Nice, França - 28 de abril de 2001
Caro Jacques,
Escrevo estas palavras sob a luz suave que entra pela janela do quarto, com o murmúrio do mar da Côte d’Azur ao fundo e o perfume de lavanda que paira no ar. Espero que você, Claire e nossa adorada Larah estejam bem, aproveitando a brisa quente de Florianópolis, com suas praias douradas e o horizonte que parece abraçar o céu. Não há ninguém em quem eu confie mais para compartilhar esta notícia, Jacques, porque sei que você, tão próximo de Larah, fará minhas palavras chegarem até ela com o carinho que ela merece. Imagino os olhos dela brilhando, aquele sorriso que ilumina tudo, quando souber que estou dando um grande passo rumo a um sonho que, por tanto tempo, parecia distante.
Hoje, meu coração está transbordando de alegria e gratidão. No início de abril, enquanto vocês estavam em Istambul, recebi a carta que mudou minha vida: fui aceita na Harvard Medical School. Ainda sinto um arrepio ao escrever essas palavras. Harvard. Um lugar que, para mim, sempre foi mais um ideal do que uma possibilidade concreta. Quando abri o envelope, com as mãos trêmulas e o silêncio da minha casa como única companhia, li as palavras que confirmavam que todo o esforço, cada noite sem dormir, cada momento de dúvida, valeu a pena. Quero contar a você como cheguei até aqui, Jacques, não apenas porque você faz parte da minha história, mas porque sei que você entenderá o peso desse momento e o levará até Larah com o mesmo amor que sinto por ela.
Quando deixei o Brasil em 2000, depois de anos cuidando de Larah e transformando a casa dos Yang em um lar para ela, senti que precisava buscar algo maior. Trabalhar como enfermeira em Nice foi uma escola de vida. Cada paciente que cuidei, cada família que consolei, me mostrou o quanto o sofrimento pode ser universal, especialmente entre as crianças. Em lugares marcados por conflitos, onde a dor parece engolir tudo, vi histórias que partiram meu coração. Crianças que perderam seus lares, suas vozes, seus sonhos. Como enfermeira, eu podia oferecer conforto, curar feridas, segurar uma mão trêmula. Mas sempre soube que podia fazer mais. Queria entender a ciência por trás da cura, tomar decisões que salvassem vidas, transformar o futuro de quem não tinha esperança.
Na França, eu tinha a chance de estudar medicina. Universidades como a Sorbonne ou a Université de Paris abririam suas portas para mim. Mas, Jacques, algo em mim pedia mais. Harvard Medical School não era apenas uma escola; era um símbolo de excelência, um lugar onde eu poderia me tornar a médica que sempre sonhei ser. Escolher esse caminho significava deixar tudo para trás — o conforto de Nice, a proximidade de Larah, a segurança de uma vida conhecida. Mas cada vez que pensava em recuar, via o rosto de uma criança, em algum canto do mundo, esperando por alguém que pudesse fazer a diferença. E eu sabia que precisava tentar.
O último ano foi uma maratona. Minha formação em biologia e enfermagem, concluída anos atrás na Université de Nice, me deu uma base sólida. Mas Harvard exigia mais. Passei meses revisitando química orgânica, física, bioquímica, mergulhando em livros tão pesados que pareciam carregar o peso do meu futuro. As noites eram longas, Jacques. Minha mesa, coberta de anotações, xícaras de café e papéis amassados, tornou-se meu campo de batalha. O MCAT, o exame de admissão para escolas de medicina americanas, foi o maior desafio. Estudei por meses, equilibrando turnos no hospital com horas de leitura e simulados. Quando recebi minha pontuação — 40, uma nota que ainda me parece um milagre —, senti um misto de alívio e incredulidade. Era como se o universo tivesse me dado um sinal de que eu estava no caminho certo.
Em outubro de 2000, submeti minha candidatura pelo AMCAS, o sistema que organiza as aplicações para escolas de medicina nos Estados Unidos. Escrever o ensaio pessoal foi como abrir meu coração. Falei das crianças que vi sofrerem em notícias de conflitos distantes, de como suas histórias me fizeram querer ser mais do que uma enfermeira. Organizei cada detalhe com cuidado: cartas de recomendação de colegas do hospital, que viram minha dedicação nos corredores lotados de Nice; históricos acadêmicos traduzidos e validados, um processo que testou minha paciência; o TOEFL, para provar que meu inglês estava à altura do desafio. Cada passo era um obstáculo, mas também uma promessa a mim mesma de que eu não desistiria.
No início deste ano, viajei para Boston para a entrevista na Harvard Medical School. Nunca vou esquecer o momento em que pisei no campus, Jacques. A Longwood Medical Area, com seus prédios imponentes e a energia pulsante de estudantes e médicos, parecia um mundo à parte. O frio cortante de Boston, o vapor saindo da minha boca enquanto caminhava, o nervosismo que fazia meu coração bater mais rápido — tudo isso ficou gravado em mim. Durante a entrevista, falei com paixão sobre por que queria ser médica, sobre como cada paciente que cuidei me ensinou algo sobre resiliência e esperança. Quando voltei para Nice, carregava uma mistura de ansiedade e fé.
Então, em abril, a carta chegou. Era um dia comum, com o sol brilhando no Mediterrâneo e o som das gaivotas lá fora. Abri o envelope com cuidado, como se fosse algo sagrado. As palavras “We are pleased to offer you admission” fizeram meu coração parar. Chorei, Jacques. Chorei de alívio, de alegria, de gratidão por todos que cruzaram meu caminho e me trouxeram até aqui. Saber que, enquanto Larah estava em Istambul, descobrindo o mundo com você e Claire, eu recebia essa notícia, pareceu um presente do destino. Era como se, mesmo tão longe, estivéssemos conectados.
Em agosto, me mudarei para Boston, onde ficarei no 107 Avenue Louis Pasteur, a poucos passos da Harvard Medical School. É um apartamento pequeno, mas confortável, perfeito para uma estudante que passará mais tempo entre livros e hospitais do que em casa. As aulas começam em setembro, e o curso será uma jornada intensa de quatro anos, até junho de 2005. Sei que exigirá todo o meu foco, cada gota da minha energia. Nos próximos anos, estarei imersa nesse novo mundo, aprendendo a ciência e a arte de salvar vidas. Isso significa que estarei menos acessível, mas meu coração nunca estará longe de vocês. Prometo escrever sempre que puder, compartilhando pedaços dessa jornada. Espero que vocês também escrevam para mim, Jacques. Saber de Larah, de como ela cresce, ri e sonha, será minha âncora. Enviem suas cartas para o endereço em Boston — mal posso esperar para abrir cada uma delas e sentir vocês mais perto.
Penso em Larah todos os dias. Na minha mente, vejo ela correndo pela praia de Jurerê, com os cabelos soltos ao vento, desenhando na areia ou inventando histórias que só uma criança de sete anos pode criar. Às vezes, fecho os olhos e ouço sua risada, aquele som que enche qualquer espaço de luz. Sei que você e Claire estão dando a ela um lar cheio de amor, e não há palavras para expressar minha gratidão por isso. Quando você contar a Larah sobre Harvard, sei que fará com carinho, talvez enquanto ela desenha ou toma um sorvete. Diga a ela que estou seguindo meu sonho, que penso nela a cada passo, e que um dia, quando essa jornada terminar, quero abraçá-la e ouvir todas as suas aventuras.
Nice tem sido meu refúgio, mas também um lembrete do que deixei para trás. Caminho pelas ruas de paralelepípedos, passo pelo mercado de flores na Cours Saleya, e cada esquina me faz pensar em Florianópolis — no calor, no som das ondas, na vida que Larah está construindo com vocês. Esta carta é mais do que uma notícia, Jacques. É um pedaço de mim, uma forma de dizer que, mesmo tão longe, vocês estão comigo. Escreverei sempre que o tempo permitir, e cada carta será uma ponte entre nós. Espero que Larah, com seus lápis de cor, escreva para mim também, nem que seja uma linha ou um desenho. Guardarei cada palavra como um tesouro.
Enquanto me preparo para essa nova fase, sinto uma mistura de excitação e saudade. Harvard é um sonho, mas Larah é meu coração. Você, Claire e ela são minha família, e saber que estão aí, construindo uma vida cheia de amor, me dá força para enfrentar o que vem pela frente. Escrevam para mim, Jacques. Contem-me sobre Larah, sobre Florianópolis, sobre os pequenos momentos que fazem a vida especial. E, quando o tempo permitir, nos encontraremos novamente — talvez com a brisa do mar ao fundo, como nos velhos tempos.
Com todo o meu carinho, Mei Yang