundo. Agora, sozinho na suíte, escrevo com a janela aberta. O Bósforo reflete as luzes da cidade. O ar traz jasmim dos jardins e o sal do mar. Penso em Larah. Hoje senti isso mais do que nunca. Ela está segura. Está feliz. Ainda assim, a saudade pesa. Fecho este diário enquanto o ezan ecoa ao longe. Amanhã sigo para Paris. Os negócios continuam.
21 de abril de 2001. A noite se instala sobre Istambul. Ontem foi a chegada; hoje foi o dia em que o véu finalmente caiu. Estou sentado na sacada do Çırağan Palace, tentando processar o encontro no Parque Gülhane. O ar de primavera traz o perfume das tulipas, mas minha mente só consegue revisitar o rosto daquele homem. Larah dorme no quarto ao lado, segurando o caderno que Mei lhe dera, e Claire não solta o colar de conchas, perdida em pensamentos. Nós finalmente vimos o Arquiteto.
O café da manhã começou tranquilo na varanda do hotel, o sol tímido aquecendo as mesas cobertas por toalhas brancas impecáveis. Estávamos saboreando pães frescos quando um homem se aproximou – alto, com uma postura que gritava disciplina militar, olhos penetrantes como aço. Sem cerimônia, puxou uma cadeira e se sentou. “Sou Julien Moreau,” disse, a voz grave mas acolhedora, cortando o silêncio. Olhou para Larah, que desenhava aviões em seu caderno, e sorriu. “Olá, princesa dos olhos azuis.” Claire e eu trocamos um olhar confuso, o ar carregado de curiosidade. Ele continuou, falando português com um sotaque francês suave, poliglota com a naturalidade de quem viveu o mundo. “Sou um grande amigo de Cheng. Ele está em uma reunião de negócios, mas gostaria de convidá-los para encontrá-lo às 14:00 no Parque Gülhane. Ele está ansioso por isso.”
Concordamos, e a conversa fluiu como um rio calmo. Julien, com um sorriso que desarmava qualquer desconfiança, contou-nos como conheceu Cheng serviram juntos no exército francês – Cheng cumpriu o tempo obrigatório, enquanto ele seguiu carreira como fuzileiro naval, acumulando medalhas em missões que preferiu não detalhar. Anos depois, reencontraram-se por acaso em Paris, e Cheng, com sua visão empreendedora, convidou-o para trabalhar ao seu lado. “Ele sempre foi generoso,” disse Julien, rindo ao recordar uma vez em que Cheng bancou uma festa inteira para os amigos em Marselha, com música e risadas até o amanhecer. Falou de lealdade, de como Cheng valoriza quem caminha com ele, e prometeu proteção para nós. Explicou que trabalha como piloto para Cheng, tendo feito inúmeras viagens juntos, e que estão em Istambul a negócios – “Sempre a negócios,” acrescentou com um tom sarcástico, os olhos brilhando de leve.
Claire inclinou-se, curiosa, e perguntou: “Mas essa viagem que nos deu de presente era só para nos encontrar?” Julien balançou a cabeça, sério. “Não, por favor, não pensem assim. Foi muita coincidência vocês estarem aqui agora. Cheng mencionou esse presente há algum tempo, acredito que alguém finalmente conseguiu organizá-lo para vocês.” Fiquei intrigado e comentei que também achei a coincidência estranha. Julien riu alto, um som quente que ecoou na varanda, e disse: “Não se preocupem, Cheng é um bom homem. Se não está presente na vida de vocês, deve haver um motivo, mas isso ele mesmo deve contar quando se sentir à vontade. Da minha parte, posso garantir que ele é um homem bom e morre de saudades de Larah.” Claire hesitou, a voz suave: “Então ele quer nos encontrar para levá-la?” Julien negou novamente. “Não, Cheng não tem como cuidar de Larah agora. Ele confia em vocês, e é com vocês que ela vai ficar. Eu mesmo vou insistir para que ele seja mais presente, mas até eu sei que isso não será fácil.”
Tínhamos muitas perguntas, e Julien parecia disposto a esclarecer tudo o que pudesse. Falou de viagens que fez com Cheng, de momentos em que viram o mundo juntos, sempre com um tom de admiração. Percebi, porém, que nem ele sabia de tudo ou, se soubesse, não tinha interesse em compartilhar. Pela primeira vez, alguém nos dava respostas, mas a cada uma delas, o medo crescia – e se perdêssemos Larah, nossa “princesa dos olhos azuis”? Pensei em perguntar sobre a mãe dela, mas com Larah ali, desenhando alheia ao peso da conversa, decidi que não era o momento. As palavras de Julien pairavam, misturando alívio e incerteza, enquanto o sol subia no céu de Istambul.
A manha passou em uma névoa. Após nossa conversa, Julien se despediu, dizendo que precisava encontrar Cheng e que nos veríamos novamente mais tarde. Saiu com passos leves, sem pressa, desaparecendo no lobby em minutos. Terminamos nosso café com um misto de ansiedade, curiosidade e tranquilidade. Se foi coincidência, como ele sabia que estaríamos ali? Aproveitamos o restante da manhã para descansar no hotel, e Larah também demonstrava ansiedade. Perguntamos se ela se lembrava dele, e ela respondeu: “Nunca vi esse homem antes.” Insisti: “Você nunca viu Cheng antes?” Ela riu: “Papai, sim, esse homem não. Não que me lembre, pelo menos.” Rimos juntos. Já eram 13:00 quando a recepção avisou que o motorista estava à nossa disposição. Ele nos levou do hotel ao Parque Gülhane, que pulsava com vida – tulipas vermelhas e amarelas dançando ao vento, o aroma quente de kebabs se misturando ao perfume das flores, o som de um darbuka ecoando entre as árvores frondosas, e o canto de pássaros cortando o ar. Li em um panfleto que o parque, com seus 9,7 hectares, já foi parte dos jardins do Palácio Topkapi, aberto ao público desde 1912, abrigando a Coluna dos Godos, um marco romano do século III. Queria impressionar Larah com meu conhecimento sobre Istambul, e ela ouviu, fascinada, enquanto o sol aquecia as pedras do caminho.
Estávamos no parque quando um homem se aproximou — e o tempo pareceu parar. Ele vestia uma camisa branca impecável, calça esporte fino, os cabelos grisalhos balançando na brisa. Era ele. O estranho do Negresco em 1994. O mesmo caminhar de quem não pede permissão ao chão para pisar. Antes que pudéssemos reagir, Larah, com um grito agudo de alegria, correu e se jogou em seus braços, gritando “Papa!” em francês. Eu tremi, não de medo, mas de um respeito instintivo. Cheng Yang nos cumprimentou com uma firmeza que dizia: “Eu sei quem você é, Jacques Dubois. Eu escolhi você.” Ele nos convidou a sentar, agindo com a naturalidade de um soberano recebendo seus súditos leais.
Ele começou a falar, sua voz profunda em francês: “Je crois que nous nous sommes déjà rencontrés, n’est-ce pas?” (Acho que já nos conhecemos, não é?) Traduzi para Claire, que assentiu com um sorriso hesitante, ainda em choque. Cheng continuou, os olhos brilhando: “Mon père disait toujours que le destin est comme uma carte qui montre toujours le bon chemin.” (Meu pai sempre dizia que o destino é como um mapa que sempre mostra o caminho certo.) Traduzi novamente, e Claire e eu apenas concordamos, mudos, frente a um homem rico, influente e generoso, como Julien descrevera. Lembrei-lhe, em francês, do jantar em Nice – e agradeci mais uma vez. Ele sorriu e disse, com ênfase, “Maktub.” Olhei para Claire, confuso, sem reconhecer o termo. Ela sorriu, sua voz calma carregada de sabedoria: “Eu sei o que é. É árabe, significa ‘está escrito’. Nas minhas aulas de psicologia, aprendi que é um conceito usado para aceitar o destino como parte do crescimento pessoal.” Fiquei com cara de bobo, surpreso com sua profundidade, e sorri, impressionado.
Conversamos por algum tempo, Cheng contando histórias leves sobre viagens, sempre em francês, que eu traduzi para Claire, enquanto Larah ouvia tudo, rindo e intervindo com suas próprias perguntas em francês. Então, ele nos pediu, com um tom gentil: “Puis-je emmener Larah pour une petite promenade?” (Posso levar Larah para um pequeno passeio?) Traduzi, e Claire me lançou um olhar de hesitação, a psicóloga em ela pesando os riscos. Eu, porém, não vi problema – ele era o pai biológico, e Larah o aceitara com tanta naturalidade. Enquanto saíamos com Julien para explorar o parque, Cheng e Larah caminharam juntos, suas risadas ecoando entre as tulipas, um laço se formando diante dos nossos olhos.
Após algum tempo, reencontramo-nos no parque. Larah estava só risos, a alegria estampada em seu rosto rosado, os olhos brilhando como nunca. Perguntei a Cheng, em francês, enquanto Claire estava ao meu lado: “Voulez-vous vous joindre à nous pour le dîner, ou resterez-vous avec Larah à Istambul?” (Quer se juntar a nós para o jantar, ou ficará com Larah em Istambul?) Traduzi para Claire, que me olhou com curiosidade. Cheng respondeu, a voz suave mas firme: “Non, je suis ici pour affaires et je dois bientôt partir. Je suis très heureux de vous avoir rencontrés.” (Não, estou aqui a negócios e preciso partir em breve. Estou muito feliz por ter nos encontrado.) Traduzi, e Claire assentiu, surpresa.
A conversa fluiu, e com Claire e Larah momentaneamente distraídas – Larah pedindo um sorvete e Claire a acompanhando até um vendedor –, passei a falar diretamente com Cheng. Ele me olhou nos olhos e disse, com uma serenidade que me desarmou: — Você está guardando a minha sucessão, Jacques. O dinheiro é apenas o combustível; Larah é o motor. Cuide dela, e o mundo cuidará de você. — Fiquei sem palavras. Percebi que eu não era apenas um pai adotivo; eu era o guardião de um legado que eu ainda não compreendia. Ele perguntou por que não tínhamos outros filhos e, após minha hesitação, assentiu como se já soubesse a resposta. O silêncio entre nós foi preenchido pelo som de Istambul, mas a profundidade daquela troca ficou gravada em mim. “Maktub,” ele repetiu. Agora eu entendia: estava escrito muito antes de chegarmos a Gülhane.
Nos despedimos de Julien, e Cheng se foi, mas antes ele se virou e disse em francês, com um sorriso nostálgico: “N’oubliez pas de visiter le Palais Topkapi, il est magnifique.” (Não deixem de visitar o Palácio Topkapi, ele é magnífico.) Traduzi para Claire, que me olhou aliviada – percebi em seus olhos o medo de perder Larah, mas, pelo que entendi da conversa com Cheng, isso não aconteceria. Larah, já acabando seu sorvete, notou o olhar de Claire e perguntou, doce: “você está bem?” Claire sorriu, recompondo-se: “Claro, meu amor, estou ótima. Como não estar com um sorvete tão bom?” Então, virou-se para mim e perguntou: “E agora, para onde vamos?” Respondi que, como já estava tarde, poderíamos voltar ao hotel, mas Claire sugeriu: “Ou podemos conhecer o palácio.” Larah bateu palmas, animada: “Sim, quero ver o palácio! Lembra que eu sou a princesa dos olhos azuis!” Rimos juntos – Julien realmente deixou uma marca, e agora teríamos que chamá-la assim. Larah me puxou pela mão, curiosa: “Jacques, me conta sobre o parque e o palácio!” Expliquei: “O parque é situado no coração do distrito histórico de Sultanahmet, ao lado do Palácio Topkapi. Cobre cerca de 9,7 hectares e já foi parte dos jardins externos do palácio durante o Império Otomano. Aberto ao público em 1912, ele combina áreas verdes com a Coluna dos Godos, um monumento romano do século III. O Palácio Topkapi foi construído pelo sultão otomano Mehmed II, o Conquistador, começando em 1459, após conquistar Constantinopla em 1453, marcando o início do domínio otomano.” Claire me olhou assustada: “Como você sabe tudo isso?” Tirei um panfleto do bolso, rindo: “Acabei de ler aqui.” Rimos muito e decidimos explorar o palácio.
A visita foi rápida, pois já estava quase fechando às 17:00. Entramos pelo Primeiro Pátio, impressionados com as muralhas imponentes, e passamos pelo Segundo Pátio, onde vimos o Harém à distância, com seus azulejos coloridos e portas esculpidas. No Tesouro, avistamos o Cetro do Diamante reluzindo em uma vitrine, e Larah ficou fascinada por um traje otomano exposto, imaginando-se uma princesa. O tempo voou, e às 17:30 fomos gentilmente convidados a sair. O motorista nos levou de volta ao hotel, um trajeto de 15 minutos pelo trânsito animado de Istambul, e Larah, exausta mas feliz, adormeceu no carro. Claire e eu ainda estávamos processando tudo o que aconteceu, mas a viagem estava apenas começando. Antes de dormir, Claire me olhou e disse, séria: “Amanhã vamos falar com o prefeito Ali Müfit Gürtuna.” Perguntei, confuso: “Como assim?” Ela riu, brincalhona: “Se continuar cheio de surpresas assim, é capaz dele vir tomar café com a gente!” Entendi a piada, ri junto e concordei, sentindo que o destino, como Cheng disse com seu “maktub”, ainda reservava muito.
Hoje eu acordei com o sol pulando na minha cara, bem quentinho. A cortina voava e parecia que o vento queria brincar comigo. O cheiro de pão doce vinha lá da cozinha, e eu corri pra tomar café. Tinha um moço com cabelo cinza que falava engraçado — o nome dele era Julien. Ele me chamou de princesa dos olhos azuis! Eu derrubei suco na mesa sem querer, e ele só riu. Me deu um pãozinho quentinho e parecia que me conhecia de algum lugar.
Depois a gente foi pra um parque chamado Gülhane, que tem um nome que parece nome de mágica. Tinha flores vermelhas e amarelas dançando, música de tambor e passarinhos voando em círculos. O vento fazia cócegas no meu pescoço.
De repente… eu vi ele. Meu pai.
Corri e pulei no colo dele, e ele me abraçou bem forte. O cheiro dele era tipo perfume de adulto que eu gosto. Ele falou comigo em francês, igual antes, e eu entendi tudinho. A gente andou juntos entre as flores e eu contei sobre minha escola, meus amigos e aquele sonho gelado que sempre tenho às vezes, com tudo branco e silêncio. Ele ficou quieto e só olhou pro céu.
Eu perguntei quando ele ia me buscar, e ele me perguntou se eu não estva feliz no Brasil. Eu falei que sou feliz com a Claire e o Jacques, mas que às vezes sinto saudade dele. Ele sorriu e fez um carinho no meu cabelo.
Depois, ele falou com o Jacques e ficou sério. Eu não entendi nada, mas a Claire me deu sorvete de baunilha e disse que estava tudo bem. Então meu pai falou pra gente ir no palacio.
Na hora de ir embora, ele deu tchau. Eu fiquei com vontade de correr atrás dele, mas fiquei parada. Só olhei. A Claire me abraçou e falou baixinho: “Vai ficar tudo bem.”
Quando a gente foi no palacio. Vi que lá tinha quartos dourados e espadas brilhando. Eu imaginei que era a princesa do palácio. No hotel, desenhei o parque e o palácio. Fiz um coração em cima das tulipas. Hoje eu vi o dia mais bonito do mundo. E talvez amanhã tenha mais magia.
O sol nasceu cedo hoje em Istambul, tingindo de ouro o mármore branco das colunas do Çırağan Palace, o hotel-palácio onde estamos hospedados. As janelas altas da sala de café da manhã filtravam a luz com suavidade, e o ar trazia o aroma delicado das flores do jardim interno. Claire, Larah e eu descemos juntos para o desjejum por volta das 8h. O restaurante do hotel, um antigo salão otomano adaptado, tem uma cúpula central pintada em azul e dourado, colunas de mármore de Carrara e lustres venezianos reluzindo sobre mesas de linho puro. Larah correu para uma das janelas e se encantou com a fonte de mosaicos no centro do pátio. “Jacques, parece um espelho quebrado que brilha!”
Sentamo-nos próximos a uma pilastra antiga. O maître trouxe um cardápio trilíngue — turco, francês e inglês. Claire, ainda sonolenta, pediu chá de maçã com canela e pãezinhos sírios recheados de queijo de cabra. Eu experimentei um café turco bem forte, espesso como tinta, servido em uma xícara de porcelana com filigranas douradas. Larah, curiosa como sempre, provou tâmaras recheadas, geleia de pétalas de rosa e um doce chamado künefe, que se desfez em fios quentes de queijo e mel. Claire sorriu para ela, afagando-lhe os cabelos: “Você tem o paladar de uma exploradora.”
Durante o café, mencionei um panfleto que pegara na recepção sobre um congresso internacional de terapia sistêmica, no Centro de Convenções Lütfi Kırdar. “Aparentemente, um tal de Bert Hellinger vai falar sobre Constelação Familiar”, comentei, entregando o papel a Claire. Ela leu com ceticismo. “Isso está em alta entre alguns terapeutas na França, mas ainda é muito fora da linha tradicional.”
“Pode ser sua única chance de ver esse sujeito ao vivo, Claire. Você tem estudado tanto essas questões que talvez valha a pena assistir.”
“Mas, Jacques, eu vim pra ficar com vocês”, disse ela.
“É uma ótima oportunidade. O congresso começa às 10h e termina às 20h. Eu passo o dia com Larah. Vai ser divertido para nós dois.”
Claire aceitou. Despediu-se de Larah com um beijo demorado na testa. “Aproveite o passeio, minha pequena princesa dos olhos azuis”, disse, sorrindo. Larah respondeu: “Vou aproveitar com certeza!” O motorista levou Claire até o Lütfi Kırdar.
Partimos, então, para nosso próprio roteiro. Peguei um mapa turístico em francês no saguão. Decidimos ir ao Hipódromo de Constantinopla. No caminho, Larah comentou sobre os gatos que perambulavam pelas vielas. Expliquei que, em Istambul, os gatos são quase sagrados, parte da alma da cidade. “Esse parece o gato do livro da Claire”, disse ela, ao ver um persa branco deitado sobre uma almofada numa vitrine.
Visitamos a Mesquita Azul. “Larah, precisamos tirar os sapatos e você deve cobrir os ombros”, expliquei. Entramos em silêncio. Larah olhava para cima, fascinada pelas cúpulas. “Parece um céu cheio de estrelas que respira.” Os mosaicos azuis e dourados refletiam a luz do dia como aquarelas em movimento. Eu mesmo me senti pequeno ali, como se cada oração que ecoou naquele salão tivesse impregnado as pedras.
De lá, caminhamos até o Bazar Egípcio. Larah ficou hipnotizada com as cores dos temperos: açafrão, cominho, canela. Um vendedor turco, com olhos bondosos e um bigode imponente, ofereceu um bracelete de prata com pedras turquesa. “Para a pequena sultana”, disse em francês arranhado. Agradeci educadamente, mas Larah amou o bracelete. “O que é sultana, Jacques?”, perguntou. Expliquei que era como chamar de princesa. Ela olhou para o vendedor e disse: “Eu sou a princesa dos olhos azuis!” Depois disso, não hesitei em comprar o bracelete. O vendedor fez questão de colocá-lo no braço dela, e ela saiu dali cheia de pose de realeza.
Almoçamos no Hafız Mustafa 1864, um restaurante histórico à beira do Bósforo, onde barcos pequenos cortavam as águas azul-escuras. Pedi peixe grelhado com limão, pão sírio e salada de hortelã. Larah experimentou mercimek köftesi, bolinhos de lentilha com molho de romã, coloridos e suaves, perfeitos para crianças. Quando terminamos, ela quis sentar à beira do Bósforo para desenhar os barcos em seu caderno.
Pegamos um ferry para atravessar o estreito. O vento no convés bagunçava o cabelo de Larah, e ela ria alto, gritando: “Estamos voando no mar!” Sentei-me ao seu lado, em silêncio, apenas ouvindo sua risada. Pela primeira vez em meses, senti que o tempo tinha parado.
Retornamos ao hotel por volta das 18h. Larah tomou banho e foi escrever em seu diário, enquanto eu fui ao saguão buscar correspondência.
O concierge me entregou uma pequena caixa. Era de Cheng. Dentro, um cartão escrito à mão, em francês: “A tecnologia pode ser fria, mas conecta corações.” Claire chegou às 21h, exausta e radiante. O motorista a deixou no Sunset Grill & Bar, onde Larah e eu a esperávamos. Jantamos juntos sob a luz de velas, em um terraço com vista para o mar. Claire contou, entre garfadas de kebab e goles de vinho branco, que o seminário foi intenso. “Hellinger tem uma presença forte. Fala com silêncio. Faz perguntas que não têm respostas lógicas, só ressonâncias.” Entreguei-lhe a caixa. “Um presente pra mim?”, perguntou. “Não fomos nós que compramos”, respondi. Larah exclamou: “Foi meu pai que mandou! Abre pra gente ver!” Claire abriu e encontrou uma Canon PowerShot A10, uma câmera digital compacta, novidade reluzente de 2001. Ficamos emocionados. “Preciso aprender a usar isso”, disse Claire, encantada com a surpresa. “Também estou curioso”, comentei, sorrindo. Voltamos ao hotel, e Larah adormeceu enquanto ouvíamos uma música otomana suave no rádio do quarto.
Hoje de manhã o sol entrou na sala do café como se estivesse dançando. Eu vi uma fonte no meio do pátio que parecia um espelho quebrado cheio de brilho. O restaurante era grandão, com teto azul que parecia céu pintado e luzes penduradas que pareciam gotas de ouro.
A Claire tomou chá de maçã e comeu pão com queijo. O Jacques tomou um café que tinha gosto de terra forte (eu provei e não gostei muito). Eu comi um doce chamado künefe, que derreteu na minha boca feito queijo quente com mel. Era bagunçado, mas delicioso. Claire falou que eu tenho “paladar de exploradora”, e eu fiquei imaginando um chapéu de aventura na minha cabeça.
Depois a Claire foi num lugar de adultos chamado congresso. Ela disse que ia ver um homem que fala de famílias como estrelas no céu. Eu não entendi muito bem, mas o Jacques falou que ia passar o dia comigo e que a gente ia se divertir. E foi verdade.
A gente foi ver um lugar enorme com colunas e pedras onde tinha uma fonte. Depois fomos numa mesquita gigante com um teto azul que parecia um céu cheio de estrelas suspensas. Eu tirei os sapatos, cobri os ombros com um paninho bonito e entrei devagar. O chão era frio e os sons ficavam redondos no ar. Fiquei olhando pra cima o tempo todo. Quase tropecei!
No caminho, vimos um monte de gatos. Um parecia o gato do livro da Claire, todo branco, deitado numa almofada. Eu disse pro Jacques que os gatos moram em Istambul como se fossem príncipes peludos, e ele riu.
Depois fomos num bazar com mil cores e mil cheiros. Um moço me deu um bracelete com pedrinhas azuis e falou que era pra “pequena sultana”. Eu perguntei pro Jacques o que era isso, e ele disse que era tipo princesa. Então eu falei bem alto: “Eu sou a princesa dos olhos azuis!” O moço riu e colocou a pulseira no meu braço. Me senti mágica.
A gente almoçou perto do mar. Tinha barquinhos passando, e o cheiro da comida era leve. Comi bolinhos de lentilha com molhinho de romã. Achei divertido porque parecia massinha colorida.
Depois disso, a gente entrou num barco grande. Eu subi no convés e o vento bagunçou meu cabelo como se fosse um passarinho. Gritei: “Estamos voando no mar!” E o Jacques riu. Ele ficou quietinho um tempo, só olhando pra mim. Foi bonito.
Quando a gente voltou, eu tomei banho com sabonete que cheirava limpo e escrevi um pedacinho do que vi no meu caderno de desenhos. Desenhei o barco, o bracelete e o gato branco dormindo numa almofada roxa.
À noite, a Claire voltou. Ela estava meio cansada, mas com brilho nos olhos. A gente foi jantar num restaurante com velas. Ela contou umas coisas que eu não entendi, sobre um homem que fala pouco e que faz perguntas que ninguém sabe responder. Achei isso meio engraçado.
Daí o Jacques me deu uma caixinha. Eu pensei que era um brinquedo, mas era uma coisa legal: uma maquina que tira foto! O Jacques falou que veio do meu pai. A Claire ficou emocionada. Eu fiquei também. Agora vou poder tirar foto de tudo!
Dia 23 de abril de 2001, Segunda-feira. O sol da primavera entra inclinado pelas cortinas de linho branco da suíte, tingindo de âmbar o teto ornamentado. Acordei antes de Claire e Larah — algo raro — e fiquei alguns minutos observando o Bósforo da sacada, aquele espelho tremeluzente onde as embarcações parecem boiar sobre sonhos. O som abafado das gaivotas e o aroma de flores cítricas vindo do jardim interno do Çırağan Palace preenchem o ar com uma paz quase litúrgica.
Descemos para o café às 08:00 em ponto. Claire, de vestido leve e cabelo solto, pegou na mão de Larah, que saltitava empolgada com a ideia de novos passeios. “Hoje a princesa dos olhos azuis vai reinar em novos domínios”, eu disse, e ela respondeu: “Hoje a princesa vai desenhar o mapa do reino!” — mostrando o caderno de capa marrom que Mei lhe dera.
No salão otomano, as mesas já estavam dispostas com frutas frescas, pães sírios recheados e doces que mais pareciam joias. Claire pediu chá de maçã com hortelã. Eu, como de costume, arrisquei o café turco — forte como um segredo. Larah devorou um pedaço de künefe sorrindo, as mãos meladas de queijo doce.
Foi então que Julien chegou. Dessa vez, não estava sozinho. Apresentou-nos um homem de meia-idade, de postura elegante, cabelos grisalhos bem aparados e um olhar caloroso. Chamava-se Halil Demir, nascido e criado em Üsküdar, ex-professor de História Islâmica que se tornara guia especializado em famílias francófonas. Falava francês, inglês, espanhol e até algumas frases em português, que usava para brincar com Larah. Ela gostou dele de imediato e logo o chamou de “Professor das Ruas”.
Halil se sentou conosco e tirou de sua pasta um pequeno dossiê encadernado, ilustrado com mapas e fotos antigas. Era o "Roteiro dos Sentidos", como ele chamou — cinco dias em Istambul, cada um focado em um aspecto: o olhar, o paladar, a história, a espiritualidade e o contraste. Um passeio para cada dia, tudo baseado nos horários de funcionamento, respeitando pausas, refeições e transporte.
Conversamos por quase duas horas. Claire fazia perguntas, anotando sugestões. Halil ouviu com atenção os relatos dos passeios que já fizemos, especialmente o encontro no Parque Gülhane e a visita breve ao Topkapi. “Repetir pode ser bom”, ele disse. “História muda com os olhos. E os olhos mudam com os dias.”
Julien, como sempre, nos deixou após o café — “Tenho negócios a resolver com Cheng, mas estou sempre por perto”, disse com um aceno. Halil, ao contrário, ficaria conosco o resto da semana. Ele mesmo havia preparado um roteiro impresso para Larah, com espaços para colar folhas, desenhos e fotos.
Após duas horas de conversa rica e cheia de histórias, subimos para os quartos, enquanto Halil se despediu momentaneamente, prometendo retornar em breve com tudo pronto para o almoço. “Vou escolher um lugar que vos conte a cidade em sabores”, disse ele com aquele tom poético que parecia natural aos guias de verdade — não apenas os que repetem datas, mas os que traduzem emoções.
No quarto, Claire organizava uma pequena mochila com um lenço leve, óculos escuros e a câmera que ainda despertavam nossa curiosidade. "Vamos testar hoje, certo?", ela perguntou. “Sim,” respondi, “mas você tira as primeiras fotos. Larah está ansiosa para ser fotografada no barco.”
Às 12h30, pontual como sempre, Halil nos aguardava no saguão. Estava mais elegante, de camisa branca e paletó azul claro, com um pequeno broche dourado no colarinho — o símbolo de guias oficiais da Turquia. “Tenho uma mesa reservada no Feriye Lokantası”, anunciou com um sorriso discreto. “Às margens do Bósforo, vista direta para a ponte. Uma cozinha otomana contemporânea, discreta, histórica — o sultão Mahmud II mandava caçar patos ali perto.”
Entramos em uma van preta de janelas fumê, com bancos de couro creme e ar-condicionado leve, contratada por Halil. Ele estava no banco da frente, mas vez ou outra virava-se para nos contar uma curiosidade sobre a cidade. Passamos pela Praça de Beşiktaş, onde Larah viu um grupo de estudantes com mochilas coloridas. “Parece a escola da vovó Helena!”, comentou, arrancando risos de Claire.
O restaurante ficava numa construção restaurada do século XIX, com colunas esguias e terraço à beira da água. A mesa já estava posta com toalhas brancas e pratos de cerâmica azul. O garçom, trajando terno preto e luvas brancas, nos saudou em francês e turco. Halil sugeriu o cardápio degustação — o "Ziyafet Menü" — com entradas típicas, cordeiro assado com damascos, arroz açafrão e doces como baklava de pistache e lokum com flor de laranjeira.
Larah se deliciou com sopa de lentilha vermelha e um peixe branco grelhado servido com molho de romã. Claire preferiu algo mais leve — salada de pepino com iogurte, seguida de legumes assados com azeite de oliva e zattar. Eu me deixei levar pela recomendação de Halil: kuzu incik — pernil de cordeiro cozido lentamente, que se desmanchava ao toque do garfo.
Durante o almoço, conversamos sobre o Islã, as origens de Istambul e os bairros que visitaríamos. Halil parecia uma enciclopédia viva, mas nunca soava pedante. Era como se escolhesse as histórias conforme o vento. Larah perguntou se Ortaköy era “o bairro das pontes”. Halil riu e respondeu: “É o bairro das confluências. Povos, crenças, cafés, gatos e minaretes — todos juntos.”
Por volta das 14h30, deixamos o restaurante caminhando devagar pelas ruas de Ortaköy, onde artistas vendiam aquarelas e colares feitos à mão sob toldos coloridos. Claire comprou uma pulseira de prata para Helena e Larah quis um caderninho com a capa de couro azul onde estava escrito, em dourado: Boğaz’ın Prensesi — “A princesa do Bósforo”.
Tiramos várias fotos com a câmera: Larah posando em frente à Mesquita de Ortaköy, com a ponte ao fundo; Claire sorrindo ao lado de uma estátua de Atatürk; eu segurando um copo de chá turco ao lado de um grupo de pescadores.
Às 16h30, Halil nos levou até um pequeno cais, onde um barco já nos aguardava. Era elegante, com bancos estofados e uma bandeira turca ondulando suavemente na popa. Subimos a bordo com entusiasmo. O passeio pelo Bósforo foi indescritível: palácios, fortalezas, bairros residenciais e palmeiras desfilavam sob a luz do fim da tarde. Claire e eu tiramos fotos de Larah com o véu do vento esvoaçando atrás dela. A “princesa dos olhos azuis” parecia realmente pertencer àquela paisagem.
Por volta das 18h30, o barco encostou novamente em Ortaköy, onde despedimo-nos de Halil por hoje. Ele confirmou o passeio do dia seguinte, às 09h00, e garantiu que nos buscaria após o café da manhã. “Amanhã será o dia do olhar”, disse ele enigmático, antes de desaparecer entre os vendedores de artesanato e as luzes suaves das lanternas penduradas nas barracas.
Voltamos ao hotel de van. Larah dormia encostada no meu ombro, exausta. Claire folheava o novo caderninho dela, onde já havia um desenho de uma ponte e um coração. Ela comentou, com um sorriso suave: “Acho que ela vai se lembrar desse dia pelo resto da vida.”
Depois de deixarmos Larah descansando um pouco no quarto, decidimos sair para jantar em um restaurante próximo, recomendado pelo concierge — o Kiyi Restaurant, em Arnavutköy, a poucos minutos de carro do hotel. O local, à beira do Bósforo, tinha janelas enormes de vidro que refletiam as luzes da cidade sobre a água calma. O salão era silencioso, com música otomana instrumental ao fundo e garçons discretos. Pedimos um jantar leve: eu escolhi peixe espada grelhado com ervas e arroz de amêndoas; Claire optou por legumes recheados e uma taça de vinho branco seco; Larah, já mais acordada, preferiu pão pita com homus e um prato de frango com batatas temperadas com zaatar.
Durante o jantar, conversamos pouco. Estávamos todos embalados por uma espécie de silêncio bom — o tipo que vem quando o corpo está cansado, mas a alma, alimentada. Claire fotografou Larah segurando um pão pita em forma de meia-lua, com os olhos sonolentos.
Voltamos ao hotel por volta das 21h30. Larah tomou banho e correu para escrever no diário de couro: desenhou o barco, a mesquita e uma legenda em letras grandes: "Hoje fui uma princesa no mar". Claire e eu trocamos olhares cúmplices. O dia estava encerrado. Mas, de algum modo, parecia que ele ia durar para sempre.
Hoje a gente ficou muito tempo sentados comendo no hotel. Foi legal porque o pão estava quentinho e o suco parecia mel. Um homem chamado Halil apareceu. Ele tinha olhos que pareciam mapas, daqueles que a gente olha e já quer ir correndo atrás.
Ele falou coisas bonitas e deu um caderno com lugares pra visitar. Eu fiquei desenhando uma ponte com coração no meio. Depois, a gente andou num lugar chamado Ortaköy. Tinha uma mesquita linda e uma loja com colares que brilhavam. Eu escolhi um desenho pra fazer no caderno e pedi pra Claire tirar uma foto minha. Eu pareço uma princesa com vento.
No barco, eu abri os braços e falei pro Jacques que o vento do mar era meu amigo. Vi um peixe pulando, mas acho que só eu vi. O sol foi descendo e tudo ficou dourado.
Hoje foi o dia que o vento me contou um segredo.
O dia 24 de abril de 2001 amanheceu úmido e suave, com aquele tipo de luz difusa que transforma a cidade inteira em um cenário de sonho. Do alto do Çırağan Palace, o Bósforo parecia uma fita de prata esticada entre dois mundos. Claire e eu acordamos com o som da voz de Larah no quarto ao lado, cantando uma melodia inventada. Quando entrei, ela estava diante da janela com o caderninho de couro nas mãos, desenhando a cúpula da mesquita de ontem com canetinhas coloridas. "Hoje vou desenhar a maior de todas", disse, determinada. "Aquela que parece um castelo de nuvens."
Descemos para o café às 08h00. Larah estava radiante com sua tiara de tecido azul e a pulseira de turquesas comprada no Bazar Egípcio. Claire pediu chá preto com limão, e eu mantive meu ritual do café turco. Larah pediu panquecas e um copo de suco de damasco, mas comeu devagar — a expectativa já estava colando nos olhos dela.
Às 09h00, Halil nos esperava no saguão, elegante e sorridente como sempre. Trazia consigo uma pequena caixa com três crachás plastificados com nossos nomes. “Para facilitar a entrada nos locais turisticos”, disse, piscando para Larah. Ela olhou para o crachá e leu em voz alta: “Larah Yang”.
Seguimos em uma van confortável até o bairro de Sultanahmet. Por volta das 09h30, estávamos diante da monumental Santa Sofia (Ayasofya). Larah ficou paralisada por alguns instantes ao ver a cúpula e os quatro minaretes cortando o céu cinzento. “foi um gigante que construiu isso?” Respondi que sim, em parte — um império inteiro é um tipo de gigante. Dentro, o silêncio parecia mais denso do que o som. Larah olhava para cima como quem procura constelações. Halil ajoelhou-se ao lado dela e apontou os mosaicos dourados: “Ali está Maria, ali está Jesus, ali os anjos... e acima, Deus, como luz.”
Ela ficou alguns minutos de olhos fixos na cúpula, até perguntar: “E onde eu fico nesse desenho?” Claire se ajoelhou ao lado dela, abraçando-a. “Você fica bem aqui”, disse, apontando o coração de Larah.
Depois, fomos até a Cisterna da Basílica (Yerebatan Sarnıcı). Descemos pelas escadas de pedra, onde a umidade parecia emanar do chão, e Larah agarrou minha mão com força. “É aqui que os monstros moram?”, sussurrou. “Não. É aqui que os espelhos descansam.” As colunas iluminadas por baixo, refletidas na água escura, formavam um cenário entre sonho e pesadelo. Claire comentou: “Isso parece uma sala secreta de algum palácio submerso.”
Halil nos mostrou a cabeça de Medusa, deitada de lado, como uma lembrança do paganismo escondida sob o Império Bizantino. Larah observou em silêncio e depois disse, baixo: “Se ela está de cabeça pra baixo, não pode machucar ninguém.” Fiquei arrepiado com a lucidez da frase. Antes de sairmos, ela pediu para fazer um desenho ali mesmo, sentada num banquinho. “Vai ser a Medusa dormindo. Mas sem olhos maus.”
Por volta das 12h30, seguimos a pé até o Grande Bazar (Kapalıçarşı), onde o caos se transforma em poesia. Halil disse que há mais de 4.000 lojas naquele labirinto de cúpulas, e Claire ficou impressionada com a vibração do ambiente. Os gritos dos comerciantes, o cheiro de couro, incenso, açafrão e chá de maçã. Larah queria ver tudo. Compramos um lenço de seda para Mei e uma miniatura de tapete para o quarto da Larah.
Almoçamos ali mesmo, em uma lokanta tradicional escondida num pátio interno, chamada Havuzlu Restaurant, um oásis silencioso em meio ao tumulto. Claire pediu moussaka de berinjela, eu fui de kebab de carneiro e arroz de pinoles. Larah experimentou o “pide”, o pão turco em forma de canoa, com queijo e tomate. Halil comeu rápido, dizendo que nos esperaria do lado de fora.
À tarde, Larah quis voltar a algumas lojas para procurar “um colar que parecesse um raio de sol”. Claire a acompanhou. Eu fiquei atrás, tirando algumas fotos com a câmera nova — capturei um momento em que Claire e Larah riam juntas, sentadas num degrau antigo, com sacolas coloridas e rostos iluminados pela luz difusa que descia das cúpulas.
Por volta das 17h30, Halil nos conduziu a um pequeno café na lateral do bazar, onde Larah escolheu um sorvete de pistache e morango. Depois, caminhamos pelas ruas até encontrarmos um vendedor de simit (roscas de gergelim) e um outro que vendia sucuklu ekmek, um tipo de “cachorro-quente turco” com linguiça apimentada. Larah disse: “A comida de rua de Istambul tem cheiro de fogueira e gosto de brincadeira.”
Ficamos ali, comendo sentados num banco de praça, observando as luzes se acendendo pelas ruelas de Sultanahmet. Claire comentou: “Essa cidade tem mesmo camadas como as pedras da cisterna — cada uma esconde uma história.”
A noite caiu e, em vez de voltarmos direto ao hotel, Halil sugeriu um passeio breve pelas ruelas iluminadas da região. Passamos pela Praça do Hipódromo, onde as fontes já estavam acesas, e os gatos de rua se esgueiravam sob bancos e arbustos. Larah parou diante de uma fonte iluminada em azul e pediu para tirar uma última foto.
Chegamos ao hotel às 20h15. Larah já dormia no carro, os braços em volta do caderninho. Antes de colocá-la na cama, vi que ela tinha escrito numa folha solta, em letras infantis:
"Hoje eu fui uma estrela escondida nas colunas do mundo."
Claire me olhou com lágrimas contidas. Eu apenas sorri. Ela dormia. E tudo, naquele instante, parecia exatamente onde deveria estar.
Hoje fomos em lugares muito antigos. Primeiro foi numa igreja gigante chamada Santa Sofia. Ela tinha um teto que parecia o céu de vidro. Eu fiquei olhando pra cima e achei que ia cair pra dentro das nuvens. Tinha um lugar escuro com água embaixo da terra, com colunas que pareciam árvores dormindo. Era uma cisterna! Vi uma cabeça de Medusa virada de lado. Escrevi no meu caderno que ela tava de castigo.
Depois fomos no Grande Bazar. Eu fiquei com vontade de comprar tudo. Tinha braceletes, doces, coisas cheirosas, e um senhor que gritou “lindo colar pra princesa!” e eu ri. Comi um pão com queijo que parecia uma barquinha.
De tarde tomei sorvete de pistache. Fiquei com bigode verde e Claire tirou foto. Depois comi um pão de rua com carne que chamava... não lembro. Mas era bom. Escrevi no meu caderno:
“Hoje foi um dia de esconderijos e espelhos.”
Hoje 25 de abril de 2001 atravessamos um continente. Não metaforicamente, mas com os pés firmes no convés de um barco, sentindo o vento mudar conforme deixávamos a Europa e nos aproximávamos da Ásia. Claire comentou que essa cidade é uma metáfora viva do próprio ser humano: uma ponte entre o passado e o presente, entre a terra firme da razão e as marés do mistério. Larah, no entanto, traduziu melhor: “Hoje a gente virou uma palavra comprida que tem um rio no meio.”
Começamos o dia como de costume: às 08h00, café no salão otomano do Çırağan Palace. Larah experimentou um pão doce com tâmaras e pediu dois sachês extras de mel para levar “caso os patos do outro lado da cidade estejam com fome.” Claire e eu rimos, enquanto Halil chegava ao saguão com um mapa desenhado à mão com o itinerário do dia.
Às 09h30, embarcamos em um ferry privado no Eminönü, reservado por Halil com exclusividade para o passeio da manhã e tarde. O barco, de madeira polida e almofadas coloridas, partiu suave pelo estreito. A travessia até a Ásia não leva mais do que 20 minutos, mas Halil planejou um roteiro mais poético: navegamos lentamente, passando por palácios à beira-mar, mesquitas e casas otomanas restauradas. Claire tirava fotos com a câmera enquanto Larah, no convés, abria os braços como se quisesse abraçar o vento. “É o vento asiático. Ele é mais rápido!”
Fizemos uma primeira parada breve no bairro de Üsküdar, onde Larah quis comprar um balão vermelho de um vendedor que empunhava um feixe deles como se fosse um jardim flutuante. “Esse é meu sinal de que atravessei o mundo”, disse, amarrando o barbante no pulso. Caminhamos por alguns minutos, bebemos um chá de maçã num pequeno café com vista para o estreito e seguimos para Kadıköy, onde passaríamos o resto do dia.
Kadıköy parecia outra cidade dentro da mesma cidade. O trânsito era caótico, mas a energia era diferente — mais jovem, mais viva. Halil nos levou ao Mercado de Peixe, onde Claire se encantou com os vendedores que gritavam em turco antigo, oferecendo polvos, tâmaras secas e pistaches em pilhas simétricas. Larah quis comprar uma caixa de doces “para Mei e para os peixes do hotel.”
Almoçamos leve, por volta das 13h30, num restaurante moderno chamado Çiya Sofrası, conhecido por reviver receitas antigas da Anatólia. Halil sugeriu pratos típicos da parte interior da Turquia. Claire provou kısır (um tipo de tabule turco), eu fui com um tavuklu güveç (ensopado de frango e legumes em panela de barro), e Larah quis um prato que chamava atenção pelo nome: Ali Nazik — purê de berinjela defumada com carne moída e iogurte cremoso. Ao provar, disse: “Parece comida de princesa triste, mas tem gosto de abraço.”
Passamos a tarde explorando lojas de livros antigos, brinquedos artesanais e uma pequena feira de rua onde Larah comprou uma pulseira azul-cobalto de uma vendedora que a chamou de “küçük melek” — “pequeno anjo”. Claire a fotografou sorrindo em frente a um mural pintado com cores vivas, onde estava escrito em turco: Hayat kısa, sanat sonsuzdur – “A vida é curta, a arte é eterna.”
Por volta das 17h, tomamos sorvete em uma pequena gelateria artesanal administrada por um casal de idosos armênios. Larah escolheu sabor de figo com nozes e pediu para que o cone fosse decorado com pétalas secas de rosa. “É a sobremesa do outro lado do mundo”, explicou. Enquanto saboreávamos o lanche, um grupo de jovens começou a tocar um saz (instrumento de cordas) na praça, e Claire se emocionou com a música — parecia um lamento, mas era cheia de esperança.
Halil nos levou então ao Moda Sahil, um parque à beira-mar com bancos de madeira e vista direta para o lado europeu. O céu já começava a mudar de cor, tingido de dourado. Larah desenhou no caderno uma linha ondulada ligando duas torres e escreveu: “Hoje o mundo teve dois lados e eu fui os dois.”
Às 19h00, jantamos no Kadıköy Sahili Balıkçısı, um restaurante especializado em frutos do mar. Claire pediu lulas recheadas com arroz e nozes; eu, um prato de peixe azul assado com alho e limão; Larah, curiosamente, quis repetir o Ali Nazik. “Esse nome me faz sentir grande”, disse, enquanto puxava o guardanapo como uma capa. Halil se despediu ao final da refeição, dizendo que retornaria cedo na manhã seguinte. Ele parecia cansado, mas feliz — seu trabalho era mais do que guiar, era cuidar.
Retornamos ao hotel por volta das 20h30, embalados por um silêncio confortável. No carro, Larah cochilou com o balão vermelho ainda preso ao pulso. Claire olhava a cidade se distanciar pela janela com um misto de encanto e saudade antecipada. Eu, do banco de trás, apenas observava — pai, esposo, hóspede da história.
Hoje a gente andou de barco de novo, mas pra ir até a Ásia! O Jacques falou que a gente mudou de continente. Eu achei isso engraçado porque não doeu nem nada. Tinha um moço vendendo balões vermelhos e eu escolhi um pra amarrar no braço. Falei que era o sinal de que eu atravessei o mundo.
Comprei uma pulseira azul de uma moça que falou “küçük melek” — o Halil disse que era “anjo pequeno”. Eu gostei. A Claire tirou uma foto minha em frente a uma parede colorida que dizia “A arte vive pra sempre”. Acho bonito isso.
Comi um prato com nome estranho, Ali Nazik. Era molinho e parecia um abraço. Disse que era comida de princesa triste. Depois, pedi o mesmo prato no jantar porque queria parecer importante.
Hoje desenhei duas torres ligadas por um fio de linha. Escrevi:
“Hoje eu fui os dois lados do mundo.”
Acordamos no dia 26 de abril de 2001 sob um céu de chumbo leve. Aquela luz filtrada que parece vir de trás de uma cortina de linho. Claire demorou um pouco mais para se arrumar. Vestiu uma blusa azul escura, calça de tecido leve e prendeu o cabelo em um coque baixo. “Hoje quero ver as coisas com calma”, disse, olhando para o espelho, mas falando com outra pessoa — talvez com a mulher que ela foi antes de ser mãe, esposa, imigrante.
Descemos para o café às 08h00. Larah notou o silêncio da mãe e, com um jeitinho cuidadoso, pegou um pão sírio e colocou no prato de Claire. “Pra você não esquecer de comer.” Claire sorriu e a puxou para perto. “Hoje vamos ver coisas antigas, muito antigas. Talvez até mais velhas que a Claire.” Larah arregalou os olhos: “Existe algo mais velho que você?” Rimos os três, e o dia começou.
Halil nos aguardava no saguão com um guarda-chuva fechado embaixo do braço, “só por precaução”, disse ele. Às 09h00, partimos rumo ao Museu de Arqueologia de Istambul, que fica próximo ao Palácio Topkapi, mas em um anexo escondido pelas árvores. Claire parecia uma acadêmica em dia de reencontro com velhos amigos. Andava entre os sarcófagos como quem lê cartas. Parava diante das estátuas com olhos perdidos, como se esperasse que elas falassem. E, talvez, falassem mesmo.
Em uma sala de cerâmicas, encontrou um pequeno jarro com entalhes que mostravam uma mulher sentada entre dois filhos. “Essa sou eu”, disse. E então me explicou que objetos assim não falam apenas de épocas, mas de vínculos: “As pessoas morrem, mas as mãos deixam marcas. E essas marcas ficam esperando alguém que ainda não nasceu.” Anotei essa frase no meu próprio caderno de anotações. Claire tem dessas falas que não parecem dela, mas de algo maior falando por ela.
Larah, com sua pulseira de turquesas tilintando no pulso, apontava para os vasos: “Esse parece de suco de uva”, “esse é para o perfume da vovó.” Eu só observava. Em determinado momento, Claire se ajoelhou ao lado de uma estatueta de mármore e falou em francês: “Je suis toi, dans mille ans.” (Sou você, daqui a mil anos). Ela achou que ninguém ouviu, mas eu ouvi.
Seguimos então para o Palácio Dolmabahçe, já por volta das 11h30. A entrada grandiosa nos silenciou. Claire não falava — apenas andava devagar. No grande salão central, parou diante do lustre de cristal que pesa quatro toneladas e disse: “Parece que alguém vai entrar pela porta a qualquer instante.” Larah, atenta, desenhou a escadaria de cristal em espiral no seu caderno. “É uma escada para subir até o céu da Turquia.”
A visita nos tomou até quase 13h00. Halil, como combinado, levou-nos para almoçar. Claire escolheu comida mediterrânea. “Quero algo leve, fresco, com azeite e queijo e coisas verdes.” Halil sorriu e sugeriu o Lokanta Fıccın, que ficava a poucos quarteirões do palácio, discreto e tradicional. Lá, sentamos em uma mesa perto da janela. Claire pediu dolmas de folha de uva, salada de pepino com iogurte e pão sírio aquecido. Larah quis o mesmo. “Hoje vou comer o mesmo que a Claire.” Eu segui o cardápio: arroz de amêndoas, cordeiro assado com berinjela e sumagre.
Enquanto esperávamos, notei um jornal na entrada — uma edição do Hürriyet, mas curiosamente impressa em francês para turistas. Peguei um exemplar e, na segunda página, uma matéria me prendeu a atenção. Era sobre uma reclamação formal de partidos políticos e sindicatos contra um ministro turco, após protestos recentes envolvendo mortes de presos em regime de isolamento forçado.
Mostrei o jornal para Claire. Halil, percebendo nossa curiosidade, traduziu os trechos que estavam apenas em turco. O caso parecia sério. “Eles dizem que os presos estavam em jejum de fome e foram forçados à realocação violenta,” explicou. Claire franziu o cenho. Eu li com atenção os detalhes, mastigando as palavras como o cordeiro do prato. “Não podemos interferir... é outro país, outra lógica jurídica. Mas me dói. A dignidade humana não é exclusividade de fronteiras.”
Claire apenas assentiu. Larah desenhava, sem saber do que falávamos. Em seu caderno, uma cama dourada e um vaso de vidro. Acima, escreveu: “Hoje vi uma cama de um rei e um vaso onde o tempo dorme.”
Terminamos o almoço em silêncio. Não um silêncio ruim — era um daqueles que vêm depois de algo importante.
À noite, eu escolhi o jantar. Queria algo histórico, robusto. Halil nos levou ao Asitane, um restaurante em Edirnekapı conhecido por reviver receitas do tempo dos sultões. Todos pedimos o mesmo prato: pilaf de cordeiro com damascos, acompanhados de salada de hortelã com romã e pão de açafrão. O ambiente era silencioso, as velas nas mesas dançavam pequenas histórias.
Para a sobremesa, Larah pediu que todos escolhessem pudim de leite com pistache e água de rosas. “Porque hoje a gente viu coisas velhas e doces também.” Claire concordou: “Parece justo. Hoje as pedras falaram, e a sobremesa escuta.”
Voltamos ao hotel por volta das 20h30. Larah dormiu no carro. Claire me olhou e disse, com um sorriso discreto: “Até que foi boa a escolha de cada um.” Concordei. E pela primeira vez em muito tempo, tive a sensação exata de que tudo estava no lugar certo — ainda que o mundo lá fora dissesse o contrário.
Hoje fomos num museu com coisas bem velhas. Eu vi vasos que pareciam feitos pra suco da vovó. Tinha uma estátua que parecia Claire sentada com dois filhos. Fiquei em silêncio porque tudo lá parecia respirar muito devagar.
Depois, fomos em um palácio com uma escada que brilhava igual vidro molhado. Eu desenhei ela subindo até o céu e disse que era a escada pra visitar a Turquia dormindo.
No almoço, eu comi igual a Claire. Salada de pepino com iogurte e pãozinho quente. Jacques leu um jornal com cara séria. Falou de um problema num lugar que eu não conheço, mas não entendi direito. Ele disse que era triste porque as pessoas esquecem o que é ser humano. Eu desenhei um rei numa cama dourada com um vaso perto. Escrevi:
“Hoje eu vi o tempo dormindo dentro de um vaso.”
Depois jantamos todos igual. Foi divertido comer a mesma coisa. Pedi uma sobremesa com leite e pistache. Claire disse que eu tinha bom gosto. Fiquei feliz e com sono.
O céu de Istambul amanheceu num tom quase transparente. Às 06h30, Claire já estava de pé, organizando os cadernos de Larah, enrolando os desenhos em tubos de papel e separando as pequenas lembranças compradas durante a semana — um bracelete de prata, miniaturas de palácios, saquinhos de açafrão e figos secos cuidadosamente embalados.
Tomamos café às 07h30 no restaurante do hotel pela última vez. Larah, com olhos um pouco inchados de sono, pediu panquecas com mel e suco de maçã. Claire observava o jardim interno como se quisesse memorizar os contornos da fonte e a sombra das colunas. Eu pedi café turco e fiquei em silêncio, deixando o paladar gravar tudo que as palavras não alcançavam.
Às 09h00 em ponto, descemos com as malas prontas. O check-out foi rápido. O concierge agradeceu em francês e nos entregou uma pequena lembrança do Çırağan Palace: um envelope com cartões-postais e uma foto impressa de nossa chegada, tirada discretamente no primeiro dia. Claire se emocionou. “Como sabiam que seria especial?”
Halil nos aguardava do lado de fora com a van já carregada. Estava impecável, como sempre, com o broche dourado no colarinho e um sorriso sereno. “Último passeio: o coração de Istambul.” E seguimos rumo ao Palácio Topkapi, onde a história pulsa debaixo dos azulejos.
Chegamos por volta das 09h30. Claire caminhava lentamente pelos pátios como se ouvisse vozes. Parou diante de um vitral colorido e comentou: “O tempo aqui parece respirar... não corre, nem para. Só respira.” Larah corria de uma sala para outra com o caderninho na mão, parando sempre que via algo dourado. “Olha, Claire! Um anel de princesa!” Claire se abaixava, olhava com ela e respondia: “É, mas essa princesa devia ser bem corajosa.”
No Tesouro Imperial, Claire ficou fascinada com o manto de seda bordada do sultão Suleimã. “Imagine os corpos que vestiram isso. As decisões que ele tomou com isso nos ombros.” Eu tirei uma última foto com a câmera — Claire, Larah e Halil diante da fonte de mármore no Segundo Pátio, os três sorrindo como se o tempo tivesse congelado ali, justo naquele momento.
Por volta das 13h00, fomos almoçar no restaurante Matbah, perto da entrada do Topkapi, especializado em pratos históricos do Império Otomano. Claire escolheu karnıyarık (berinjela recheada com carne e ervas), eu aceitei a sugestão do chef e pedi yahni de cordeiro com canela e pimenta síria. Larah quis comer “o mesmo que Claire”. Halil riu: “Hoje vocês estão uníssonos.”
A sobremesa, claro, foi escolhida por Larah: sütlaç — um arroz doce gelado com raspas de limão e pistache triturado. Todos concordamos. Claire pegou a colher e disse: “Larah tem bom gosto para sobremesas.” E brindamos, com suco de romã.
Às 14h30, nos despedimos de Halil em frente ao restaurante. Ele nos entregou um envelope com um cartão:
“Para Larah, a princesa dos olhos azuis. Que sua história seja leve como o vento do Bósforo e firme como as pedras do Topkapi.”
Larah chorou baixinho. Claire o abraçou com força, e eu apenas disse: “Merci pour tout.”
O trajeto até o Aeroporto Internacional Atatürk foi tranquilo.
Chegamos às 15h30 para o voo das 17h00 rumo a Paris (CDG). O embarque foi calmo. Larah dormiu no meu colo durante o trajeto. Claire lia um livro sobre psicologia turca que comprara numa livraria em Kadıköy. Em Paris, a conexão foi rápida — pouco mais de uma hora. Pegamos o voo das 23h20 para o Rio de Janeiro (GIG). Onze horas de voo sobre o Atlântico, uma travessia silenciosa entre sonhos e lembranças.
Chegamos ao Brasil no dia 28, às 05h30 da manhã. O céu do Rio de Janeiro estava limpo, com um sol dourado que fazia brilhar o Pão de Açúcar ao longe. Após uma conexão rápida, embarcamos para Florianópolis às 08h00, chegando às 09h40.
No saguão do Aeroporto Hercílio Luz, quatro rostos conhecidos nos esperavam: Roberto, Helena, Pedro e Ana com sorrisos largos, segurando um cartaz improvisado com canetão: “Larah, nossa princesa turca!”
Larah correu até Helena, que a envolveu num abraço apertado e disse: “Minha pequena, trouxe perfume de palácio?”
Larah respondeu: Não mas trouxe um desenho do céu.”
Pedro e Jacques se abraçaram com tapas nas costas e risos de reencontro. Ana, sempre sensível, beijou Claire nas bochechas e disse: “Conta tudo, cada canto, cada cor.” Claire respondeu com um sorriso: “Preciso de mais de um almoço pra isso.”
Como já era quase meio-dia, fomos todos juntos almoçar no Cantinho da Ilha, um restaurante discreto próximo à Beira-Mar Norte. Pedimos peixe grelhado, arroz com brócolis, pirão e suco de maracujá. Larah sentou-se entre Roberto e Pedro, narrando suas aventuras como se contasse um conto de fadas com data e geografia.
Chegamos em casa por volta das 14h, com as malas cheias de memórias e pequenos tesouros de Istambul. Enquanto desfazíamos as bagagens, entregamos os presentes a Roberto, Helena, Pedro e Ana — saquinhos de açafrão, miniaturas de palácios e um bracelete de prata que Larah insistiu em dar a Helena. Larah, exausta, mal conseguiu abrir seu caderninho de desenhos; adormeceu no colo de Ana, com um sorriso tranquilo. Nossos amigos, percebendo nosso cansaço, se despediram cedo, antes das 21h. Às 21h30, estávamos todos na cama, envoltos pelo silêncio de Florianópolis, com o eco do Bósforo ainda nos sonhos.
Hoje foi o último dia na cidade mágica. Eu acordei com sono, mas tomei panqueca com mel. A Claire embrulhou meus desenhos num tubo e colocou as lembranças dentro da mala.
A gente se despediu do hotel que parecia castelo. O moço da porta deu um cartão e uma foto nossa. A Claire quase chorou. O Halil levou a gente para o palácio Topkapi. Vi um anel de princesa e perguntei se era de verdade. Claire disse que sim, mas que a princesa devia ser corajosa.
No almoço, comi igual à Claire de novo. E sobremesa igual a todo mundo. Sorri quando todos disseram que estava bom. O Halil deu um cartão pra mim com uma frase linda.
Eu chorei, mas foi choro bom. De coração cheio.
Depois fomos embora. Dormi no avião e sonhei com um tapete voador que me levava até as torres de Istambul. O céu era roxo e o mar brilhava como açúcar.
Quando chegamos no aeroporto, a vovó Helena me abraçou e perguntou se eu trouxe perfume do palácio. Eu disse: “Não, vovó... mas trouxe um desenho do céu.”
Já é quase meia-noite do dia 25 de maio de 2001. O silêncio na casa é o único luxo que me resta, interrompido apenas pelo coaxar distante dos sapos da Lagoa e pelo suave ruído do vento que vem do mar, trazendo um frio que não existia quando chegamos de Istambul, um mês atrás. Ou quase um mês. Mal consigo acreditar que se passaram vinte e sete dias desde que os pés de Larah pisaram novamente em solo brasileiro, e este diário permaneceu fechado. Vinte e sete dias que pareceram um turbilhão.
Desculpe-me, velho amigo de papel, por tamanha negligência. Mas o que se faz quando a vida decide nos atropelar com oportunidades e responsabilidades que roubam cada minuto, cada pensamento?
Carlos Mendes. Ah, Carlos Mendes. Aquele advogado com a lábia de um diplomata e a perspicácia de um falcão. Ele não perdeu tempo. Mal tínhamos desfeito as malas da Turquia, ele já estava à porta, com seu terno impecável e aquele sorriso calculado. Um almoço na sequência de jantares, um jantar na sequência de ligações. A proposta de sociedade para o escritório aqui em Florianópolis, expandindo a nossa atuação para o Sul, me engoliu por completo. Foi a desculpa perfeita, ou melhor, a necessidade imposta para que eu investisse em um telefone celular de verdade. Antes, meu velho Nokia 3210 (que eu teimei em manter por anos) bastava, mas com a demanda por agilidade, Carlos fez questão que eu tivesse um aparelho à altura de um advogado que agora comandaria uma filial. Por indicação dele, e depois de muita pesquisa, acabei comprando um Nokia 6210. É um aparelho robusto, um pouco maior do que os "flips" da moda que alguns colegas já exibem, mas com uma bateria que aguenta o tranco das minhas horas de conversa e uma recepção de sinal excelente, mesmo em alguns pontos mais afastados da ilha. As ligações, no entanto, ainda são uma facada – os minutos voando, parecem evaporar da conta. Mas a agilidade que ele me trouxe é inegável, para atender às chamadas urgentes de Carlos, vindo do Rio, ou dos clientes que já começam a aparecer.
Foram dias e noites debruçados sobre projeções, contratos, estratégias. O Nokia 6210 não parava de vibrar, a cada nova demanda, a cada nova ideia do Carlos. O escritório que era meu, agora se ramificava, ganhando uma dimensão que mal consigo absorver. É um desafio e tanto, confesso. A adrenalina tem sido minha companheira mais constante, e o café, meu combustível.
Enquanto eu mergulhava nesse novo oceano de trabalho, Claire, com sua habitual serenidade, reassumiu as rédeas da rotina de Larah. A pequena, mesmo com a cabeça ainda fervilhando de palácios, bazares e o brilho do Bósforo, voltou à sua rotina com uma naturalidade que me fascina. Às manhãs, o burburinho da Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi São Thiago, no bairro João Paulo, a recebia novamente. Helena, com seu olhar atento e sorriso acolhedor, nos garantiu que Larah não perdeu o ritmo. Pelo contrário. Ela volta para casa contando sobre os desenhos da aula, sobre os passarinhos que pousam na janela da sala e, às vezes, um ou outro gracejo com os colegas. Claire, sempre a mais conectada com o universo escolar da menina, diz que os professores a elogiam a cada semana. "É um prodígio, Jacques," ela me disse, enquanto eu tomava meu café apressado pela manhã. "Matemática, português, história... ela absorve tudo, questiona, e o francês dela... impecável. O português também, já com o sotaque daqui, com aquelas gírias que só se ouve por aqui, em Floripa."
As tardes de Larah também voltaram à sua cadência disciplinada. O cheiro de papel e lápis do Kumon se misturou ao ar da casa, e os murmúrios das aulas particulares de francês com a professora particular preenchem as horas. É impressionante vê-la tão focada. Às vezes, pego-a debruçada sobre os cadernos, os cabelos caindo sobre o rosto, e lembro de tudo o que ela já viveu em tão poucos anos. Essa garota tem uma força que me surpreende a cada dia.
Claire, por sua vez, encontrou um novo e absorvente fascínio. Lembro-me de quando ela participou daquele evento em Istambul, com um palestrante que falava sobre constelação familiar. Aquilo a fisgou de uma forma profunda. Ela tem passado horas com as revistas antigas da biblioteca particular do Roberto, folheando artigos sobre terapias sistêmicas e psicologia. A internet é uma aventura para os corajosos. O barulho estridente do modem discando (aquele som robótico e lento de um USRobotics, que parece um ET tentando se comunicar!) se tornou a trilha sonora das nossas noites, enquanto Claire esperava pacientemente as poucas páginas carregarem. Ela está procurando por cursos, por informações mais aprofundadas. A paixão dela por conhecimento, por entender o mundo invisível das relações humanas, é algo que eu sempre admirei. Em algumas noites, pego-a no sofá da sala, absorta na novela "Porto dos Milagres", dividindo a atenção entre o drama na TV e suas revistas de psicologia. Ouço a abertura, a música tema, e me pego cantarolando às vezes, mesmo sem entender a trama, enquanto Larah tenta entender por que a Nanda está tão brava.
Florianópolis, depois da agitação da Páscoa e do feriado de Tiradentes em abril, retomou seu ritmo mais tranquilo. O outono se aprofundou. O cheiro de maresia está mais pungente nas manhãs frias, misturado ao cheiro da terra molhada pela chuva da madrugada. As praias, antes fervilhantes de turistas, agora são dominadas pelos moradores locais e por alguns poucos surfistas mais corajosos. Os pescadores na Beira-Mar Norte estão mais visíveis, com suas tarrafas e baldes, aproveitando a temporada. No rádio, ouço as mesmas canções de Legião Urbana, "Ainda é Cedo", que me faz pensar nos meus próprios anos de juventude, e o Exaltasamba embalando as manhãs. Às vezes, um Jota Quest ou um Skank me pegam no trânsito, e de vez em quando, a voz poderosa de Ricky Martin ou as baladas de Celine Dion e Mariah Carey invadem as ondas, músicas que antes só ouvia na França, e que agora viraram a trilha sonora do nosso dia a dia por aqui. E claro, a alegria contagiante de Sandy & Junior não sai das rádios, especialmente quando Larah está por perto.
Tenho acompanhado as notícias, claro. O Diário Catarinense tem dado bastante destaque à crise econômica na Argentina, e Roberto, sempre bem informado, me explica os pormenores.
"A coisa tá feia lá, Jacques", ele começou um dia, enquanto eu tentava entender os números do câmbio na TV. "O Fernando de la Rúa está numa corda bamba, meu amigo. As ruas de Buenos Aires viraram palco de protestos, saques em supermercados... Estão chamando de 'corralito', o governo bloqueou os saques nos bancos para evitar a fuga de capitais. É uma medida desesperada, para segurar o dinheiro lá dentro. O peso da dívida é insustentável. A gente aqui respira aliviado por ter o real, mas o baque vai ser sentido, meu amigo. Nossos exportadores já estão preocupados."
A preocupação com a inflação e o desemprego é palpável nas conversas do mercado e nas filas do banco. No cenário internacional, os conflitos no Oriente Médio parecem nunca ter fim, um lembrete constante de que a paz é um privilégio frágil.
Pedro e Ana, por outro lado, parecem imunes a qualquer turbulência externa. O casamento deles virou assunto central. Ana já tem pastas e mais pastas de recortes da revista "Nova Noiva" – "Veja essa renda, Jacques!", "Esse modelo de bolo!" –, e Pedro, com aquele sorriso largo, já fala em escolher a banda e a bebida. A energia e a felicidade deles são contagiantes, um lembrete bem-vindo de que a vida também é feita de celebrações. Falando em celebração, outro dia, Pedro e eu estávamos assistindo a um jogo do Campeonato Catarinense. Ele, com aquela paixão cega pelo Corinthians, e eu, é claro, defendendo meu Flamengo do Rio. "Esse ano o Brasileirão é nosso, Jacques!", ele gritava, enquanto meu Flamengo lutava para se reerguer. Adoro essa rivalidade saudável. Já começo a imaginar a zoação no churrasco de domingo se o time dele perder pro meu.
Pedro e Ana, com aquela energia contagiante que só os apaixonados de verdade têm, acham que eu vou contratar uma daquelas bandas de forró universitário ou um grupo de pagode local para animar o casamento. Eles até me pediram sugestões de orçamentos, e eu, com um sorriso enigmático, disse para não se preocuparem, que a banda seria "surpresa" e por minha conta. Ah, Pedro nem sonha! Um bom amigo como ele, que esteve ao nosso lado em tantos momentos, merece uma surpresa à altura da alegria que ele e Ana me trazem.
Desde a volta de Istambul, e mesmo com a loucura da nova sociedade com Carlos Mendes, a ideia amadureceu na minha cabeça. Lembrei-me do fascínio de Pedro pelo rock brasileiro dos anos 80, e uma banda em particular sempre o fazia vibrar: o Ultraje a Rigor. Sim, aqueles mesmos do Roger Moreira, que, quase vinte anos depois de estourarem com hits como "Inútil" e "Nós Vamos Invadir Sua Praia", ainda têm uma energia de palco inconfundível. Era isso que eu queria trazer para celebrar Pedro.
Não foi fácil, confesso. Usei alguns dos meus contatos no Rio de Janeiro, pessoas que trabalham com produção de eventos grandes, e eles me colocaram em contato com a equipe que cuida da agenda da banda. Conversar com o empresário deles, um sujeito pragmático, mas com um bom humor contagioso, foi uma série de ligações e e-mails – daqueles que demoram uma eternidade para carregar na nossa internet discada, mas cada segundo valeu a pena. Depois de algumas propostas e contrapropostas, chegamos a um acordo. Enviei o depósito inicial através de uma transferência bancária (aquela burocracia de assinar mil papéis no banco) e recebi a confirmação. O contrato já está assinado, com a data do casamento, que Pedro e Ana ainda estão por anunciar oficialmente, mas que já está reservada na agenda deles para 2002. Imagine só a cena: Pedro, de terno, no meio da pista, quando Roger e sua turma – o Mingau na guitarra, o Bacalhau na bateria, o Rinaldo no baixo e o Marcos Kleine na guitarra solo – subirem ao palco. Vai ser inesquecível. Uma noite para marcar a vida deles e a nossa. Ele vai ter a noite mais inesquecível da vida dele."
No cinema, vi que o novo filme de animação, "Shrek", está fazendo um sucesso estrondoso. Larah ainda é pequena mas protemos que vamos levar ela para ver.
E então, hoje. O fim da tarde já trazia o tom azul-escuro de uma noite fria, e eu estava terminando de revisar os documentos da proposta de Carlos quando o carteiro tocou a campainha. Um envelope. Com um selo francês. As batidas do meu coração ganharam um ritmo diferente. O nome de Mei, em sua caligrafia delicada, preenchia o espaço do remetente. O arrepio que subiu pela espinha não era de frio. Abri com as mãos um tanto trêmulas, e as primeiras palavras me prenderam: "Nice, França... 28 de abril de 2001..."
Nice, França - 28 de abril de 2001
Caro Jacques,
Escrevo estas palavras sob a luz suave que entra pela janela do quarto, com o murmúrio do mar da Côte d’Azur ao fundo e o perfume de lavanda que paira no ar. Espero que você, Claire e nossa adorada Larah estejam bem, aproveitando a brisa quente de Florianópolis, com suas praias douradas e o horizonte que parece abraçar o céu. Não há ninguém em quem eu confie mais para compartilhar esta notícia, Jacques, porque sei que você, tão próximo de Larah, fará minhas palavras chegarem até ela com o carinho que ela merece. Imagino os olhos dela brilhando, aquele sorriso que ilumina tudo, quando souber que estou dando um grande passo rumo a um sonho que, por tanto tempo, parecia distante.
Hoje, meu coração está transbordando de alegria e gratidão. No início de abril, enquanto vocês estavam em Istambul, recebi a carta que mudou minha vida: fui aceita na Harvard Medical School. Ainda sinto um arrepio ao escrever essas palavras. Harvard. Um lugar que, para mim, sempre foi mais um ideal do que uma possibilidade concreta. Quando abri o envelope, com as mãos trêmulas e o silêncio da minha casa como única companhia, li as palavras que confirmavam que todo o esforço, cada noite sem dormir, cada momento de dúvida, valeu a pena. Quero contar a você como cheguei até aqui, Jacques, não apenas porque você faz parte da minha história, mas porque sei que você entenderá o peso desse momento e o levará até Larah com o mesmo amor que sinto por ela.
Quando deixei o Brasil em 2000, depois de anos cuidando de Larah e transformando a casa dos Yang em um lar para ela, senti que precisava buscar algo maior. Trabalhar como enfermeira em Nice foi uma escola de vida. Cada paciente que cuidei, cada família que consolei, me mostrou o quanto o sofrimento pode ser universal, especialmente entre as crianças. Em lugares marcados por conflitos, onde a dor parece engolir tudo, vi histórias que partiram meu coração. Crianças que perderam seus lares, suas vozes, seus sonhos. Como enfermeira, eu podia oferecer conforto, curar feridas, segurar uma mão trêmula. Mas sempre soube que podia fazer mais. Queria entender a ciência por trás da cura, tomar decisões que salvassem vidas, transformar o futuro de quem não tinha esperança.
Na França, eu tinha a chance de estudar medicina. Universidades como a Sorbonne ou a Université de Paris abririam suas portas para mim. Mas, Jacques, algo em mim pedia mais. Harvard Medical School não era apenas uma escola; era um símbolo de excelência, um lugar onde eu poderia me tornar a médica que sempre sonhei ser. Escolher esse caminho significava deixar tudo para trás — o conforto de Nice, a proximidade de Larah, a segurança de uma vida conhecida. Mas cada vez que pensava em recuar, via o rosto de uma criança, em algum canto do mundo, esperando por alguém que pudesse fazer a diferença. E eu sabia que precisava tentar.
O último ano foi uma maratona. Minha formação em biologia e enfermagem, concluída anos atrás na Université de Nice, me deu uma base sólida. Mas Harvard exigia mais. Passei meses revisitando química orgânica, física, bioquímica, mergulhando em livros tão pesados que pareciam carregar o peso do meu futuro. As noites eram longas, Jacques. Minha mesa, coberta de anotações, xícaras de café e papéis amassados, tornou-se meu campo de batalha. O MCAT, o exame de admissão para escolas de medicina americanas, foi o maior desafio. Estudei por meses, equilibrando turnos no hospital com horas de leitura e simulados. Quando recebi minha pontuação — 40, uma nota que ainda me parece um milagre —, senti um misto de alívio e incredulidade. Era como se o universo tivesse me dado um sinal de que eu estava no caminho certo.
Em outubro de 2000, submeti minha candidatura pelo AMCAS, o sistema que organiza as aplicações para escolas de medicina nos Estados Unidos. Escrever o ensaio pessoal foi como abrir meu coração. Falei das crianças que vi sofrerem em notícias de conflitos distantes, de como suas histórias me fizeram querer ser mais do que uma enfermeira. Organizei cada detalhe com cuidado: cartas de recomendação de colegas do hospital, que viram minha dedicação nos corredores lotados de Nice; históricos acadêmicos traduzidos e validados, um processo que testou minha paciência; o TOEFL, para provar que meu inglês estava à altura do desafio. Cada passo era um obstáculo, mas também uma promessa a mim mesma de que eu não desistiria.
No início deste ano, viajei para Boston para a entrevista na Harvard Medical School. Nunca vou esquecer o momento em que pisei no campus, Jacques. A Longwood Medical Area, com seus prédios imponentes e a energia pulsante de estudantes e médicos, parecia um mundo à parte. O frio cortante de Boston, o vapor saindo da minha boca enquanto caminhava, o nervosismo que fazia meu coração bater mais rápido — tudo isso ficou gravado em mim. Durante a entrevista, falei com paixão sobre por que queria ser médica, sobre como cada paciente que cuidei me ensinou algo sobre resiliência e esperança. Quando voltei para Nice, carregava uma mistura de ansiedade e fé.
Então, em abril, a carta chegou. Era um dia comum, com o sol brilhando no Mediterrâneo e o som das gaivotas lá fora. Abri o envelope com cuidado, como se fosse algo sagrado. As palavras “We are pleased to offer you admission” fizeram meu coração parar. Chorei, Jacques. Chorei de alívio, de alegria, de gratidão por todos que cruzaram meu caminho e me trouxeram até aqui. Saber que, enquanto Larah estava em Istambul, descobrindo o mundo com você e Claire, eu recebia essa notícia, pareceu um presente do destino. Era como se, mesmo tão longe, estivéssemos conectados.
Em agosto, me mudarei para Boston, onde ficarei no 107 Avenue Louis Pasteur, a poucos passos da Harvard Medical School. É um apartamento pequeno, mas confortável, perfeito para uma estudante que passará mais tempo entre livros e hospitais do que em casa. As aulas começam em setembro, e o curso será uma jornada intensa de quatro anos, até junho de 2005. Sei que exigirá todo o meu foco, cada gota da minha energia. Nos próximos anos, estarei imersa nesse novo mundo, aprendendo a ciência e a arte de salvar vidas. Isso significa que estarei menos acessível, mas meu coração nunca estará longe de vocês. Prometo escrever sempre que puder, compartilhando pedaços dessa jornada. Espero que vocês também escrevam para mim, Jacques. Saber de Larah, de como ela cresce, ri e sonha, será minha âncora. Enviem suas cartas para o endereço em Boston — mal posso esperar para abrir cada uma delas e sentir vocês mais perto.
Penso em Larah todos os dias. Na minha mente, vejo ela correndo pela praia de Jurerê, com os cabelos soltos ao vento, desenhando na areia ou inventando histórias que só uma criança de sete anos pode criar. Às vezes, fecho os olhos e ouço sua risada, aquele som que enche qualquer espaço de luz. Sei que você e Claire estão dando a ela um lar cheio de amor, e não há palavras para expressar minha gratidão por isso. Quando você contar a Larah sobre Harvard, sei que fará com carinho, talvez enquanto ela desenha ou toma um sorvete. Diga a ela que estou seguindo meu sonho, que penso nela a cada passo, e que um dia, quando essa jornada terminar, quero abraçá-la e ouvir todas as suas aventuras.
Nice tem sido meu refúgio, mas também um lembrete do que deixei para trás. Caminho pelas ruas de paralelepípedos, passo pelo mercado de flores na Cours Saleya, e cada esquina me faz pensar em Florianópolis — no calor, no som das ondas, na vida que Larah está construindo com vocês. Esta carta é mais do que uma notícia, Jacques. É um pedaço de mim, uma forma de dizer que, mesmo tão longe, vocês estão comigo. Escreverei sempre que o tempo permitir, e cada carta será uma ponte entre nós. Espero que Larah, com seus lápis de cor, escreva para mim também, nem que seja uma linha ou um desenho. Guardarei cada palavra como um tesouro.
Enquanto me preparo para essa nova fase, sinto uma mistura de excitação e saudade. Harvard é um sonho, mas Larah é meu coração. Você, Claire e ela são minha família, e saber que estão aí, construindo uma vida cheia de amor, me dá força para enfrentar o que vem pela frente. Escrevam para mim, Jacques. Contem-me sobre Larah, sobre Florianópolis, sobre os pequenos momentos que fazem a vida especial. E, quando o tempo permitir, nos encontraremos novamente — talvez com a brisa do mar ao fundo, como nos velhos tempos.
Com todo o meu carinho, Mei Yang
Hoje o dia não brilhou igual. Jacques leu uma carta. Uma carta da tia Mei. Eu lembro dela. Ela era assim, com um sorriso grande, e me abraçava apertado.
Jacques leu a carta e a Claire ficou quietinha. Eu também fiquei quietinha. A carta falou um nome estranho, de uma escola. Jacques disse que ela vai estudar lá, e que é muito, muito longe. Muito longe mesmo. Longe do Brasil, longe da França, longe de tudo.
Ele disse que ela vai ficar lá por quatro anos. É muito tempo. É tempo demais para um abraço.
ela disse que pensa em mim. E que quer me abraçar quando essa jornada terminar. Mas quando vai terminar? Meu coração ficou meio gelado, igual quando o vento traz o frio do mar. Não é um choro bom, não.
Eu queria que ela viesse me visitar no meu tapete voador. Mas ela vai ficar lá. Estudar. Um lugar muito importante pra ela ter que ficar tanto tempo assim.
Claire me abraçou e disse que a gente vai escrever para ela. E eu posso fazer desenhos. Vou desenhar o céu pra ela.
🖋️ Por Marie Laurent
📸 Fotos: Ellen von Unwerth
A Garota do Croissant
Sophie Dubois, 17 anos, é a nova promessa da moda francesa — e ela só queria um café com manteiga.
Paris, novembro. As folhas caem nas calçadas da Rue de Rivoli, e uma nova estrela começa a despontar no cenário da moda francesa. Seu nome é Sophie Dubois, tem 17 anos, olhos de um azul límpido como o céu de outono e um jeito ainda meio tímido de lidar com tudo que está acontecendo. Seu primeiro grande trabalho? A nova campanha da Guess Jeans, fotografada pela irreverente Ellen von Unwerth.
Mas o que torna essa história especial não é o editorial – e sim como tudo começou. Sophie não buscava fama. Queria apenas um croissant.
“Entrei numa boulangerie depois da aula. Era um sábado nublado, e eu só queria meu croissant com manteiga e um café quente. Foi quando um homem me abordou e perguntou: ‘Você já pensou em ser modelo?’”, conta, sorrindo, ainda surpresa com a lembrança. O homem era um olheiro da Elite Model Management, e aquela pergunta mudou sua vida.
“Pensei que fosse brincadeira,” diz Sophie. “Mostrei o cartão para minha mãe, que achou tudo estranho. Mas fomos conferir e era real.”
Algumas semanas depois, estava diante das câmeras para um editorial da ELLE Jeune, ainda insegura sobre o que fazer com as mãos. “Na primeira sessão, pisquei em quase todas as fotos. O fotógrafo só dizia: ‘Fica parada, não respira tanto’.”
Entre os holofotes e os cadernos
Até pouco tempo atrás, Sophie era mais conhecida por devorar livros do que por posar para câmeras. Aluna do Liceu Charlemagne, apaixonada por literatura, carregava Rimbaud e Camus na mochila e sonhava talvez em cursar Filosofia ou Arquitetura. “Achava o mundo da moda fútil. Não fazia ideia do quanto ele exige da gente,” confessa.
Seu primeiro desfile foi, nas palavras dela, “um desastre controlado”. “Andei rápido demais, tropecei na barra. A maquiadora me deu um grampo e disse: ‘Anda como se estivesse escutando música’. Ainda bem que não tinha muita gente olhando.”
Agora, com a campanha da Guess estampando vitrines e revistas, Sophie começa a entender o que é estar sob os holofotes.
Apesar da timidez, seu olhar se ilumina ao falar da fotógrafa Ellen von Unwerth. “Ela é maluca, divertida. Me fez dançar, pular, fingir que estava num videoclipe dos anos 80. De repente, me vi. Gostei do que vi.”
A vida ainda é normal (quase)
Nos bastidores, Sophie é uma adolescente comum: tem espinhas, não sabe fazer delineador direito, e guarda um medo genuíno de errar. “Ainda não entendi como posar sem parecer brava. Tento pensar em algo bom. Tipo... praia. Ou meu irmão.”
Jacques Dubois, seu irmão, é uma presença constante. “Ele é meu melhor amigo. Disse que se alguém me tratasse mal, era para ligar para ele.”
O apoio dos pais foi crucial, ainda que misturado com dúvidas. “Meu pai dizia que isso era uma fase. Minha mãe começou a guardar recortes das minhas fotos. Agora até quer me ensinar a andar de salto.”
Com contrato inicial com a Elite, Sophie sonha alto: viajar, aprender idiomas, desfilar em Milão, talvez posar para a Chanel. Mas ainda se encanta com os pequenos detalhes: o cheiro da maquiagem, o silêncio antes do clique, o flash iluminando o rosto. “Quero entender esse mundo antes de dizer que pertenço a ele,” diz, com maturidade além da idade.
“Se um dia eu sair na capa da ELLE, vou guardar a revista para sempre. É meu maior sonho.”
Ficha Técnica – Sophie Dubois
📍 Nascida: Paris, França
🎂 Idade: 17 anos
📏 Altura: 1,75 m
👁️ Olhos: Azul
💇 Cabelos: Loiro claro
📚 Hobbies: Leitura, café com leite, desenhar vestidos
🌍 Idiomas: Francês (nativo), Inglês (básico)
🏡 Bairro: Le Marais
👗 Primeiros trabalhos: ELLE Jeune, Jalouse
👜 Descoberta: Rua de Rivoli, setembro de 1992
🖋️ Par Camille Moreau
📸 Photos : Mario Sorrenti
L’Étoile qui s’affirme
Paris, février. O inverno espalha uma névoa fria sobre os telhados, mas dentro do estúdio da Vogue Paris, o clima é quente — não só pelas luzes e equipamentos, mas pela presença confiante de Sophie Dubois. Agora com 19 anos, a jovem modelo que conquistou as passarelas e capas das grandes maisons parece pronta para assumir seu lugar entre as estrelas da moda francesa.
Após trabalhos marcantes para Versace e Saint Laurent, Sophie pausa para refletir. “Ainda sinto que estou sonhando,” confessa, ajeitando o colarinho de um casaco assinado por Lagerfeld. Seu olhar é intenso, misturando a serenidade de quem cresceu rápido com a curiosidade de quem ainda descobre o próprio caminho.
Ela relembra sua descoberta em 1992 e a campanha que a lançou à fama, para a Guess em 1993. Mas é a viagem ao Brasil, no ano passado, que ocupa um lugar especial em suas memórias. “A energia daquele lugar me marcou de um jeito que eu não esperava,” diz, pensativa.
A bordo dessa experiência, Sophie viu de perto um universo novo, distante das ruas parisienses. “Foi diferente. A luz, as pessoas, a música... tudo tinha uma vibração que me inspirou.”
Pergunto sobre seus planos para o futuro, e a resposta revela uma mulher que ainda preserva laços afetivos, mas que caminha em busca da própria identidade. Fala do irmão Jacques, que vive no Brasil, e do apoio que sempre recebeu dele durante a jornada. “Jacques é meu porto seguro. Sempre soube que podia contar com ele, mesmo à distância.”
A sessão de fotos se desenrola enquanto Sophie revela seu lado mais decidido e elegante. Seu andar, ensinado por Jean-Paul Gaultier, é uma mistura de força e leveza — como se cada passo fosse uma declaração de quem ela quer ser.
Naquele estúdio frio de Paris, entre flashes e tecidos, Sophie Dubois não é mais apenas uma promessa. É uma estrela em ascensão, pronta para traçar seu próprio caminho.
Ficha Technique – Sophie Dubois
📍 Née : Paris, France
🎂 Âge : 19 ans
📏 Taille : 1,75 m
👁️ Yeux : Bleus
💇 Cheveux : Blond clair
📚 Passions : Lecture, voyages, danse
🌍 Langues : Français (natif), Anglais (intermédiaire)
🏡 Quartier : Le Marais
👗 Travaux récents : Versace, Saint Laurent, Guess, Vogue Brasil (1994)
👜 Découverte : Rue de Rivoli, septembre 1992
🖋️ Di Giovanni Rossi
📸 Foto: Steven Meisel
Il Brillio che Definisce un’Epoca
Milão, março. A primavera traz luz e renovação à cidade da moda, e o estúdio da Vogue Italia está vibrante com a energia das coleções que marcarão a temporada. Sophie Dubois, agora com 20 anos, exibe uma maturidade e segurança que só o tempo e a experiência proporcionam.
Entre desfiles para Prada e Versace, Sophie compartilha memórias do retiro em Saint-Tropez, organizado pela Elite Model Management. “Carla Bruni me ensinou um truque de sombra, e Noémie Lenoir me contou sobre os segredos da L'Oréal”, ri, descrevendo a atmosfera de amizade e aprendizado entre as modelos. O agente buscava criar sinergias para uma campanha importante, e as conversas fluíram naturalmente.
Quando pergunto sobre suas fontes de inspiração, ela cita a viagem ao Brasil em 1994. “Aquela experiência me marcou profundamente. Quero voltar para lá um dia”, responde, com um sorriso tímido e olhar distante, como quem guarda um desejo ainda não realizado.
A família surge nas palavras de Sophie, com o irmão Jacques sendo presença constante em seus pensamentos. “Jacques sempre foi meu apoio, mesmo de longe. Sonho em compartilhar esse mundo com ele”, confessa.
Nas fotos da sessão, seu andar domina a cena com a elegância e o toque inconfundível de Jean-Paul Gaultier — uma combinação de força e leveza que define seu estilo único.
Em Milão, Sophie não é apenas uma modelo em ascensão; é uma jovem mulher que está construindo seu próprio caminho, brilhando em meio à efervescência da moda internacional.
Scheda Tecnica – Sophie Dubois
📍 Nata: Parigi, Francia
🎂 Età: 20 anni
📏 Altezza: 1,75 m
👁️ Occhi: Blu
💇 Capelli: Biondo chiaro
📚 Passioni: Lettura, viaggi, danza
🌍 Lingue: Francese (madrelingua), Inglese (intermedio)
🏡 Quartiere: Le Marais
👗 Lavori recenti: Prada, Versace, Vogue Italia
👜 Scoperta: Rue de Rivoli, settembre 1992.
🖋️ By Charlotte Evans
📸 Photos: David Bailey
Sophie Dubois: From Runway to the World
London, June. Fresh off the recent Sports Illustrated campaign, Sophie Dubois, 21, arrives at the Harper’s Bazaar UK studio radiating a quiet confidence that has grown with each passing season.
We discuss her recent shoot in the Seychelles — a striking contrast of turquoise seas and golden sands — and the whirlwind of fashion weeks where she has walked for Valentino and other top designers. “It was exhausting, but liberating,” she says, flipping through the vibrant shots from the session, a faint smile tugging at her lips.
When I ask about balance, Sophie’s expression softens. She reflects on the pressures fame brings. “Sometimes, I think about Jacques,” she admits quietly, “My brother. It’s been a while since we’ve seen each other.”
Though the pace never seems to slow — with new contracts, including a major one with L’Oréal, demanding her attention — there is a palpable yearning for moments of calm amid the chaos. The interview concludes with Sophie requesting a cup of tea, a rare and welcome pause in an otherwise relentless schedule.
Technical Details – Sophie Dubois
📍 Born: Paris, France
🎂 Age: 21
📏 Height: 1.75 m
👁️ Eyes: Blue
💇 Hair: Light blonde
📚 Interests: Reading, travel, dance
🌍 Languages: French (native), English (advanced)
🏡 Neighborhood: Le Marais
👗 Recent Work: Sports Illustrated, Valentino, L’Oréal
👜 Discovered: Rue de Rivoli, September 1992.
🖋️ Von Katrin Schmidt
📸 Fotos: Peter Lindbergh
Die Botschafterin der französischen Schönheit
A Embaixadora da Beleza Francesa
Berlim, setembro. O céu acinzentado do outono alemão parece se abrir no estúdio da Vogue Germany, onde Sophie Dubois, agora com 22 anos, irradia luz e sofisticação. Recém-nomeada embaixadora global da L'Oréal Paris, ela surge com a segurança de quem conhece bem as câmeras — e o próprio rosto.
“É um orgulho representar uma marca tão icônica”, afirma, girando nas mãos o novo batom Rouge Liberté, da campanha que acaba de ser lançada em toda a Europa. O rosto de Sophie está em vitrines, revistas e telões, associado à elegância e à confiança que a L’Oréal deseja transmitir.
Entre um clique e outro da sessão — focada inteiramente em close-ups, para ressaltar sua pele luminosa — ela conta sobre sua temporada nos desfiles de Givenchy e sobre uma participação recente em um curta-metragem dirigido por Jean-Pierre Jeunet. “Foi um desafio diferente. Cinema exige outro ritmo. Mas eu gostei do silêncio entre as falas — é parecido com o instante antes do flash.”
Ao mencionar a família, Sophie hesita. O olhar perde o foco por um segundo, antes de retomar a compostura. “Jacques está no Brasil, seguimos nos falando. Às vezes, me pego com saudade. Ele sempre acreditou em mim, mesmo quando eu mesma duvidava.”
O ensaio segue sem pressa, centrado na linguagem do olhar. Cada imagem parece condensar os seis anos de carreira que já distanciam Sophie daquela menina tímida da Rue de Rivoli. Ela ainda carrega a mesma leveza, mas agora misturada com um domínio absoluto do seu espaço.
Ela não apenas representa a beleza francesa — ela a redefine.
Technische Daten – Sophie Dubois
📍 Geboren: Paris, Frankreich
🎂 Alter: 22 Jahre
📏 Größe: 1,75 m
👁️ Augenfarbe: Blau
💇 Haarfarbe: Hellblond
📚 Interessen: Literatur, Film, Tanz
🌍 Sprachen: Französisch (Muttersprache), Englisch (fortgeschritten)
🏡 Stadtviertel: Le Marais
👗 Aktuelle Arbeiten: L’Oréal Paris, Givenchy, Kurzfilm com Jean-Pierre Jeunet
👜 Entdeckt: Rue de Rivoli, September 1992.
🖋️ By James Carter
📸 Photos: Sølve Sundsbø
Sophie Dubois: Beyond Fashion
New York, October. The city hums with the usual velocity of fall fashion, but inside a converted warehouse in Tribeca, the energy shifts. Sophie Dubois, 24, leans into the lens with poised serenity. She has just returned from the UNESCO Women in Arts Forum, where she spoke — unexpectedly — not about beauty, but about belonging.
“I want to use fashion for something bigger,” she says without theatricality, but with purpose. There’s no PR handler prompting her, no script. Sophie is at a turning point — and she knows it.
She still models — selectively. Her last major runway appearance was for Dior’s autumn collection, and her face continues to front L’Oréal campaigns across Europe. “But now, I choose. I need the work to reflect something more.”
We talk about heritage. It’s here the softness enters her voice. “Jacques and Larah... they’re my compass,” she says quietly. “Even when we’re far apart, I think of them. They remind me of who I was — and who I might still become.”
Larah. The name lingers. A child, just entering the world, while Sophie herself redefines o seu.
Our conversation veers toward art — her current passion. She mentions Camille Claudel, Vuillard, and a recent fascination with Cy Twombly. “I used to study brush strokes like I studied poses,” she smiles. “Now I just let them move me.”
The photo session is surreal — metallic fabrics, minimalist backdrops, dreamlike lighting. It’s Sophie reimagined, no longer the ingénue of Parisian runways, but a woman chasing authenticity in a world built on illusion.
She’s no longer just wearing beauty. She’s becoming it — on her own terms.
Profile – Sophie Dubois
📍 Born: Paris, France
🎂 Age: 24
📏 Height: 1.75 m
👁️ Eyes: Blue
💇 Hair: Light blonde
📚 Interests: Art history, humanitarian causes, cinema
🌍 Languages: French (native), English (fluent), some Italian
🏡 Base: Paris & occasional stays in New York
👗 Recent Work: L’Oréal, Dior, UNESCO Forum
👜 Discovered: Rue de Rivoli, September 1992.
🖋️ Par Marie Laurent
📸 Photos: Paolo Roversi
Dix Ans de Sophie : Un Retour aux Racines
Dez Anos de Sophie: Um Retorno às Raízes
Paris celebra 50 anos de ELLE, mas quem brilha em Milão é ela — Sophie Dubois. Aos 25 anos, a musa da L’Oréal e símbolo da beleza francesa encara a entrevista com o mesmo ar curioso de uma década atrás. “Parece ontem que eu entrei na boulangerie atrás de um croissant,” ri, com aquele sorriso discreto que nunca deixou de ser sua marca.
A conversa se desenrola no terraço de um hotel em Brera, entre cappuccinos e folhas de contrato. Sophie acabara de assinar a nova campanha internacional da L’Oréal — o maior contrato de sua carreira até então. Mas seu foco não está apenas nos números. Está na memória.
“Dez anos passam num piscar de olhos. Tanta coisa aconteceu... e, ao mesmo tempo, sinto que só agora entendi o que é estar nesse mundo,” reflete. A fala é serena, sem amargura, mas com nitidez. Sophie não quer apenas desfilar — quer deixar algo que permaneça.
Ao falar de futuro, ela menciona uma carta que está escrevendo ao irmão, Jacques, no Brasil. “Quero muito reencontrá-los em São Paulo. Tenho pensado no SPFW 2002... quem sabe não seja a desculpa perfeita?”
A citação vem com brilho nos olhos. Jacques e Larah — nomes que ela agora carrega como bússola. “Meu legado? Acho que tem a ver com isso... com vínculos. Conexões reais. Família.”
A sessão de fotos é simples: tecidos fluidos, luz natural, olhar direto. Não há artifício — só Sophie, presente, centrada.
Quando o último clique ecoa no estúdio, ela pega a caneta. Assina o contrato da próxima campanha com um traço firme, quase cerimonial.
Dez anos depois de ser descoberta por acaso, Sophie Dubois retorna às raízes — não apenas as suas, mas ao que verdadeiramente importa.
Fiche d’identité – Sophie Dubois
📍 Née : Paris, France
🎂 Âge : 25 ans
📏 Taille : 1,75 m
👁️ Yeux : Bleus
💇 Cheveux : Blond clair
📚 Intérêts : Photographie, correspondência, voyages
🌍 Langues : Français (natif), Anglais (courant), Italien (conversationnel)
🏡 Base : Paris, séjours fréquents à Milan et New York
👗 Travaux récents : L’Oréal (campagne 2001–2003), Dior, Elle 50 ans
👜 Découverte : Rue de Rivoli, septembre 1992.
Diário de Jacques Dubois – Parte 18 – O Peso da Carta
20 de outubro de 2001. O crepúsculo se arrasta sobre Florianópolis, o céu tingido de um roxo suave que se mistura ao cheiro de maresia vindo da Beira-Mar Norte. O coaxar dos sapos na Lagoa da Conceição se mistura ao som distante de um rádio tocando “Ainda é Cedo” da Legião Urbana, uma melodia que me pega desprevenido enquanto estou aqui, sentado à mesa da sala, o caderno aberto e a caneta hesitando sobre o papel. Faz quase seis meses desde meu último registro, e o diário, meu velho companheiro de confidências, ficou mudo por conta do turbilhão que tomou minha vida. Vinte e sete dias após nossa volta de Istambul, em maio, e agora, aqui estamos, com o outono já firme nas ruas, as folhas das árvores caindo como um suspiro silencioso. Hoje, porém, algo mudou. Um envelope com o selo italiano repousa ao meu lado, e as palavras de Sophie, escritas em sua caligrafia elegante, ainda dançam em minha mente. Preciso organizar esses meses antes que a emoção me leve a outro lugar.
O escritório em Florianópolis tem sido uma montanha-russa de sucesso e exaustão. Desde que Carlos Mendes apareceu com sua proposta de sociedade, mal tenho tido tempo para respirar. A filial sulina da nossa firma decolou mais rápido do que eu imaginava. Contratamos três novos advogados, um estagiário e uma secretária que organiza o caos com a precisão de um maestro. O Nokia 6210, que substituiu meu velho 3210, tornou-se uma extensão do meu corpo — as vibrações constantes me chamando para reuniões, revisões de contratos e, mais recentemente, um caso que me colocou no centro das atenções. Foi uma briga judicial contra o governo estadual, uma indenização por negligência médica em um hospital público de Joinville. Um homem, pai de três filhos, sofreu uma infecção grave devido a um erro cirúrgico em 1999, e o Estado se recusou a arcar com os custos do tratamento prolongado. O caso era um emaranhado de burocracia, com documentos perdidos e testemunhas intimidadas. Carlos e eu trabalhamos incansavelmente — noites revisando laudos, dias em audiências com juízes de olhar cansado. Apresentei um argumento baseado em precedentes internacionais, algo que até o juiz pareceu admirar. No fim de setembro, ganhei a causa. A indenização de 150 mil reais foi aprovada, e o homem chorou ao me abraçar no corredor do fórum. “Só um bom advogado faria isso”, disse ele, os olhos úmidos. Carlos deu um tapa nas minhas costas, rindo: “Você é o ás que eu precisava, Jacques!” O caso correu nos jornais locais, e o escritório ganhou um brilho novo. Mas o trabalho não para — já temos outro processo, dessa vez envolvendo uma disputa de terras em Laguna, e Carlos insiste que vamos brilhar novamente.
Claire, por sua vez, tem brilhado em outro palco. Desde nossa volta, ela mergulhou de cabeça na psicologia, transformando-se em uma profissional de sucesso. O seminário de Bert Hellinger em Istambul acendeu uma chama que não se apaga. Ela começou a oferecer consultas particulares, usando técnicas de constelação familiar, e a demanda explodiu. Mulheres e casais de Florianópolis a procuram, atraídos por sua abordagem sensível e profunda. Recentemente, foi aceita em um mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina, um curso de atualização em terapias sistêmicas. As noites são marcadas pelo som do modem discando, conectando-a a artigos e fóruns online. “Jacques, olha isso”, diz ela, mostrando uma tela com letras pixeladas sobre trauma intergeracional. “É como se Istambul tivesse me dado um mapa.” Ela passa os dias entre pacientes e aulas, e eu a vejo crescer, orgulhoso, enquanto equilibra tudo com a serenidade de sempre.
Larah, nossa luz, está florescendo na escola. A Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi São Thiago a acolheu de volta como se ela nunca tivesse saído. Helena, a coordenadora e mãe de Claire, me conta que ela é uma das melhores alunas — matemática, português e francês fluem como se fossem brincadeira. “Ela tem um brilho especial”, diz Helena, ajustando os óculos enquanto folheia os cadernos da menina. Às tardes, as aulas particulares de Kumon e francês preenchem sua rotina, e eu a pego às vezes desenhando no quintal, os cabelos caindo sobre o rosto enquanto cria mundos no papel. “Jacques, olha o palácio que fiz pra vovó Helena”, diz, mostrando uma torre de lápis de cor. Ela carrega Istambul no peito, e seus olhos azuis ainda brilham com a memória da “princesa dos olhos azuis”.
Os preparativos do casamento de Pedro e Ana estão a todo vapor. Ana vive cercada de recortes da Nova Noiva — rendas, bolos, arranjos florais. “Jacques, o que acha desse vestido?”, pergunta, mostrando uma foto de tule e pérolas. Pedro, com seu sorriso largo, fala em bandas e bebidas, e eu guardo meu segredo: o Ultraje a Rigor está contratado para animar a festa, programada para 27 de outubro de 2002. “Vai ser uma surpresa que vai explodir a pista”, digo, piscando para ele. Ana e Pedro riem, planejando cada detalhe, e a energia deles aquece a casa. Outro dia, assistimos a um jogo do Campeonato Catarinense juntos — ele torcendo pelo Corinthians, eu pelo Flamengo. “Esse ano é nosso, Jacques!”, gritou ele, enquanto meu time lutava. A rivalidade é um ritual que nos une.
Hoje, enquanto o sol se punha, sentei com Roberto na varanda para tomar um mate. A conversa fluiu. “A coisa tá pegando fogo lá fora, Jacques”, começou ele, coçando a barba grisalha. “Nos EUA, depois do 11 de setembro, o mundo virou de cabeça pra baixo. Os ataques às Torres Gêmeas mataram quase três mil pessoas, e o Bush declarou guerra ao terrorismo. Aqui no Brasil, o Lula tá subindo nas pesquisas pro ano que vem, e o Fernando Henrique tá tentando segurar a economia com unhas e dentes. A Argentina tá um caos com o ‘corralito’ — saques em Buenos Aires, o peso desabando. Nosso real tá firme, mas os exportadores daqui sentem o baque.” Ele pausou, soprando o mate. “E tu, viu as notícias locais? O governo estadual tá enrolado com essa história de privatização da Celesc.” Troquei experiências, contando do caso em Joinville. “Foi uma vitória dura, Roberto. O Estado resistiu, mas a justiça prevaleceu.” Ele assentiu, orgulhoso. “Tu é um batalhador, meu amigo.”
Helena e Claire têm trocado experiências quase diariamente. Helena, com sua sabedoria de anos na educação, ensina Claire técnicas de mediação com crianças, enquanto Claire traz ideias de constelação familiar para as conversas. “Helena, olha como isso pode ajudar uma mãe a entender o filho”, diz Claire, mostrando um diagrama. Helena ri, ajustando os óculos. “Tu traz o mundo pra cá, filha.” É um diálogo que fortalece as duas, uma ponte entre gerações.
Ana e Larah têm se aproximado cada vez mais. Ana leva Larah para passeios na Beira-Mar, comprando conchas ou picolés.“Ana, olha o desenho que fiz pra você!”, diz, entregando um rabisco de flores. Ana a abraça, emocionada, e o laço cresce a cada encontro.
E então, o momento que parou o dia. Às 17:30, o carteiro tocou a campainha. Um envelope com selo italiano, vindo de Milão. Abri com as mãos trêmulas, o coração acelerado. A caligrafia de Sophie, “Milão, 21 de setembro de 2001”, me puxou para memórias de infância. As primeiras linhas dizem: “Meu querido Jacques, estou indo para o Brasil! A L’Oréal me escolheu para uma campanha com Reinaldo Lourenço na São Paulo Fashion Week, e quero te rever.” O convite para 16 de junho de 2002, com a promessa de Florianópolis depois, me deixou sem ar. O resto está guardado para amanhã, quando lerei com Claire. Por agora, o diário guarda este instante, o eco de Milão e a espera pelo reencontro que se aproxima em oito meses.
Milão, 21 de setembro de 2001
Meu querido Jacques,
Escrevo de Milão, entre fittings para a nova coleção de alta costura e o caos que antecede os desfiles. As luzes aqui são intensas, mas a energia me mantém viva, como sempre. E é nesse turbilhão que recebi uma notícia que faz meu coração disparar – uma que precisava compartilhar contigo primeiro, meu irmão.
Estou indo para o Brasil!
A L'Oréal Paris, onde sou embaixadora, fechou uma parceria especial com Reinaldo Lourenço para a São Paulo Fashion Week, edição de Inverno 2002, no último dia, 16 de junho. Eles me escolheram para abrir e fechar o desfile, trazendo a campanha global para a passarela brasileira. Noémie Lenoir, minha amiga desde Saint-Tropez, também foi cedida e estará comigo. Será uma dupla francesa marcando presença, e estou vibrando com a ideia!
Mas o que realmente me emociona é te rever e conhecer Larah. Penso nela sempre, especialmente naquela foto que Claire enviou, com ela brincando na praia, o sorriso iluminando tudo. Aquela energia me lembra o Brasil de 1994, quando estive aí para um editorial. Por isso, após o desfile, consegui uns dias de folga. Quero ir a Florianópolis! Sol, mar e, acima de tudo, vocês.
Meu convite é simples: venham a São Paulo no dia 16 de junho para o desfile de Reinaldo Lourenço. Sei que a viagem e as aulas de Larah são um desafio, mas imagine o reencontro! Depois, voltaremos juntos para Floripa, para aproveitar a ilha. Prepare a casa, a brisa do mar e aquela caipirinha que você sempre promete!
Mal posso esperar por um abraço de verdade.
Com todo meu amor e saudade,
Sophie
15 de abril de 2002. O sol da manhã banha a sala de estar em Florianópolis, os raios dourados dançando sobre o assoalho de madeira enquanto o som das ondas da Beira-Mar Norte chega abafado pela janela entreaberta. O perfume das flores do jardim mistura-se ao aroma de café fresco que Claire preparou, um ritual que me ancora em dias como este. Hoje é especial, uma confluência de destinos: Larah completa 8 anos, e Claire e eu celebramos 8 anos de casamento. É uma coincidência que parece tecida pelo tempo, como se o universo quisesse nos lembrar do que realmente importa. O trabalho tem sido um redemoinho, mas hoje escolhi uma comemoração íntima — apenas nós, Larah, os pais de Claire, Pedro e Ana, reunidos na simplicidade da nossa casa. A memória de Istambul ainda pulsa em mim, e sinto que precisamos dessa pausa para resgatar um pouco daquela magia.
O escritório continua sendo um vulcão em erupção. Desde a vitória em Joinville, em setembro passado, a filial sulina cresceu além do que eu imaginava. Agora temos cinco advogados, dois estagiários e uma secretária que organiza o caos com a precisão de um maestro. Meu Nokia 6210 vibra incessantemente — chamadas para reuniões, revisões de contratos e um novo caso, uma disputa de terras em Laguna que promete ser tão complexa quanto a anterior. Carlos Mendes, meu sócio, me chama de “mestre das causas impossíveis”, rindo enquanto planeja nossa próxima estratégia. O caso de Joinville, uma indenização por negligência médica, ainda ecoa nos jornais locais, e o cliente, um pai de três filhos, me agradeceu com lágrimas nos olhos. Mas o ritmo é exaustivo, e as noites revisando laudos me deixam com os olhos ardendo. Ainda assim, cada vitória me lembra por que escolhi o Direito.
Claire, por sua vez, está em plena ascensão. Seu mestrado na UFSC, focado em terapias sistêmicas, a consome, mas ela brilha. As consultas de constelação familiar, inspiradas pelo seminário de Bert Hellinger em Istambul, atraem cada vez mais clientes — mulheres, casais, até famílias inteiras buscando compreender seus laços. “Jacques, olha essa teoria sobre repetições familiares”, diz ela, apontando para um artigo na tela do computador, o modem zumbindo ao fundo. Ela equilibra pacientes, estudos e nossa rotina com uma serenidade que me enche de orgulho. Às vezes, vejo nela a mesma determinação que me levou a Istambul, como se estivéssemos traçando mapas paralelos.
Larah, nossa luz, cresce como uma flor sob o sol da ilha. Na Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi São Thiago, ela é uma das melhores alunas, com notas altas em matemática, português e francês. Helena, a mãe de Claire e coordenadora da escola, sorri ao mostrar seus cadernos. “Essa menina tem um brilho único”, diz, ajustando os óculos. Às tardes, Larah mergulha nas aulas de Kumon e francês, mas é nos momentos em que a encontro desenhando no quintal, os cabelos caindo sobre o rosto, que vejo sua alma. “fiz um palácio pra Ana!”, exclama, mostrando um desenho de torres coloridas. Seus olhos azuis ainda carregam o apelido de “princesa” que ganhou em Istambul, e eu sei que ela nunca esquecerá aquela viagem.
Os preparativos do casamento de Pedro e Ana ganharam força. Eles decidiram marcar a cerimônia para outubro, na primavera, em uma pousada charmosa em Jurerê Internacional. Ana está imersa em recortes da Nova Noiva, escolhendo rendas e flores, enquanto Pedro planeja as bebidas e a música. Eles formam um casal que irradia energia, e a casa se enche de vida quando nos visitam. Outro dia, assistimos a um jogo do Campeonato Catarinense — eu pelo Flamengo, ele pelo Corinthians. “Esse ano é nosso!”, gritou ele, enquanto meu time lutava. Essa rivalidade é um laço que nos une.
Hoje, sentei com Roberto na varanda para um mate, e a conversa fluiu para o que mudou desde outubro passado. “O mundo tá tentando se recompor, Jacques”, começou ele, coçando a barba grisalha. “Os EUA estão no Afeganistão, e a tensão não diminui. Aqui, a campanha presidencial tá pegando fogo — Lula tá na frente, e o povo acredita que ele pode mudar as coisas em outubro. A economia global patina, mas Santa Catarina cresce com o turismo e as exportações. Florianópolis tá cheia de gringos, e a Beira-Mar nunca esteve tão movimentada.” Ele pausou, soprando o mate. “Mas a energia da Celesc tá cara desde a privatização, o pessoal reclama.” Contei sobre o caso de Laguna, e ele sorriu. “Tu é um batalhador, meu amigo.” O mundo pode estar pesado, mas a ilha mantém seu ritmo.
Helena e Claire continuam trocando ideias quase diariamente. Helena, com sua experiência na educação, ensina Claire a mediar conflitos infantis, enquanto Claire apresenta diagramas de constelação familiar. “Isso pode ajudar uma mãe a entender o filho”, diz Claire, entusiasmada. Helena ri, ajustando os óculos. “Tu traz o mundo pra cá, filha.” É uma ponte entre gerações que aquece o coração. Ana e Larah também se aproximaram mais, com passeios na Beira-Mar onde compram picolés e conchas. “Olha meu desenho!”, diz Larah, entregando flores rabiscadas. Ana a abraça, e o laço delas cresce.
A festa começou ao entardecer, um momento simples, mas cheio de alma. Claire e sua mãe prepararam uma moqueca de peixe, arroz e farofa, e a mesa se encheu de aromas que misturavam o mar e a casa. Pedro trouxe o violão, tocando “Asa Branca” enquanto Larah dançava, os cabelos loiros balançando. Abrimos um vinho, e Claire segurou minha mão, relembrando nosso casamento em 1994. “Oito anos, e ainda sinto borboletas”, sussurrou. Larah cortou o bolo — chocolate com morangos — e pediu uma história de Istambul. Contei sobre a princesa dos olhos azuis, e ela riu, abraçando-me forte. Foi uma noite de paz, um oásis na correria.
E agora, uma nova expectativa toma forma. A carta de Sophie, chegada em outubro, nos colocou em movimento. Reservamos voos com a Varig para 14 de junho, retornando no dia 17 — eu, Claire, Larah, Pedro, Ana, Roberto e Helena, sete almas prontas para o desfile de Reinaldo Lourenço com parceria da L’Oréal em São Paulo. Larah escolheu um vestido azul, empolgada com a ideia de ver “vestidos de princesa”. Organizamos a hospedagem perto do Ibirapuera, e Claire já planeja um passeio pela Avenida Paulista. A viagem promete ser um marco, e os próximos dias serão de preparativos intensos.
14 de junho de 2002.À luz suave do abajur, com o silêncio da noite envolvendo a casa, sento-me para escrever, o caderno aberto como um velho amigo que não visito há meses. Não toco nestas páginas desde 15 de abril, quando celebramos os oito anos de Larah e de meu casamento com Claire — e a culpa pesa. Escrever é o prazer que me ancora, a forma que encontro de ordenar o caos da vida, mas os últimos dois meses foram um redemoinho. O escritório em Florianópolis engoliu minhas noites com o caso de Laguna, Claire mergulhou ainda mais fundo no mestrado, e Larah, com sua energia de menina, encheu a casa de desenhos e perguntas sobre Sophie. Hoje, com a viagem a dois dias, a casa vibrou com preparativos, risos e conversas que misturaram o passado e o futuro num mesmo fio.
O inverno chegou tímido a Florianópolis, o termômetro marcando 18°C, a brisa fresca da Beira-Mar Norte balançando as cortinas, o cheiro de maresia se misturando ao aroma de café que Claire preparou pela manhã. Enquanto organizávamos malas e planos, senti o peso doce da expectativa — não apenas por ver minha irmã brilhar na passarela, mas por compartilhar esse instante com Claire, Larah, Pedro, Ana, Roberto e Helena: sete almas unidas por laços que o tempo, em vez de desgastar, só fortalece.
A manhã começou cedo, com o sol pálido tentando atravessar o céu cinza. Roberto já estava na sala, folheando a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, que ele trouxe do centro. “Jacques, olha essa matéria sobre a Fashion Week”, disse, coçando a barba grisalha. “Dizem que a Gisele Bündchen vai arrasar na Zoomp, e o Reinaldo Lourenço tá preparando algo grandioso com a L’Oréal. Até a Regina Casé vai estar lá, entrevistando pro Central da Periferia.” Ele dobrou o jornal, os olhos brilhando com a ideia de um mundo tão distante da nossa ilha. “Sophie tá no meio desse furacão, hein?” Assenti, imaginando minha irmã sob os holofotes, enquanto Claire organizava as malas na sala de jantar. O aroma do café se misturava ao perfume das flores do quintal, e Larah, sentada no tapete, folheava uma Caras antiga que Claire guardava. “Jacques, olha a Sophie!”, exclamou, apontando um anúncio da L’Oréal com minha irmã, o cabelo loiro brilhando sob luzes de estúdio. “Ela é tão bonita! Será que ela é como uma princesa na passarela?” Seus olhos azuis, tão parecidos com os de Sophie, brilhavam de ansiedade. Larah nunca a conheceu, e a ideia do encontro a fazia vibrar. “Você vai ver no domingo”, respondi, bagunçando seus cabelos loiros. Claire, separando as passagens da Varig, sorriu. “Quero levar a Larah ao MASP. Vai ser bom mostrar um pouco de São Paulo pra ela.” O hotel no Jardins, perto do Ibirapuera, estava reservado, e o itinerário incluía o desfile no dia 16 e um jantar com Sophie no dia 17.
Enquanto Claire dobrava o vestido azul de Larah – aquele que ela insistiu em levar para “parecer chique” –, falou do mestrado na UFSC. “Jacques, li um artigo do John Bowlby ontem, sobre como o apego na infância molda a vida adulta. E o Bert Hellinger, que vi em Istambul, tem um estudo de 2001 no Journal of Family Therapy que fala de traumas intergeracionais. Acho que explica por que o reencontro com Sophie me toca tanto.” Ela pausou, olhando para Larah, que desenhava Sophie com um vestido prateado em seu caderno. “É como se estivéssemos costurando laços, sabe?” Sua voz carregava a serenidade que sempre me acalma, mas também uma paixão nova, alimentada pelos estudos. Larah, alheia à conversa, interrompeu: “Claire, a Sophie vai usar um vestido assim?” Mostrou o desenho, com estrelas brilhando no papel. “Talvez, pequena”, disse Claire, rindo. “Mas a SPFW é cheia de surpresas.” A casa parecia viva, com o som do lápis de Larah riscando o papel e o tilintar das xícaras na cozinha. O inverno lá fora trazia um silêncio raro, quebrado apenas pelas ondas da Beira-Mar Norte, e eu sentia a energia da viagem crescendo, como uma onda prestes a quebrar.
Por volta do meio-dia, Pedro e Ana chegaram, trazendo um bolo de rolo embrulhado em papel colorido, comprado na Lagoa da Conceição. Ana, com sua energia vibrante, jogou-se no sofá com uma Caras e uma Nova, as páginas cheias de casamentos de famosos. “Jacques, você viu o casamento do Luciano Huck com a Angélica em maio? No Copacabana Palace, tão elegante! E a Milene Domingues com o Ronaldo, mesmo sendo de 99, ainda falam! Quero algo assim pro nosso em outubro, né, Pedro?” Pedro riu, balançando a cabeça enquanto abria uma Brahma que pegou na geladeira. “Ana, eu só penso na Copa! O Brasil ganhou da Bélgica por 2 a 0 na segunda, Rivaldo e Ronaldo mandaram bem. Se passar pela Inglaterra na sexta, o penta é nosso!” Ele ergueu a garrafa, os olhos brilhando com a febre do futebol que tomava o país. Larah, sentada no chão, imitou a pose de uma modelo, jogando os cabelos loiros, e todos rimos. “Você tá treinando pra SPFW, Larah?”, brincou Pedro. Ela fez biquinho, rindo: “Quero ser como a Sophie!” Ana sorriu, abraçando-a. “Você vai brilhar, pequena.” O bolo de rolo foi cortado, e o doce açucarado encheu a sala com um aroma que misturava nostalgia e festa, enquanto a conversa pulava entre moda, futebol e os planos para São Paulo.
Helena e Roberto chegaram logo depois, trazendo um toque de calma, mas também preocupação. Helena, ajustando os óculos, sentou-se à mesa com uma xícara de chá. “Na escola, tá complicado, Jacques. O governo tá empurrando essa progressão continuada, e os professores tão perdidos. Como avaliar uma criança que não tá pronta pra avançar? E falta tudo – giz, cadernos, até carteiras em algumas salas. Teve uma greve em maio, e dizem que vem outra.” Sua voz carregava a frustração de quem dedicou a vida à educação. Claire, ouvindo, sugeriu: “Ma~e, talvez as constelações familiares ajudem os pais a entenderem os conflitos dos filhos. Posso fazer um workshop na escola.” Helena assentiu, pensativa. “Seria bom, filha. As crianças precisam de mais do que cadernos.” Roberto, dobrando o jornal, mudou de tom. “Jacques, aquele caso de Joinville ainda tá na boca do povo. Como tá o de Laguna?” Contei da disputa de terras, um emaranhado de herdeiros e documentos falsos. “É como a briga pela Celesc, Roberto. A privatização tá gerando processos atrás de processos. Todo mundo quer um pedaço, mas ninguém quer ceder.” Ele coçou a barba, impressionado. “Tu é um batalhador, meu amigo.” A conversa fluiu, misturando o peso do trabalho com a leveza do bolo de rolo, enquanto Larah desenhava mais vestidos no caderno, sonhando com a SPFW.
À tarde, enquanto Claire ajudava Larah a arrumar a mochila – cheia de lápis de cor e um panfleto da SPFW que Ana trouxe –, sentei com Roberto na varanda para revisar as passagens. O céu cinza começava a escurecer, e o vento trazia o som distante das ondas. “São Paulo é um monstro, Jacques”, disse Roberto. “Muito trânsito, mas o hotel no Jardins parece bom. O concierge vai ajudar com restaurantes, né?” Assenti, lembrando da promessa de dicas locais. Larah correu até nós, mostrando outro desenho. “Jacques, olha a Sophie no desfile!” Era um vestido azul, como o dela, com estrelas brilhando. “Você acha que ela vai gostar de mim?”, perguntou, com uma pontinha de timidez. “Ela vai te adorar, Larah”, respondi, sentindo um aperto no peito. A ideia de Larah conhecendo Sophie pela primeira vez, depois de meses sonhando com ela, era tão grande quanto a própria viagem. Claire, juntando-se a nós, falou do MASP. “Quero que Larah veja os quadros de Portinari. Vai ser como um presente antes do desfile.” O planejamento da viagem tomava forma, e a casa parecia um palco, com cada um ensaiando seu papel para São Paulo.
Quando a noite caiu, Pedro, Roberto e eu nos reunimos na varanda, cada um com uma Brahma gelada, o som das ondas da Beira-Mar Norte ao fundo. O ar estava fresco, e o cheiro de maresia se misturava ao leve amargor da cerveja. “Jacques, essa Copa tá mexendo com o Brasil”, disse Pedro, girando a garrafa. “O Ronaldinho Gaúcho vai fazer mágica contra a Inglaterra, você vai ver! E o Corinthians tá se ajeitando pro Brasileirão.” Roberto riu, erguendo a garrafa. “Se o penta vier, a gente festeja em São Paulo!” Mas logo o tom mudou. “O mundo tá pesado, Jacques. A Argentina tá afundando com esse corralito – ninguém saca dinheiro, é caos. Aqui, o Lula tá na frente nas pesquisas pro outubro, e o FHC tentando segurar o real. Depois do 11 de setembro, parece que tudo ficou mais tenso.” Assenti, lembrando das manchetes pós-ataques às Torres Gêmeas, que ainda ecoavam. “E aqui em Santa Catarina, a Celesc tá dando dor de cabeça. A privatização trouxe aumento na conta de luz, e os processos tão pipocando.” Brindamos, o tilintar das garrafas quebrando o silêncio, e Pedro riu. “Mas sabe o que importa? A gente vai ver a Sophie brilhar e, quem sabe, comemorar o penta!” A conversa aqueceu a noite fria, e senti a força dos laços que nos unem – amigos, família, e a promessa de um momento único.
Ajudei Claire a fechar as malas, enquanto Larah dormia no sofá, o caderno aberto com desenhos de Sophie. “Jacques, essa viagem vai ser especial”, disse Claire, os olhos brilhando. “Não é só a Sophie. É Larah vendo um mundo novo, é a gente junto.” Assenti, sentindo o mesmo. A SPFW, o desfile de Reinaldo Lourenço, o reencontro – tudo parecia maior que a moda. Era como costurar pedaços do nosso coração, como Claire disse, ecoando Bowlby e Hellinger. Enquanto escrevo, o abajur lança sombras suaves, e o silêncio da casa é quebrado apenas pelo ronco leve de Larah no quarto. Amanhã, partimos para São Paulo, levando a promessa de um momento que unirá passado e futuro. O diário, que tanto amo, volta a pulsar, e sinto que, apesar da correria, essas palavras guardam o que somos.
15 de junho de 2002. À luz do abajur do hotel, com o zumbido distante do trânsito de São Paulo infiltrando-se pela janela entreaberta, sento-me para escrever, o caderno aberto como um refúgio após um dia de movimento e emoções. O silêncio do quarto é quebrado apenas pelo ronco leve de Larah, dormindo no sofá-cama, seu caderno de desenhos ao lado, com Sophie rabiscada em tons de azul. Chegamos hoje, após uma viagem que misturou ansiedade, risadas e o peso doce da expectativa. O dia começou cedo em Florianópolis, com a casa cheia de malas e conversas, e terminou aqui, no Jardins, onde a cidade nos engoliu com seu caos vibrante. Enquanto escrevo, sinto a energia da São Paulo Fashion Week se aproximando, mas também o calor dos laços que nos trouxeram até aqui – Claire, Larah, Pedro, Ana, Roberto, Helena e eu, sete almas prontas para ver Sophie brilhar.
A manhã em Florianópolis foi frenética. O Aeroporto Hercílio Luz, com seu saguão pequeno e filas desorganizadas, estava agitado, o cheiro de café misturado ao perfume de Ana, que revisava uma Caras enquanto esperávamos o check-in manual. Larah, segurando sua mochila com lápis de cor e o vestido azul dobrado com cuidado, pulava de excitação. “Jacques, a gente vai voar alto?”, perguntou, os olhos azuis brilhando. “Bem alto, pequena”, respondi, bagunçando seus cabelos loiros. Claire, com a serenidade de sempre, conferia as passagens da Varig, enquanto Roberto, coçando a barba grisalha, murmurava sobre a segurança. “São Paulo é um monstro, Jacques. Espero que o hotel seja bom.” Helena, ajustando os óculos, concordou, preocupada com o trânsito. Pedro, com seu jeito animado, tentou aliviar o clima. “Relaxa, Roberto! Se o Brasil ganhar da Bélgica amanhã, a gente festeja na avenida Paulista!” Ana riu, folheando a revista. “Pedro, foca no meu casamento, tá? Olha o vestido da Angélica aqui!” O embarque no Boeing 737-300 foi tranquilo, mas o balcão da Varig, com seus papéis carimbados e máquinas de escrever antigas, lembrava um Brasil que ainda resistia à modernidade.
O voo, de pouco mais de uma hora, teve seus momentos. Larah, sentada ao lado da janela, colava o rosto no vidro, fascinada com as nuvens. “Claire, parece algodão!”, exclamou, enquanto desenhava no caderno uma Sophie com um vestido prateado. Claire, com um livro de John Bowlby na mão, sorriu. “É como os laços que a gente forma, Larah. Leves, mas fortes.” Uma leve turbulência fez Helena segurar o braço de Roberto, que brincou: “Se o avião balança, é só o Ronaldinho Gaúcho treinando pro jogo!” Pedro riu alto, continuando a conversa sobre a Copa. “Jacques, o Rivaldo tá voando. Se passar pela Inglaterra na sexta, o penta é nosso!” Ana, revirando os olhos, interrompeu: “Pedro, deixa o futebol e pensa na SPFW. Quero ideias pro nosso casamento!” A conversa fluiu, misturando a febre do futebol com a expectativa do desfile, enquanto o ronco dos motores do Boeing 737-300 ecoava ao fundo. Olhei para Claire, que lia sobre apego, e senti um orgulho quieto – ela, equilibrando o mestrado, Larah, e essa viagem, era o alicerce da nossa família.
A chegada a Congonhas foi um choque. O aeroporto, lotado, tinha um cheiro de asfalto quente e café requentado, com táxis buzinando e viajantes correndo. Larah segurava minha mão, os olhos arregalados com o movimento. “Jacques, São Paulo é tão grande!”, disse, apertando o caderno contra o peito. Pegamos dois táxis para o Jardins, enfrentando o trânsito da Avenida 23 de Maio, onde outdoors anunciavam a SPFW e a Copa. O céu nublado, com 17°C, trazia um frio úmido, bem diferente do inverno suave de Florianópolis. No hotel, um prédio elegante com portaria de mármore, o concierge nos recebeu com um sorriso. “Bem-vindos ao Jardins. A Fashion Week é logo ali no Ibirapuera”, disse, entregando as chaves. Larah correu para o quarto, explorando a vista da janela, enquanto Claire organizava as malas. “Quero levar a Larah ao MASP amanhã antes do desfile”, disse ela, os olhos brilhando com a ideia de mostrar Portinari à menina. Pedro e Ana, no quarto ao lado, discutiam o jantar, com Ana insistindo no Antiquarius, sugerido pelo concierge. “Jacques, vai ser chique como o casamento da Angélica!”, brincou ela.
Enquanto arrumávamos o quarto, sentei com Roberto no saguão, revisando o itinerário. Ele, ainda preocupado, perguntou: “E a segurança, Jacques? São Paulo é complicado.” Tranquilizei-o, mencionando o concierge e a proximidade do Ibirapuera. “Vai ser inesquecível, Roberto. Sophie tá esperando a gente.” Larah, agora desenhando no quarto, mostrou outro esboço de Sophie na passarela. “Você acha que ela vai gostar de mim, Jacques?”, perguntou, com uma timidez rara. “Ela vai te adorar, pequena”, respondi, sentindo um aperto no peito. A ideia de Larah conhecendo Sophie pela primeira vez, após meses sonhando com ela, era tão grande quanto a cidade lá fora. À noite, jantamos no restaurante do hotel, com Larah pedindo batatas fritas e Ana falando da Caras. “Jacques, a Gisele tá em todas as capas. A Sophie vai brilhar tanto quanto ela!” Pedro, com uma cerveja, voltou à Copa. “Se o Brasil ganhar amanhã, a SPFW vai ser só alegria!” Claire, sorrindo, anotou algo no caderno, talvez para suas constelações familiares, enquanto Helena e Roberto trocavam olhares de orgulho por Larah.
Enquanto escrevo, o quarto está silencioso, exceto pelo som da respiração de Larah e o zumbido distante da cidade. A viagem de hoje foi mais do que um voo – foi o começo de um reencontro, uma ponte entre o passado de Paris e o presente com nossa família. Amanhã, o desfile de Reinaldo Lourenço com a L’Oréal nos espera, e sinto que Sophie, Larah, e todos nós estamos prestes a viver algo que costurará nossos corações ainda mais. O caderno, meu velho amigo, guarda esse instante, e a promessa de São Paulo pulsa em cada palavra.
16 de junho de 2002. Chegamos a São Paulo ontem, após uma viagem tranquila com a Varig, e a cidade nos recebeu com seu caos vibrante e um céu nublado que prometia chuva. Hoje, porém, o dia brilhou como um quadro vivo, cheio de luz, emoção e o peso doce de um reencontro. Acordamos cedo no hotel, um lugar confortável perto do Ibirapuera, com o barulho de São Paulo entrando pela janela entreaberta. Larah, com seus oito anos, pulava na cama, os olhos azuis brilhando de ansiedade. “Jacques, Sophie vai desfilar como princesa?”, perguntava, segurando o vestido azul que escolheu para o dia. Claire, com um sorriso calmo, ajeitava os cabelos dela, enquanto eu tentava conter meu próprio nervosismo. O convite de Sophie, recebido em setembro, ainda ecoava: ela, minha irmã, estaria na passarela da São Paulo Fashion Week, representando a L’Oréal Paris no desfile de Reinaldo Lourenço. Era mais do que um evento de moda – era um pedaço da nossa história se costurando de novo.
Chegamos à Bienal por volta das 16h, o táxi enfrentando o trânsito caótico da cidade. O saguão era um redemoinho: fotógrafos com câmeras enormes, jornalistas com crachás pendurados, e modelos altíssimas que pareciam flutuar pelo espaço. O ar misturava café, perfume caro e uma energia que fazia o coração acelerar. Larah segurava minha mão, os olhos arregalados, enquanto Claire observava tudo com sua serenidade de sempre. Fomos recebidos por Camille, uma assessora da L’Oréal Paris, enviada por Sophie para nos guiar. Uma mulher elegante, com cerca de 30 anos, cabelo curto e um sotaque parisiense leve, Camille nos entregou crachás de convidados especiais. “Sophie está ansiosa para vê-los”, disse, com um sorriso que parecia genuíno. “Venham, vou mostrar o que é a SPFW.”
Camille nos levou ao lounge, onde a Natura tinha um estande com sucos de laranja e hortelã. “Eles dominam o backstage”, explicou ela, enquanto Larah pegava um copo, fascinada com o copo colorido. “A L’Oréal está focada na maquiagem, mas hoje é especial: cedemos Sophie e Noémie Lenoir para o desfile de Reinaldo Lourenço, uma parceria para destacar nossa campanha global.” Perguntei por que não havia um estande da L’Oréal, e Camille riu. “Nosso palco é a passarela. Vocês vão ver.” Larah, com a curiosidade de uma criança, perguntou: “As modelos são princesas de verdade?” Camille piscou. “Quase, querida. São rainhas da passarela.”
O primeiro desfile que pegamos foi da Poko Pano, e a energia era contagiante. Camille nos guiou até nossos lugares, na terceira fila, and Larah se sentou no meu colo, apontando para as cores vibrantes – laranja, amarelo, vermelho – inspiradas na cultura africana. “Olha, parece um arco-íris!” Biquínis com lacinhos e saídas de praia esvoaçantes dançavam na passarela. Camille apontou para a modelo que abriu o desfile, Fernanda Tavares. “Ela é uma das maiores do Brasil, uma líder na passarela. Notem como ela comanda o ritmo.” Fernanda caminhava com uma postura firme, quadris balançando com precisão, o olhar fixo que prendia a plateia. Claire sussurrou: “Ela tem uma força incrível.” Mas o momento que marcou foi quando Caroline Ribeiro, que Camille apresentou como uma jovem promessa, tropeçou levemente num maiô com recorte lateral. Larah segurou minha mão, preocupada, mas Caroline continuou com um sorriso, como se nada tivesse acontecido. “Ela torceu o pé, mas é profissional”, disse Camille, impressionada. “Ninguém percebeu.” Larah perguntou: “Ela tá bem?” Camille assentiu. “Sim, pequena. É o que faz uma modelo ser grande.”
O desfile principal, de Reinaldo Lourenço, veio em seguida, e o coração apertou. A música, uma mistura de eletrônica e cordas, criou um clima sofisticado. Camille nos preparou: “Sophie vai abrir e fechar. A L’Oréal quis que ela trouxesse a elegância francesa para a coleção.” As luzes baixaram, e lá estava ela – Sophie, minha irmã, entrando com um vestido branco fluido, quase etéreo, que parecia flutuar com ela. Sua postura era perfeita – costas retas, ombros abertos, um caminhar que misturava força e leveza, como se dançasse. Larah bateu palmas, sussurrando: “Sophie!” Claire segurou minha mão, os olhos úmidos. Sophie comandava a passarela, e cada look – vestidos românticos, calças de corte moderno – ganhava vida com ela. Camille apontou Ana Cláudia Michels, que veio logo após, com um vestido bege que parecia esculpido no corpo. “Ela é uma favorita do Reinaldo, quase como uma bailarina”, disse Camille. Ana Cláudia caminhava com uma graça delicada, mas Sophie, com seu brilho, era o centro das atenções.
No intervalo, Camille nos levou para um canto do lounge, onde vimos Isabeli Fontana, que ela descreveu como uma jovem líder. “Isabeli tem só 18 anos, mas já orienta as modelos novas nos bastidores”, disse, apontando para ela, que ajustava a postura de uma garota nervosa. Larah ficou encantada, perguntando se podia falar com ela, mas Camille sugeriu esperar o fim. “Elas estão na correria agora.” Ouvi murmúrios sobre a falta de diversidade nas passarelas, algo que Camille confirmou. “Está começando a mudar, mas ainda é um desafio.”
À tarde, vimos o desfile da V.Rom, com uma vibe jovem e urbana – calças cargo, camisetas com estampas geométricas. A trilha, com Los Hermanos, fez Larah balançar os pés. Camille apontou Raica Oliveira, que entrou com um look jeans cheio de patches. “Ela tem uma energia única, quase brincalhona”, disse Camille. Raica parou no fim da passarela, jogou o cabelo e sorriu, arrancando aplausos. Larah riu, imitando o gesto. Claire notou: “Ela parece se divertir de verdade.”
O último desfile foi de André Lima, com vestidos dramáticos em preto e roxo. Michelle Alves fechou, com uma postura teatral que hipnotizou a plateia. Camille explicou: “Michelle é perfeita para finais, ela carrega o drama.” Larah ficou boquiaberta, and Claire anotou algo num caderno, talvez para suas sessões de constelação.
Quando Sophie voltou para fechar o desfile de Reinaldo Lourenço, num vestido prateado que refletia os holofotes, o público aplaudiu de pé. Larah gritou: “Sophie!” Sophie olhou para nós, um sorriso rápido, e senti um orgulho que não cabe em palavras. Camille nos levou ao backstage depois, onde Sophie nos encontrou, ainda com um leve brilho de maquiagem. Nos abraçamos, and Larah se jogou nos braços dela, dizendo: “Sophie, você é uma princesa!” Sophie riu, os olhos úmidos. “Você é a minha princesa, Larah.” Noémie Lenoir passou rápido, acenando antes de correr para outro compromisso. Conversamos por alguns minutos, Sophie contando da pressão de liderar o desfile, mas do orgulho de representar a L’Oréal com Reinaldo. “Foi especial por causa de vocês”, disse, apertando a mão de Claire.
Chegamos ao hotel por volta das 21h, o táxi enfrentando as ruas iluminadas de São Paulo. Larah, ainda agarrada ao panfleto da SPFW com a foto de Sophie, bocejava, mas insistia em contar tudo a Roberto and Helena, que nos esperavam no saguão junto com Pedro and Ana. O ar condicionado do hotel trazia um alívio após o calor da Bienal, and enquanto Claire ajudava Larah a tirar o vestido azul amassado, perguntei ao concierge sobre um bom lugar para jantar. Ele sorriu and sugeriu o Antiquarius, na Alameda Lorena, “o favorito de quem vem da Fashion Week”. A ideia animou o grupo, and, com Larah já mais acordada com a promessa de batatas fritas, seguimos para o restaurante. O Antiquarius nos recebeu com seu charme sofisticado – paredes com quadros antigos, lustres brilhando suavemente e um aroma quente de bacalhau que pairava no ar. Sentamo-nos numa mesa redonda, Larah entre Claire and Ana, suas “favoritas”. O garçom trouxe um Catena Malbec argentino, escolhido por Pedro, que disse, “um vinho encorpado pra brindar o dia”. Larah, com um sorriso enorme, segurava um copo de caldo de cana com limão, sorvendo o sabor doce e cítrico com deleite.
Pedro, com seu jeito animado, puxou conversa sobre o desfile. “Jacques, aqueles tecidos do Reinaldo Lourenço eram incríveis, não? Pareciam flutuar na passarela!” Ana, com uma sobrancelha levantada, retrucou com um meio-sorriso: “Tecidos, Pedro? Sei, desde quando você entende de costura?” A mesa explodiu em risadas, and Pedro ergueu as mãos, fingindo rendição. “Juro, Ana, era só a arte da moda!” Claire, sempre serena, deu um tapinha no meu braço and riu. “Deixa eles, amor. O desfile foi mesmo mágico, especialmente a Sophie.” Helena, com um olhar nostálgico, acrescentou: “Parecia um sonho, como os bailes de antigamente, mas com mais brilho.” Larah, mordiscando uma batata frita crocante do seu filé mignon, interrompeu: “Sophie parecia uma fada! O vestido prateado brilhava muito!” O aroma da cataplana, um ensopado fumegante de frutos do mar e porco com alho e coentro, chegou à mesa, misturando-se ao cheiro salgado do bacalhau à Gomes de Sá que Roberto pediu, com suas lascas de peixe, azeite e cebolas. Cada garfada era um conforto, como se a comida selasse a energia do dia.
Enquanto comíamos, o papo fluiu entre risos e memórias. Pedro, tentando se redimir, elogiou a trilha sonora da SPFW, dizendo que a mistura de eletrônica e cordas dava um ar “de filme”. Ana, ainda brincando, disse: “É, Pedro, foca na música pro nosso casamento, tá?” Claire and eu trocamos um olhar divertido, and eu contei como Larah gritou por Sophie na plateia, fazendo a mesa rir. Roberto perguntou sobre os planos de Sophie em Florianópolis, enquanto Helena se encantou com Larah desenhando vestidos no guardanapo, inspirada por Sophie. O Malbec, com seu sabor de ameixa e um toque leve de carvalho, aquecia a conversa, and o caldo de cana de Larah, já pela metade, deixava seus lábios brilhando enquanto ela pedia mais. O Antiquarius era um oásis em São Paulo – o tilintar dos talheres, o murmúrio elegante dos outros clientes e os aromas dos pratos nos envolviam. Era o fechamento perfeito para um dia de emoções, com a família e amigos celebrando Sophie, a SPFW e o laço que nos une.
Voltando ao hotel, Larah adormeceu no táxi, sonhando com passarelas. Claire, ao meu lado, planejava o voo de amanhã para Florianópolis, onde Sophie passará uns dias conosco. Enquanto escrevo, à luz do abajur, sinto o peso doce de hoje – Sophie brilhando, Larah sonhando, Claire ao meu lado. A SPFW foi mais do que moda; foi um reencontro que costurou pedaços do nosso coração.
17 de junho de 2002. À luz suave do abajur, com o ronco leve das ondas da Beira-Mar Norte entrando pela janela entreaberta, sentei-me para escrever, o caderno aberto como um velho amigo que guarda o peso doce do dia. A casa estava silenciosa, exceto pelo sono tranquilo de Larah no quarto ao lado e de Sophie, minha irmã, descansando no quarto de hóspedes, trazendo um pedaço de Paris para Florianópolis. Hoje foi um dia de reencontros, risos e laços que se costuraram ainda mais, como Claire diria, ecoando Bowlby e suas constelações familiares. Chegamos de São Paulo com o coração cheio, após um voo que trouxe Sophie para nossa ilha, e o almoço em família selou a promessa de dias que ficarão na memória. Enquanto escrevia, sena maresia misturada ao cheiro de café que ainda pairava na casa, e o diário pulsava com a história de hoje.
A manhã começara cedo no hotel no Jardins, com o despertador tocando às sete. Descemos para o café em uma mesa grande, nós sete – Claire, Larah, Pedro, Ana, Roberto, Helena e eu – reunidos num salão elegante, com paredes de madeira e lustres discretos. O garçom, solícito, anotava pedidos, e o aroma de café com leite se misturava ao de croissants quentes. Larah, sentada entre Claire e mim, pediu um pão na chapa com geleia de goiaba, lambuzando os dedos enquanto desenhava Sophie no caderno. “Jacques, ela vai gostar do meu desenho?”, perguntara, os olhos azuis brilhando. “Vai adorar, pequena”, respondi, bagunçando seus cabelos loiros. Claire, com a serenidade de sempre, limpava a boca de Larah com um guardanapo, enquanto pedia ovos mexidos e suco de laranja. Eu, introspectivo, pensando no reencontro com Sophie, pedi um café preto, sentindo a expectativa crescer como uma onda.
Roberto, com a Folha de S.Paulo aberta, coçava a barba grisalha. “Jacques, olha aqui”, dissera, apontando uma manchete. “O Lula tá na frente nas pesquisas pro outubro, mas o FHC ainda tenta segurar o real. E a Argentina tá um caos com esse corralito.” Assenti, enquanto Pedro, com um croissant na mão, interrompera: “Esquece política, Roberto! O Brasil ganhou da Bélgica hoje, 2 a 0, Rivaldo e Ronaldo mandaram bem. Sexta, contra a Inglaterra, o penta vem!” Seu entusiasmo fizera Larah rir, imitando um chute de futebol com os pés sob a mesa. Helena, ajustando os óculos, virou-se para Ana, que folheava uma Caras. “Ana, já fez a lista de presentes pro casamento? A Oscar Freire tem lojas ótimas, sabe? E quantos parentes do Pedro vêm do Rio Grande?” Ana sorrira, animada. “A família dele é grande, Helena! Acho que vem todo mundo. Quero um vestido como o da Angélica, chique assim.” Claire rira, ajeitando o cabelo de Larah. “Você vai brilhar, Ana.” A conversa fluíra, com o tilintar de xícaras e o aroma doce da geleia, e eu sentira o calor da família antes da partida.
Por volta das oito, terminamos o café e subimos para arrumar as malas. O concierge organizara uma van, e às nove estávamos a caminho de Congonhas, o trânsito da Avenida 23 de Maio lento sob um céu cinza. Chegamos ao aeroporto por volta das dez, o saguão lotado com o cheiro de asfalto quente e café requentado. E lá estava ela – Sophie, minha irmã, esperando perto do balcão da Varig, com uma bolsa de couro e o cabelo loiro brilhando sob a luz fraca. Vesum casaco leve, ainda com um toque de maquiagem do desfile. Quando nos viu, seu rosto se abrira num sorriso, e os abraços começaram. Pedro, Ana, Roberto e Helena a envolveram, com risos e lágrimas. “Sophie, você arrasou na passarela!”, dissera Ana, enquanto Pedro brincara: “Quase uma rainha, hein?” Eu a abracei forte, sentindo o perfume floral que ela sempre usa, e Claire, com os olhos úmidos, dissera: “Foi mágico te ver, Sophie.” Mas o momento eterno viera com Larah, que ficara tímida, segurando meu braço. Sophie se ajoelhara, ficando na altura dela, e dissera em francês: “J’avais tellement hâte de te rencontrer, Larah!” Larah, com lágrimas escorrendo, respondera: “Tu es trop belle!” e se jogara nos braços dela. O tempo parara, como se aqueles dois minutos fossem uma eternidade, com todos nós, de mãos dadas, sentindo o peso doce daquele laço. O microfone do aeroporto anunciara um voo, quebrando o encanto, e nos recompusemos, rindo da correria.
Fui ao balcão da Varig comprar a passagem de Sophie, enfrentando uma fila com papéis carimbados e máquinas de escrever antigas. Consegui um voo para as onze, e tomamos um café rápido no saguão, com Larah mostrando seus desenhos a Sophie. “Você foi a uma festa ontem?”, perguntara ela em francês: “Tu es allée à une fête hier?” Sophie sorrira. “Une petite, avec L’Oréal, mais le meilleur, c’était vous au défilé.” Traduzi para o grupo: “Ela disse que foi a uma pequena festa da L’Oréal, mas o melhor foi ver vocês no desfile.” O embarque fora uma correria, com malas, Larah segurando o caderno, e Sophie ajudando com a mochila dela. No Boeing 737-300, Sophie e Larah sentaram-se lado a lado, com Claire e eu na fileira ao lado. Larah, na janela, mostrava desenhos a Sophie, que apontava as estrelas no papel e sorria, seus olhos brilhando. Não precisavam de muitas palavras – o francês fluía entre elas como uma ponte. Claire, lendo um livro de Bowlby, olhava para as duas com carinho, enquanto Pedro, algumas fileiras atrás, falava alto sobre o penta. Eu, observando Sophie e Larah, seno coração apertado de orgulho.
Aterrissamos em Hercílio Luz por volta do meio-dia, a brisa fresca da Beira-Mar Norte nos recebendo. Sophie olhara pela janela do táxi e dissera: “C’est tellement calme ici, comparé à São Paulo.” Larah, rindo, respondera: “C’est chez nous!” Decidimos almoçar no Bistrô Isadora Duncan, na Lagoa da Conceição, um lugar sofisticado com paredes de pedra e aroma de ervas. Sentamo-nos numa mesa redonda, com Sophie entre Larah e eu, e o garçom trouxe uma moqueca de peixe fumegante, ostras gratinadas e um filé ao molho madeira. Larah pedira suco de caju, lambuzando os lábios, enquanto os adultos dividiam um Chardonnay de Santa Catarina, seu sabor leve combinando com o dia. Sophie tirara da mochila um maço de revistas – Vogue, Elle, anúncios da L’Oréal – e todos ficaram boquiabertos com suas fotos. Roberto, com um tom professoral, perguntara: “Como é morar numa cidade tão histórica como Paris?” Traduzi para Sophie: “Comment c’est de vivre dans une ville aussi historique que Paris?” Ela respondera: “Paris, c’est une école, chaque défilé est une leçon.” Traduzi: “Ela disse que Paris é uma escola, cada desfile uma aula.” Ana, animada, perguntara: “Você já viu a Gisele de perto?” Traduzi: “Est-ce que tu as vu Gisele de près?” Sophie rira: “Oui, elle est incroyable, mais si simple.” Traduzi: “Sim, ela é incrível, mas muito simples.” Helena, maternal, perguntara: “Você está bem cuidada lá, querida?” Traduzi: “Es-tu bien entourée là-bas?” Sophie assentira: “Oui, j’ai une bonne équipe.” Traduzi: “Ela disse que tem uma boa equipe.” Larah, em francês, perguntara diretamente: “Tu fais des défilés tous les jours?” Sophie respondera: “Pas tous les jours, mais c’est ma passion.” Larah sorrira, sem precisar de tradução. Pedro, com um sorriso, perguntara: “Conhece algum jogador famoso, Sophie?” Traduzi: “Connais-tu des joueurs célèbres?” Ela rira, negando: “Non, pas encore!” Traduzi, e a mesa explodira em risadas, o tilintar dos talheres misturando-se ao aroma da moqueca.
Voltamos para casa por volta das duas, com Pedro, Ana, Roberto e Helena seguindo para suas casas. Na Beira-Mar Norte, a maresia entrava pelas janelas, e Sophie se encantara com o quarto de hóspedes, com sua colcha de patchwork e vista para o mar. A tarde passara rápido, com Sophie e Larah conversando em francês como velhas amigas. “Larah, tu parles si bien français! Ça me rend heureuse,” dissera Sophie, e Larah respondera: “C’est parce que papa m’apprend!” Eu traduzia trechos para Claire, mas a conexão entre elas fluía sozinha, como uma dança. Claire, com seu caderno, anotava algo sobre constelações, enquanto eu seno peso doce de ter Sophie aqui. À noite, com Larah dormindo agarrada ao caderno e Sophie no quarto de hóspedes, sentei-me para escrever. O diário guarda esse dia – o abraço de Larah e Sophie no aeroporto, o almoço cheio de risos, a promessa de mais momentos. A SPFW costurou nossos corações, e Florianópolis, com sua calma, é o palco onde esses laços brilham.
Hoje o dia brilhou como uma estrela. A Sophie veio com a gente de São Paulo, e meu coração tá pulando igual coelho. Escrevo no meu quarto, com a luz da luminária desenhando sombras no caderno. O mar tá cantando lá fora, e a casa cheira a maresia e ao café da Claire.
No avião, eu sentei do lado da Sophie, e ela olhou meu desenho. Era ela com um vestido prateado, brilhando na passarela. Ela sorriu e disse: “C’est magnifique, Larah!” Eu ri, porque o francês dela é macio como o perfume que ela usa, aquele cheiro de flor. No aeroporto de São Paulo, quando a gente viu ela, eu fiquei tímida, mas ela se abaixou e me abraçou tão forte que o tempo parou. Como num tapete voador. Todo mundo chorou, até o Jacques, mas foi choro bom.
No almoço, comi moqueca e suco de caju, que lambuzou minha boca. A Sophie mostrou revistas com ela, tão linda, como uma princesa. Pedro perguntou se ela conhece jogadores, e ela riu: “Non, pas encore!” Jacques traduziu, e todo mundo riu junto. Eu desenhei ela de novo, com um vestido azul, e mostrei. Ela disse: “Tu seras une grande artiste!” Jacques disse que significa “você vai ser uma grande artista”. Meu coração ficou quente.
Agora ela tá aqui, dormindo no quarto de hóspedes. Quero que ela fique pra sempre, mas ela vai desfilar em outros lugares, como uma estrela que viaja no céu. Vou desenhar ela amanhã, com mais estrelas.
7 de julho de 2002. À luz suave do abajur, com o ronco das ondas da Beira-Mar Norte entrando pela janela entreaberta, sentei-me para escrever, o caderno aberto como um refúgio para o peso doce do dia. A casa estava silenciosa, mas parecia vazia sem Sophie, que partiu hoje para Miami, levando consigo o brilho de suas três semanas conosco. Larah dormia no quarto ao lado, seu caderno de desenhos aberto numa página com Sophie na passarela, e Claire, já deitada, deixava anotações sobre constelações familiares. Hoje, a despedida trouxe lágrimas, abraços e a promessa de novos reencontros, costurando laços que, como Claire diria, transcendem o tempo. Enquanto escrevia, o cheiro de maresia misturava-se ao aroma de café que ainda pairava, e o diário guardava o eco de um mês que mudou nossa casa.
A manhã começara cedo, com o céu claro do inverno de Florianópolis, a brisa fresca entrando pela janela da sala. Por volta das seis e meia, encontrei Sophie no quarto de hóspedes, dobrando suas roupas com cuidado, a mala aberta sobre a colcha de patchwork. Larah, com os cabelos loiros despenteados, “ajudava” entregando uma blusa, mas na verdade atrapalhava, espalhando meias pelo chão. “Sophie, tu vas défiler sur la plage à Miami?”, perguntara, os olhos azuis brilhando de curiosidade. Sophie rira, ajoelhando-se para bagunçar o cabelo dela. “Peut-être, Larah! Je t’enverrai une photo.” Traduzi para Claire, que arrumava a mesa do café na cozinha: “Larah perguntou se ela vai desfilar na praia, e Sophie disse que talvez, e que vai mandar uma foto.” Claire, com um sorriso sereno, servia café com leite e pão com manteiga, o aroma quente enchendo a casa. “Vai ser lindo, Sophie”, dissera ela, cortando uma fade mamão para Larah. Eu, tomando um café preto, seno peito apertado, sabendo que em poucas horas Sophie estaria no avião.
Os últimos 20 dias haviam sido um presente. Desde o almoço no Bistrô Isadora Duncan, Sophie se integrara à nossa rotina. Levamos ela à Lagoa da Conceição, onde Larah correu atrás de gaivotas, e fizemos um churrasco no quintal, com Sophie contando histórias de Paris em francês, enquanto Larah traduzia trechos com orgulho. A euforia do penta da Copa, com o Brasil campeão contra a Alemanha, trouxe risadas e Larah desfilando com uma camiseta da seleção, imitando Sophie na passarela. Mas eram os momentos quietos – Sophie e Larah desenhando juntas, ou conversando em francês na varanda – que faziam a casa pulsar. Claire dizia que era como uma constelação familiar se alinhando, e eu senque Sophie, mesmo tão longe, nunca deixou de ser nossa.
Às sete, um táxi estacionou na porta, e ajudamos Sophie com a mala. Larah, segurando seu caderno, insistira em levar um desenho especial – Sophie com um vestido azul, com estrelas, “para Miami”. No carro, rumo ao Aeroporto Hercílio Luz, sentei-me ao lado de Claire, com Larah no colo dela, apontando as ondas da Beira-Mar Norte. Sophie, no banco da frente, falava em francês: “Florianópolis est si paisible. Ça va me manquer.” Traduzi para Claire: “Ela disse que Florianópolis é tão tranquila, e que vai sentir falta.” Larah respondera: “Mais tu vas revenir, Sophie?” Sophie, virando-se com um sorriso, dissera: “Bien sûr, ma petite. Dès que je peux.” Traduzi: “Ela disse que vai voltar assim que puder.” Claire, apertando a mão de Larah, acrescentara: “Você sempre terá um lar aqui, Sophie.”
No saguão do Hercílio Luz, o cheiro de café requentado misturava-se ao barulho de malas e anúncios. Sophie, com sua bolsa de couro e o cabelo loiro preso, parecia pronta para voar – não só para Miami, mas para o mundo. Abraçamo-nos, e Claire, com os olhos úmidos, dissera: “Você brilhou aqui, Sophie. Larah não vai te esquecer.” Traduzi: “Tu as brillé ici, Larah ne t’oubliera pas.” Sophie assentira, emocionada: “Merci, Claire. Vous êtes ma famille.” Traduzi: “Obrigada, Claire. Vocês são minha família.” Larah, segurando o desenho, correra para os braços de Sophie, chorando: “Je veux que tu restes!” Sophie, ajoelhando-se, respondera: “Je reviendrai, Larah. Et tu seras une grande artiste un jour.” Traduzi para Claire: “Ela disse que vai voltar, e que Larah será uma grande artista um dia.” O abraço delas, com Larah agarrada ao pescoço de Sophie, foi como o do aeroporto de Congonhas – uma eternidade em poucos segundos. Quando o voo das nove para São Paulo foi anunciado, Sophie entregou a Larah um lenço com seu perfume floral, dizendo: “Pour te souvenir de moi.” Larah, com lágrimas, guardou-o no caderno.
Voltamos para casa em silêncio, Larah abraçada ao caderno, Claire segurando minha mão. A tarde passou lenta, com a casa mais quieta, mas cheia de memórias – o riso de Sophie, os desenhos de Larah, o aroma de café nas manhãs. Enquanto escrevia, à noite, senque Sophie levou um pedaço de nós para Miami, mas deixou outro aqui, costurado em nossos corações. O diário guarda esse instante, e a promessa de que, como as ondas da Beira-Mar Norte, Sophie sempre voltará.
Hoje meu coração tá gelado, mas também quente, como quando o vento do mar encontra o sol. Escrevo no meu quarto, com o lenço da Sophie no caderno. Ele cheira a ela, a flores, e faz eu lembrar do abraço. A casa tá quieta, só o mar cantando lá fora.
Hoje de manhã, a Sophie arrumou a mala. Eu ajudei, mas baguncei as meias, e ela riu: “Larah, tu es un petit ouragan!” Jacques disse que é “pequeno furacão”. Claire fez café com pão e mamão, e o cheiro subiu pela casa. Eu dei um desenho pra Sophie, ela com um vestido azul cheio de estrelas, pra levar pra Miami. Ela disse: “Je le garderai toujours, Larah.” Jacques traduziu: “Vou guardar pra sempre.”
No aeroporto, o ar cheirava a café velho. Eu abracei a Sophie tão forte que não queria soltar. Chorei e disse: “Tu vas revenir, Sophie?” Ela se abaixou, com os olhos molhados, e disse: “Bien sûr, ma petite. Dès que je peux.” Jacques disse pra Claire que ela prometeu voltar logo. Ela me deu um lenço com o perfume dela, e disse: “Pour te souvenir de moi.” Guardei no caderno, pra não esquecer.
Agora ela tá voando pra Miami, pra desfilar na praia, como uma princesa num tapete voador. Meu coração tá gelado porque ela foi, mas quente porque ela esteve aqui. Vou desenhar ela com o mar de Miami, brilhando como açúcar.
Florianópolis, 28 de outubro de 2002, 3h da manhã. A maresia sobe da Praia do Santinho, um sussurro salgado que entra pela janela do quarto conjugado no Costão do Santinho. Larah dorme no cômodo ao lado, a porta entreaberta deixando passar o som leve de sua respiração. Claire, exausta, descansa na cama, um sorriso ainda nos lábios. A xícara de café na minha mesa está fria, mas o coração pulsa quente, carregado pela memória de um dia que Florianópolis não esquecerá: o casamento de Pedro Schmidt e Ana Prestes. Escrevo agora, na quietude da madrugada, pra guardar cada detalhe, cada olhar, cada nota que fez desta noite um marco.
O dia começou com o sol despontando tímido sobre o Morro das Pedras, um brilho suave que prometia primavera. Eu estava no Majestic Palace, onde Pedro, meu amigo, tentava domar a gravata prateada com dedos trêmulos. “Jacques, e se eu travar nos votos?”, perguntou, rindo, enquanto engolíamos pão de queijo e café preto. Pedro Schmidt, o gaúcho que conheci em 1993 nos corredores da UFSC, onde eu revalidava meu diploma de Direito e ele cursava Administração, estava um misto de nervosismo e alegria. Ajudei-o a revisar os votos, rabiscados num papel amassado: “Amar Ana até o último pôr do sol de Florianópolis.” Rimos, brindamos com suco, e ele me abraçou, como se o peso do dia se dissolvesse na nossa amizade.
Enquanto isso, na casa dos Prestes, na Lagoa da Conceição, Claire ajudava Ana a se preparar, como ela me contou depois. Ana Prestes, que era um furacão contido, brilhava no vestido de noiva com corpete justo e véu longo, como uma capa de Noivas & Noivos que ela folheava semanas antes. Claire ajustava a tiara prateada de Ana, enquanto Larah, girava num vestido branco com faixa rosa, os cabelos loiros soltos caindo até a cintura, os olhos azuis radiantes como o céu de primavera. “Claire, pareço uma princesa?”, perguntou Larah, e Ana, com um sorriso emocionado, respondeu: “Você será a estrela da cerimônia, pequena.” Claire me disse que aquele momento, com Ana enxugando uma lágrima, foi como ver a ilha ganhar vida
As famílias começaram a chegar cedo. Os Schmidt, de Bento Gonçalves, desembarcaram com a energia gaúcha. Hans Schmidt, dono de uma vinícola, e Ingrid, professora aposentada, vieram de avião pela Varig, trazendo caixas de vinho Aurora com rótulos personalizados “Pedro & Ana 2002”. Mariana, advogada, e Klaus, gerente da vinícola, chegaram de van com um grupo de primos barulhentos, falando de churrascos e da Oktoberfest de Blumenau, que agitara Santa Catarina semanas antes. Os Prestes, de Florianópolis, vieram de carro. Antônio, historiador da UFSC, e Clara, dona de uma galeria de arte, receberam amigos manezinhos com abraços calorosos. Júlia, irmã de Ana, espalhava lembrancinhas com ilustrações da Ponte Hercílio Luz, enquanto primos de Joinville chegavam de van, comentando a eleição de Lula que aconteceria naquele domingo.
Às dez da manhã, a Catedral Metropolitana estava lotada, os vitrais coloridos refletindo o sol primaveril. Claire e eu, como padrinhos de Pedro, entramos à frente, eu de smoking preto, ela com seu vestido esmeralda brilhando. Lucas e Marina, amigos de Ana da UFSC, entraram como padrinhos dela, sorrindo com a emoção do momento. O órgão ecoava uma melodia solene, e o padre João Batista, com sua voz grave, preparava o altar. Então veio Larah, a daminha, roubando a cena. Com seu vestido branco, faixa rosa, e tiarinha de princesa, ela caminhava com passos leves, como numa passarela da São Paulo Fashion Week, inspirada por Sophie, que, como Larah mencionou depois, “está desfilando em Miami”. Seus cabelos loiros caíam soltos até a cintura, os olhos azuis brilhavam como o céu de primavera, e o sorriso enchia a igreja. Segurando a almofada de cetim com as alianças, ela avançava graciosa, como uma princesa, e todos os olhares se voltaram pra ela. Pedro e Ana, no altar, se ajoelharam, abraçaram-na com lágrimas, e ela entregou a almofada ao padre. Claire, com um toque suave, levou Larah pra se sentar ao nosso lado, enquanto a igreja aplaudia em silêncio.
Os votos foram o coração da cerimônia. Pedro, com a voz embargada, prometeu: “Ana, juro te amar até o último pôr do sol de Florianópolis, e construir contigo uma vida de risos e sonhos.” Ana, com lágrimas escorrendo, respondeu: “Pedro, nosso amor nasceu de uma amizade, lapidado como um diamante, cada dia mais forte, até hoje, quando te prometo amar para sempre.” A igreja se calou, o eco das palavras pairando nos vitrais. O padre João Batista abençoou as alianças, e o beijo dos noivos selou o momento, sob aplausos que pareciam sacudir a catedral.
A festa, no Costão do Santinho, foi algo que Florianópolis não verá tão cedo. O salão, com vista para a Baía Norte, estava decorado com copos-de-leite, redes de pesca e luzes suaves, um tributo à herança açoriana. Mesas fartas ofereciam moqueca de camarão, cuscuz, pirão de peixe, e um bolo de chocolate com recheio de maracujá que fez Larah lamber os dedos. Três mil convidados enchiam o espaço, de gaúchos barulhentos a manezinhos descontraídos. Entre eles, figuras que davam brilho à noite: Gustavo Kuerten, o Guga, dançando na pista com sua energia catarinense; Dário Berger, prefeito de Florianópolis, cumprimentando Pedro com um aperto de mão; Tadeu Schmidt, primo distante de Pedro, brindando com vinho Aurora; e Vera Fischer, a atriz que Ana admirava, trazendo glamour com um vestido dourado, convidada por Clara Prestes.
Meu discurso como padrinho veio após a valsa, com Pedro e Ana dançando “More Than Words” do Extreme, uma escolha que ecoava meu próprio casamento com Claire em 1994. Levantei um copo de chopp Brahma e relembrei o dia em que Pedro me arrastou pra um bar na UFSC, onde falamos de sonhos, futebol e cerveja. “Você encontrou em Ana o que eu encontrei em Claire: um amor que faz a vida valer a pena”, eu disse, vendo Ana enxugar uma lágrima. Claire, ao meu lado, apertou minha mão, e a multidão aplaudiu, com Larah batendo palmas, orgulhosa.
O ponto alto da noite foi a surpresa que planejei pra Pedro. Ele sabia que haveria uma banda, mas não imaginava o que viria. Roberto, pai de Claire, e eu subimos ao palco, fingindo que a verba tinha acabado. “Bem, amigos, sem dinheiro pra uma banda, eu e Roberto vamos cantar!”, brinquei, arrancando risadas. Tadeu Schmidt, na plateia, gritou: “Canta, Jacques!” Guga riu, e Vera Fischer bateu palmas, entrando na brincadeira. Então, com um sorriso, disse: “Mas, como não cantamos tão bem, chamamos um amigo.” As luzes se acenderam, e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, entrou com óculos escuros e camiseta rasgada, segurando um papel onde leu: “Parabéns, Pedro e Ana!” A multidão explodiu quando a banda abriu com “Nós Vamos Invadir Sua Praia”. Pedro, boquiaberto, correu e me abraçou, gritando: “Você é louco, Dubois!” A valsa veio com “Arrumei Um Novo Amor”, Pedro e Ana dançando como se o mundo fosse só deles, seguidos por “Inútil”, “Marylou”, “Ciúme”, “Uma Arlinda Mulher”, “Pelado”, “Todo Mundo Gosta (De Bater Um Papo)” e “Eu Me Amo”. Roger, profissional, comandava o palco, dedicando “Ciúme” aos casais apaixonados. Contratar o Ultraje foi um capricho caro, viabilizado por Carlos Mendes, que usou contatos do Rock in Rio 2001. A banda chegou de van, em segredo, pra garantir a surpresa.
Larah, antes de adormecer, dançou com outras crianças, rindo sob as luzes do salão. Às onze, Claire a levou pro quarto conjugado, onde ela dormiu abraçada à tiarinha de princesa, a porta entreaberta pra nosso cuidado. Larah mencionou Mei, sua tia em Harvard, que mandou uma carta desejando felicidades, e Sophie, “desfilando em Miami”, como ela imaginava. Enquanto a banda tocava, TVs no canto do salão mostravam o Jornal Nacional anunciando a vitória de Lula, com 61% dos votos. Antônio Prestes, orgulhoso, ergueu um copo, citando o avô de Ana, um primo distante de Luís Carlos Prestes, e dizendo: “O Brasil acordou hoje.” Hans Schmidt, que não votou por causa da viagem de Bento Gonçalves, brindava com vinho Aurora, enquanto Roberto discutia a privatização da Celesc. Mariana e Klaus animavam os gaúchos, e Clara Prestes mostrava um quadro de Hassis, artista local, num canto do salão. O mundo, lá fora, fervia: rumores de guerra no Iraque, o euro instável, o Nobel de Jimmy Carter inspirando conversas. Mas, naquela noite, o amor de Pedro e Ana era maior.
Por volta da meia-noite, Pedro subiu ao palco pra uma última surpresa. Com Ana ao seu lado, anunciou: “Vamos começar nossa vida juntos em Aruba!” Ana, surpresa, desabou em lágrimas, abraçando-o enquanto a multidão aplaudia. Eles partiram numa van pro aeroporto, sob olhares emocionados, deixando a festa seguir com Guga na pista e Dário Berger brindando com Clara. Claire e eu sentamos na varanda do Costão, vendo o mar refletir a lua. Ela me abraçou, e falamos de 1994, quando casamos na Igreja Nossa Senhora de Lourdes. Larah, nossa pequena tutelada, dormia segura, sonhando com princesas e passarelas.
Agora, com o caderno aberto, escrevo pra guardar este dia. Pedro e Ana, que o amor de vocês, lapidado como um diamante, brilhe como as ondas da ilha. Florianópolis, hoje, foi palco de uma história que une gaúchos, manezinhos, e um parisiense como eu. Que venham mais noites assim.
Hoje eu acordei cedo. lembro que eu dormi abraçada com a minha tiarinha de princesa, e comi pão com geleia no café da manhã enquanto escutava o mar fazendo “shhhhh” lá fora.
Ontem foi o casamento do tio Pedro e da tia Ana. Foi o dia mais bonito do mundo! De manhã, Claire colocou meu vestido branco com faixa rosa, e fez eu girar até quase cair. Ela disse que eu parecia uma bailarina de flor. Eu fiquei rindo porque o vestido fazia *fuuushh fuuushh* quando eu andava rápido. Ana estava linda, tipo boneca de revista de noivas. Ela até chorou de verdade quando viu o espelho.
Na igreja, eu fui a daminha! Foi tipo um desfile igual o da Sophie. Eu entrei na frente com a almofadinha das alianças e fingi que era uma princesa levando os tesouros do castelo. Todo mundo olhou pra mim. Até o padre sorriu! O tio Pedro falou “Uau, Larah”, e a tia Ana me deu um abraço de apertar mesmo com o vestido gigante.
Depois teve a festa mais legal que eu já fui. Tinha luz colorida, um bolo com gosto de maracujá e uma banda barulhenta que cantava músicas engraçadas. Tinha muita comida que eu não sabia o nome, mas eu gostei do peixe com molhinho amarelo. E o suco de uva do tio Pedro era chique, vinha numa garrafa com o nome dele!
Tinha também um monte de crianças. Dançamos, pulamos e depois eu vi o Guga dançar e o prefeito da cidade tava lá, com cara de que queria dançar também. A Vera Fischer veio com um vestido que parecia feito de ouro. Ana quase caiu de costas quando viu.
Ah! Tinha uma TV ligada que mostrou que o Lula ganhou! Roberto ficou feliz e brindou. Eu não entendi tudo, só que o Brasil vai mudar. Será que vai virar desenho animado?
O tio Pedro fez outra surpresa: falou no microfone que ele e a tia Ana vão viajar pra algum lugar. Eu queria ir também.
Antes de dormir, eu olhei o céu pela janelinha do quarto e pensei: quando eu casar, quero usar um vestido de flor azul, e ter uma festa com música da Sophie e bolo com gostoso.