Donetsk, 14 de Março de 1994
Escrevo no meu quarto, sob uma lâmpada que pisca com um zumbido constante. O vento entra pela janela mal fechada, trazendo um frio que corta os dedos e o cheiro de diesel da rua. O ar aqui tem um peso, misturado com mofo, que faz o peito apertar. Ouço passos pesados lá fora, botas ecoando na calçada, como se esta cidade nunca descansasse. Donetsk carrega um cheiro de carvão úmido e algo mais, uma tensão que nasce do abandono. Cheguei a Kiev ontem. No saguão do aeroporto, Ivan Kovalenko me esperava, um ucraniano de olhos fundos e rosto marcado. Ivan é o homem que escolhi para ser meus olhos e ouvidos. Viajamos doze horas até Donetsk, passando por fábricas paradas e vilas fantasmas. Meu hotel é uma relíquia soviética. A cama range e a janela mostra uma rua onde cachorros reviram latas de lixo. Donetsk é uma cidade dividida: prédios antigos misturam-se a mercados improvisados. Falam de greves nas minas e de bandidos armados nas estradas. Nossa ONG presta apoio humanitário, mas sinto que é pouco.
15 de Março
Acordei com um estrondo distante, provavelmente um acidente em mina de carvão. Ivan bateu na porta. — A vila a leste fica a poucos quilômetros — disse, em tom de aviso.
O Lada rangeu por estradas cheias de buracos até chegarmos a casas de madeira caindo aos pedaços. Entreguei uma caixa de remédios a uma mulher de olhos cansados; ela murmurou "spasiba", o filho magro agarrado à mão dela. Eles têm tão pouco, mas uma força enorme.
Mais tarde, num celeiro coberto de musgo, a atmosfera mudou. Um homem de barba rala, com um casaco militar velho, abriu uma sacola de lona. Vi um reflexo metálico, algo que carregava o peso de séculos. Ivan trocou palavras em ucraniano e fomos embora. O silêncio entre nós era denso.
20 de Março
Já estou imerso numa rotina de entregas. Conheci Petro Marchenko numa vila remota, um ex-piloto soviético com mãos trêmulas. Bebíamos horilka numa mesa improvisada. Petro mencionou rotas aéreas que poucos usam. Perguntei a Ivan sobre os rumores de conflitos e as máfias locais. — Aqui, sempre tem guerra, de um jeito ou de outro — ele disse.
25 de Março
Fomos a uma vila onde o silêncio pesava mais que o frio. Nadia Shevchenko, uma parteira idosa, pediu remédios e me levou até uma jovem grávida, pálida na cama. O quarto cheirava a ervas. Na volta, Ivan me contou que a jovem se chamava Oksana e estava sozinha. — Ninguém vive fácil aqui — murmurou ele.
1º de Abril
Donetsk amanheceu mais pesada. Vi homens suspeitos numa esquina; Ivan disse que são bandidos usando o caos pós-greves. Em Horlivka, uma menina de tranças loiras, Sofia, me deu uma flor murcha em troca da sopa. O sorriso dela contrastava com a sujeira do rosto. Depois, num armazém com cheiro de madeira podre, um homem com cicatrizes mostrou um relógio de parede com letras em cirílico. — Volte sempre — disse ele, com um sorriso torto.
7 de Abril
O cansaço já toma conta. Em Pisky, numa escola precária, um menino chamado Mykola escreveu seu nome num caderno novo e me mostrou, orgulhoso. À noite, a atmosfera mudou novamente. Ivan me levou a uma casa abandonada. Um ex-soldado mostrou uma adaga antiga com pedras no cabo. Quando a peguei, ele alertou: — As coisas vão piorar. Amanhã, volto à vila de Nadia. Ivan disse que Oksana piorou. Hoje, num mercado, vi um colar de pérolas numa banca. O vendedor, Bohdan Tkachenko, jurou que era "de sua família".
Donetsk, 15 de Abril de 1994
O vento sacode a janela, trazendo um frio que corta a pele, e a lâmpada no teto pisca, como se estivesse tão cansada quanto eu. Acordei cedo, com o peso de Donetsk na cabeça. Em Nice, o dia começava com o aroma de lavanda e o som das gaivotas. Aqui, cada amanhecer é uma luta. Vesti o casaco, desci as escadas rangentes e encontrei Ivan Kovalenko e Elena Petrova, prontos para mais um dia com a ONG.
Entramos no Lada, os pneus chiando no asfalto quebrado. Ivan dirigia, acendendo um cigarro, o cheiro de tabaco velho misturando-se ao ar frio. Seus olhos fundos varriam a estrada, como se conhecesse cada sombra.
— Vila a 20 quilômetros — disse, a voz curta, sem espaço para conversa.
Elena, no banco de trás, organizava caixas de remédios, os cabelos castanhos presos num lenço simples, as mãos rápidas apesar do cansaço. O Lada sacudia nos buracos, o motor rugindo contra a neblina fina da manhã. Os voluntários seguiam atrás em um UAZ, todos nós cortando o frio de 8 °C que parecia não acabar.
Chegamos à vila, um grupo de casas de madeira tortas sob um céu pesado. O chão, coberto de terra e folhas, grudava nas botas, e o ar cheirava a lenha queimada. Uma igreja com a cúpula quebrada aparecia ao fundo, quase sumindo na neblina. A vila estava quieta, com poucas luzes nas janelas e fumaça subindo de fogueiras improvisadas. Não havia vozes nem rádios, apenas o silêncio de um lugar que mal sobrevivia.
Descarregamos caixas de cobertores e remédios, o som dos pacotes cortando o ar. Elena pegou sua bolsa de remédios e foi com Nadia Shevchenko, a parteira, até uma casa onde Oksana estava em trabalho de parto. Ivan ficou comigo, os olhos atentos, como se esperasse algo. Organizei as caixas, o frio pesando nos ombros, uma tensão que eu não sabia explicar.
Elena voltou minutos depois com o rosto pálido e os olhos úmidos. Trazia a bolsa de remédios apertada contra o peito e, na outra mão, segurava um maço de papéis amarelados, amarrados com um barbante sujo. Parecia um caderno escolar velho, quase desfeito pela umidade.
— O que é isso? — perguntei, apontando para o entulho em sua mão.
Elena hesitou por um segundo, olhando para os papéis como se fossem vidro. Depois, guardou-os rápido no bolso fundo do casaco.
— Nada — respondeu, a voz trêmula. — Só... memórias. Ela não tinha mais nada.
Não insisti. Lixo sentimental não me interessava, e tínhamos problemas maiores.
— A jovem mãe morreu de hemorragia — Elena continuou, recuperando a postura profissional, embora a voz falhasse. — Sem chance de ajuda numa vila sem médicos. O marido dela, Dmytro, já estava morto, vítima de bandidos semanas antes. A filha deles, porém, nasceu viva.
A notícia me atingiu como o frio, pesada e sem aviso. Nadia correu até mim, segurando a bebê embrulhada num pano sujo. Seus cabelos grisalhos escapavam do lenço, e um pingente de cruz brilhava em seu peito, refletindo a luz fraca do amanhecer. Seus olhos azuis, duros como o inverno, encontraram os meus.
— A mãe morreu, o pai também — disse, com a voz cansada. — O orfanato em Donetsk não tem espaço. Ela precisa de vocês.
A bebê, com olhos azuis brilhando na palidez, chorava baixo, e algo em mim quebrou. Nunca segurei uma bebê antes; nunca senti um peso tão pequeno e tão grande. Nadia a abençoou dizendo "Larah", tirou o pingente do próprio pescoço e o colocou na bebê.
Elena, agora ao meu lado, tocou de leve o ombro da criança, lágrimas caindo. Os olhos dela, tão vivos, estavam fixos em mim. Elena olhou para a bebê e disse, com um sorriso torto e a voz cheia de esperança:
— Podemos cuidar dela.
Ivan cortou, seco:
— Não, Elena. Deixe a bebê aqui. É o lugar dela.
Seus olhos duros a calaram, numa ordem que não dava espaço. Nesse momento, embrulhei a bebê no meu casaco, o calor dela contra meu peito selando algo que eu não entendia.
— Ela vai conosco — eu disse.
Elena assentiu, aliviada, e vi sua mão tocar o bolso do casaco onde guardara os papéis, como se conferisse se o segredo — qualquer que fosse — ainda estava lá. Rapidamente, preparou uma mamadeira com o leite que levávamos para doações. Entreguei a bebê a Elena enquanto Nadia voltava para a casa. Olhei o relógio: seis da manhã.
Donetsk, 15 de Abril de 1994
A vila começava a acordar num murmúrio lento. As fogueiras cresciam, e um mercado improvisado surgia no centro. Uma mulher trocava batatas por uma vela usada, o cheiro azedo de horilka caseira no ar. Um homem, com um casaco de lã gasto e chapéu torto, oferecia um relógio velho por botas furadas, o rosto marcado pelo frio. Mulheres com lenços desbotados carregavam filhos magros, as mãos rachadas, sem nenhum traço de vaidade. Nossos cobertores e latas de sopa eram como ouro. Outros voluntários distribuíam suprimentos. Elena segurava a bebê junto ao peito, envolta em panos grossos. A pequena respirava curto, um som frágil que contrastava com a dureza ao redor. O pingente de cruz que Nadia colocara nela balançava levemente a cada movimento de Elena. Ivan caminhava pela vila, atento, ouvindo fragmentos de conversa em voz baixa, sempre olhando além das pessoas — para as estradas, para o horizonte. Quando derrepente Ivan ficou imóvel, o rosto voltado para o sul. Depois, abaixou-se e tocou a poeira da estrada com dois dedos. Tem coisa vindo — disse, sem elevar a voz. Não houve tempo para perguntas. O som chegou logo depois: motores desregulados, gritos distantes, o eco metálico de tiros disparados para o alto. Caminhonetes surgiram na linha de árvores, avançando rápido demais para serem curiosidade. Bandidos vindo em nossa direção. A vila entrou em pânico. Mulheres puxaram bebês para dentro das casas, panelas caíram no chão, voluntários largaram caixas abertas. Elena correu até mim, protegendo a bebê. Ivan correu até o UAZ e saltou para o banco do motorista. Entramos logo atrás dele; ajudei Elena a subir com a bebê e me joguei no banco do carona. Ivan arrancou em direção oposta, jogando o UAZ para uma trilha de terra estreita, quase invisível entre o mato seco. O primeiro tiro acertou a lateral de uma casa atrás de nós, levantando farpas de madeira. Outro passou alto demais, um zunido que se perdeu no vento. A estrada era um castigo. Buracos, pedras soltas, lama recente. O UAZ sacudia como se fosse se desmontar. A bebê começou a chorar, assustada pelo barulho e pelos solavancos. Inclinei o corpo sobre ela, protegendo-a com o braço, sentindo o coração pequeno bater rápido demais. Ivan dirigia em silêncio, os nós dos dedos brancos no volante. Ele disse vamos para o Aeródromo de Kramatorsk sem me olhar. Eu concordei. A vila ficou para trás, engolida pela poeira. Depois, nada além da estrada.
Aeródromo de Kramatorsk, 15 de abril de 1994
O relógio marcava pouco depois das nove. O aeródromo surgia no meio da planície como um cadáver esquecido. A pista de concreto estava rachada, coberta por poças antigas e marcas de pneus que ninguém se deu ao trabalho de apagar. Hangares desabados se alinhavam ao fundo, e carcaças de aviões soviéticos enferrujavam sob o mato alto, como ossos expostos ao tempo.
Ivan estacionou o UAZ atrás de um galpão semi-caído, fora da linha direta da pista. O motor ainda vibrava quando ele desligou. Ficamos em silêncio por alguns segundos, ouvindo apenas o vento e, ao longe, o eco de motores que já não nos seguiam de perto — mas também não haviam desistido.
Elena desceu primeiro, protegendo a bebê com cuidado. A bebê estava quieta, envolta em panos grossos. O rosto de Elena estava tenso, mas firme. Ela não perguntou nada. Apenas fez o que precisava ser feito.
Eu desci em seguida, avaliando o espaço, a pista, as rotas de saída. Não havia controle algum ali. Nenhuma torre ativa. Nenhum rádio confiável. Isso era bom. Lugares assim não fazem perguntas. — Ali — disse Ivan, apontando. No centro da pista, como se tivesse sido deixado ali por engano, estava o Antonov An-2. Grande demais, antigo demais, feio demais para inspirar confiança. Um biplano verde-oliva, com a pintura descascada e manchas de óleo marcando a fuselagem. As asas rangiam sob o vento frio. Um homem fumava encostado no trem de pouso. Baixo, ombros largos, rosto marcado por cicatrizes antigas. Petro Marchenko. Eu o reconheci na hora. Bebemos horilka há poucos dias e algumas histórias que prefiro não contar. Ivan foi até ele. Conversaram em ucraniano, rápido e baixo. Petro olhou para mim apenas uma vez, o suficiente para me medir. Não parecia impressionado. Melhor assim. — Ele voa — Ivan disse, voltando. — Baixo, fora das rotas. Até Lviv. — Quanto tempo no ar? — perguntei. — O necessário. Caminhei até Petro. Ele jogou o cigarro no chão e apagou com a bota. — Combustível não está barato — disse, em inglês rudimentar. Abri a bolsa, tirei o maço de notas e coloquei na mão dele sem contar ali mesmo. — Isso é para decolar agora — falei. — O restante, quando pousarmos. Petro pesou o dinheiro, avaliando não o valor, mas a minha calma. Depois assentiu. — Subam. Um estalo seco ecoou perto do galpão. Um tiro. Não perto o suficiente para acertar, mas próximo o bastante para avisar. — Agora — disse Ivan. Elena subiu primeiro pela escada metálica, com a bebê junto ao peito. Eu passei a mochila, subi logo atrás. Ivan foi o último, puxando a escada e fechando a porta pesada com um baque surdo. O interior do Antonov era pior do que parecia por fora. Cheiro de querosene, graxa velha e metal úmido. Bancos de metal presos às laterais, caixas de carga amarradas com cordas gastas. Nada ali fora feito para conforto. Tudo era funcional — ou já tinha sido, um dia. Elena sentou-se e ajeitou a bebê com cuidado, protegendo-a do frio. A bebê abriu os olhos por um instante, depois voltou a dormir, como se o barulho fosse apenas parte do mundo. O motor radial começou a girar, tossindo antes de ganhar força. O barulho era brutal, fazendo o corpo vibrar por dentro. O avião começou a se mover, lento, pesado. Outro tiro. Depois mais um. O Antonov correu pela pista esburacada, sacudindo como se fosse se desmontar. Por um segundo longo demais, tive certeza de que não sairíamos do chão. Então, com um solavanco violento, o avião se desprendeu da terra. Subimos devagar, relutantes, como se o ar não nos quisesse ali. A pista ficou menor. Os hangares viraram manchas. Os tiros desapareceram no vento. Só então respirei fundo. Elena manteve os olhos na bebê, murmurando algo baixo, talvez uma oração. Ivan observava pela pequena janela lateral, atento até mesmo agora, como se o perigo pudesse voar atrás de nós. O voo seguia áspero. O Antonov tremia com cada corrente de ar, e o motor rugia sem piedade. Não havia conforto, apenas resistência. Depois de algum tempo, Elena ergueu os olhos para mim. — Cheng — disse, quase gritando para vencer o barulho. — Precisamos dar um nome a ela. Olhei para a bebê. Pequena demais para tudo aquilo. Forte demais para não ter sobrevivido. — O que Nadia disse? — perguntei. Elena hesitou por um instante, lembrando. — Ela a abençoou — respondeu. — Chamou de *Larah*. Disse que significa fortaleza. Fiquei em silêncio. O avião sacudiu outra vez. — Então é isso — falei. — Larah. Elena sorriu, cansada, mas aliviada. A bebê se mexeu levemente, como se aceitasse o som. Lá fora, abaixo das nuvens, a Ucrânia passava em silêncio. Vilas, campos, estradas quebradas. Tudo ficando para trás. Eu não sabia ainda o que Larah seria para o mundo. Mas sabia exatamente o que ela era para mim.
Aterrissamos em Lviv pouco depois das duas da tarde. O Antonov tocou o chão com um impacto seco, fazendo a fuselagem gemer como um animal velho que finalmente aceita parar. O motor foi silenciado e, por um instante, tudo ficou quieto demais. O vento varria a pista improvisada, trazendo o cheiro de grama úmida e terra fresca — um contraste quase cruel depois de dias respirando querosene, poeira e medo. Larah dormia tranquila, embrulhada em panos grossos nos braços de Elena. O rosto pequeno estava relaxado, os lábios entreabertos, como se o mundo ainda não tivesse aprendido a feri-la. Aquilo me atingiu com força. Sobrevivemos. Não por sorte — por escolha. Descemos do avião sem pressa. Petro já não nos observava; estava ocupado demais contando dinheiro e cuidando para que ninguém fizesse perguntas. O acordo terminara ali. Petro sabia exatamente quando não falar. Ivan caminhou alguns passos à frente, avaliando o entorno com o mesmo olhar de sempre — atento, frio, prático. Elena levou Larah para uma sala de serviço próxima ao hangar e, com cuidado meticuloso, limpou-a e a preparou para a viagem, como quem apaga um rastro. Envolveu-a em panos limpos, secos e macios, depois a alimentou em silêncio. Quando terminou, Larah dormia profundamente. Elena veio até mim, respirou fundo e então, sem cerimônia, estendeu a bebê. Segurei Larah com cuidado. O peso dela encaixou contra meu peito como se sempre tivesse pertencido ali. Elena tocou de leve o rosto da menina, desta vez sem lágrimas. Apenas decisão. Inclinou-se e beijou a testa de Larah uma única vez — longa o suficiente para dizer tudo o que não precisava ser dito.
Ivan se aproximou. Não olhou para Larah; olhou para mim. Seus olhos diziam o que a boca não costumava permitir. — E agora, eu assumo tudo aqui? Respondi. — Sim. Eu confio em você. Ele assentiu uma única vez. Depois pousou a mão pesada no meu ombro. — Não olhe para trás, Cheng. Ele ficaria. Eu partiria. Cada um carregaria seu próprio peso. À distância, o Learjet 35 aguardava na pista secundária. Pequeno, elegante, deslocado naquele cenário de concreto rachado e hangares em ruínas. Ao lado da escada, um homem de sobretudo escuro observava o céu como se o mundo fosse sempre um mapa em movimento. Julien Moreau. Sorriu quando me viu se aproximar, mas o sorriso vacilou por um instante ao notar o que eu carregava. Não surpresa — cálculo. Julien era bom nisso. — Vejo que você trouxe algo que não estava no plano — disse, com a voz calma de quem prefere entender antes de julgar. — Mudei o plano — respondi. — E você vai me ajudar a sustentá-lo. Julien olhou para Larah. Os olhos azuis da bebê se abriram por um segundo, claros demais, profundos demais para algo tão pequeno. Ele expirou lentamente. — Certo — disse apenas. — Então vamos fazer isso direito. Enquanto os mecânicos checavam a aeronave, Ivan sorriu de lado, quase imperceptível. — Então está feito. A despedida não teve abraços longos nem promessas. Apenas acenos firmes. Pessoas como nós não dramatizam o que já dói o suficiente. Subi no Learjet com Larah nos braços. Julien fechou a porta atrás de nós e tomou o assento oposto, ajustando os cintos com tranquilidade. — Preciso de algumas horas — disse ele, enquanto ligava os sistemas. — Não para fazer perguntas. Para resolver coisas. — Você vai ter — respondi. O jato ganhou velocidade com suavidade, destacando-se do chão como se nunca tivesse pertencido àquele lugar. Lá embaixo, Lviv encolheu rápido. Depois, apenas nuvens. A cabine era silenciosa, confortável demais para quem acabara de sair do inferno. Segurei Larah com cuidado. Os olhos dela se abriram outra vez. Azuis. Não um azul comum — havia profundidade ali, algo que prendia o olhar. Julien percebeu, mas ficou em silencio. O Mediterrâneo ainda estava longe, mas já podia senti-lo. O passado de Larah ficava para trás, dissolvido entre pistas abandonadas e vilas sem nome. Ela se mexeu levemente em meus braços, como se entendesse que algo havia mudado. — Seu nome é Larah — murmurei. — E ninguém vai tirar isso de você. O Learjet seguiu firme rumo ao oeste. Antes da noite, estaríamos em casa.
Um novo lar para Larah
Aterrissamos num aeródromo privado nos arredores de Nice às sete e meia da noite. O impacto foi suave demais para quem vinha de pistas improvisadas e aviões sucateados. Quando os motores silenciaram, o ar entrou limpo pela escada aberta — lavanda, mimosas, sal do mar distante. Um cheiro de primavera que parecia quase indecente depois de tudo que ficara para trás. Desci do jato com Larah protegida sob o casaco. O peso dela era pequeno, mas absoluto. O céu de Nice estava limpo, tingido de azul profundo, e o Mediterrâneo brilhava ao longe como algo que sempre existira, indiferente a conflitos e acordos quebrados. Julien Moreau desligou os sistemas e ficou alguns segundos sentado, como se respeitasse o momento. Mei esperava no asfalto, ao lado da grade cromada do carro preto que reluzia sob o sol do Côte d'Azur. O motorista aguardava em silêncio. Julien havia ligado para ela ainda em voo, antecipando nossa volta da Ucrânia, e notei a expectativa nos olhos dela — tão parecidos com os de nossa mãe. Contudo, quando o olhar de Mei cruzou com o de Larah, o sorriso de boas-vindas morreu instantaneamente. — Quem é? — perguntou, baixo, já se aproximando. Sem dizer nada, entreguei Larah a ela. Mei a segurou com cuidado e curiosidade. Entrou no carro. Eu a segui em silêncio. Sentei ao seu lado. O cheiro de combustível misturava-se ao das oliveiras ao redor. Nice parecia um cenário artificial depois de Donetsk — limpa demais, silenciosa demais. O contraste quase feria. Pensei nos olhos azuis de Larah, no instante em que os vi pela primeira vez, e em como aquele olhar tinha atravessado tudo. O motorista nos levou para casa. Durante a viagem, Mei me disse: — Ela está bem. — E completou, sem tirar os olhos dela: — Agora você vai me contar? Contei o que ela precisava saber, apenas o suficiente: a vila, a ONG, a fuga, o nascimento, a morte da mãe. Falei de Ivan, de Elena, de como aquela criança mudou o que havia sido planejado para aquele dia. Mei ouviu sem interromper, o olhar firme. — Você fez o que nossa mãe faria — disse por fim, tocando minha mão. Assenti. Seguimos para a mansão da família Yang, à beira-mar. Chegamos pouco depois das oito. O jardim de lavandas e oliveiras estava prateado pela lua, e o canto dos grilos parecia ensaiado. A casa cheirava a jasmim e madeira encerada. Luxuosa, silenciosa. Mei improvisou uma cesta com cobertores macios e acomodou Larah na sala, perto da lareira. Depois preparou chá de jasmim e sentamos à mesa da cozinha. — Ela não pode voltar para a Ucrânia — disse, objetiva. — E sem documentos, não pode existir em lugar nenhum.
— Eu sei. Larah dormia. Pequena demais para entender que sua história já estava sendo reescrita. — Ela será registrada aqui. Em Nice. Mei me olhou por alguns segundos. — A hora do nascimento: seis da manhã. Mei assentiu. Entendeu que aquilo era importante. Julien, durante o voo, já havia ligado para Pierre Dupont, administrador do hospital Lenval. Pierre chegou às nove. Veio acompanhado de um médico que não fez perguntas desnecessárias. À luz dos candelabros da sala principal, o atestado foi preenchido: Larah Yang. Nascida em 15 de abril de 1994, às 06:00, em Nice, França. Antes de sair, recolhi do bolso interno do casaco um pequeno objeto embrulhado em pano. A correntinha. Fina, simples, quase nada. Guardei-a novamente, agora em local seguro. A Ucrânia tornou-se passado naquele instante. Pierre guardou o envelope no bolso do casaco e saiu com a promessa de que o registro estaria no cartório em dois dias. Às dez da noite, Larah existia oficialmente. Mei estava cuidando dela, ajeitando os cobertores. — Ela vai precisar de tudo — disse. — Fraldas, roupas, uma cama de verdade. Amanhã resolvo isso.
Sentamos na varanda. O mar refletia a lua como uma superfície de vidro. Dormimos pouco naquela noite. Fiquei no sofá da sala, perto da cesta. O som das ondas me embalou por algumas horas. Acordei com o choro de Larah já de manhã. Mei estava ajoelhada ao lado dela, trocando-a com cuidado. — Ela é forte — disse, sorrindo.
O cheiro de café e croissants encheu a casa. O dia começou com listas, telefonemas, compras. Um quarto foi preparado. Uma vida começou a se organizar em torno de algo frágil e definitivo. Segurei Larah enquanto Mei preparava o banho, observando seu rosto tranquilo. Seis da manhã. Eu lembrava do relógio. Sempre lembraria.
Um Futuro no Silêncio
Os dias após nossa chegada foram um borrão. Pierre Dupont confirmou o registro de Larah dois dias depois. A mansão, com seus muros altos e vista para o Mediterrâneo, tornou-se nosso refúgio. Mei dedicou-se inteiramente a Larah, enquanto eu cuidava dos negócios da família. Por diversas vezes, observei Mei alimentar Larah — seus olhos azuis brilhando — e senti alívio. Ela raramente chorava, e Mei, com uma melodia suave em cantonês, a acalmava no jardim, onde o cheiro de jasmim se misturava ao sal do mar. Nice, com seus cafés na Promenade des Anglais e o aroma constante de crêpes, parecia distante. Durante esse tempo, Larah crescia feliz. Parti em maio para viagens de negócios e retornei em julho, sob o calor de 28 °C. Larah engatinhava pelo tapete da sala, rindo quando Mei a perseguia. Toquei sua mão — uma pequena chama de vida que agora eu tinha o privilégio de conviver. Minha vida era feita de transações e negociações em Hong Kong e Bangkok. Ainda assim, Larah tornara-se o que eu tinha de mais precioso, e eu procurava, à minha maneira, ser o melhor possível para ela. Ao regressar em setembro, ela já dava passos hesitantes, caindo entre risos no pátio. Mei sorria, orgulhosa, e eu, de longe, assistia a tudo com incredulidade — mas com a certeza silenciosa de que tinha feito a coisa certa. Em fevereiro, o Carnaval pulsava em Nice. Confetes surgiam nas calçadas, e o som distante de música subia da Promenade. Dentro da mansão, o ritmo era outro — mais lento, marcado pelo balbucio de Larah e pelo canto das gaivotas. Mei a levava ao jardim num carrinho, onde o perfume de lavanda a fazia apontar flores. Larah dizia “mamã” para Mei, misturando francês e cantonês, e espalhava papinha, sujando o avental dela. Eu gostava de vê-la brincar com blocos de madeira, empilhando-os na sala; sua energia me fazia sorrir. A mansão tinha empregados suficientes para cuidar de Larah, mas Mei recusava ajuda. Dizia não confiar em mãos estranhas para isso. Eu não insistia. Nunca fui bom em discutir cuidados ou rotinas. Mei insistia para que eu brincasse com Larah. Eu até tentava, mas era desajeitado. Minha vida nunca fora feita para isso. Viajei ao Cairo em março, por duas semanas, e a Paris em junho, por um mês, em compromissos de negócios. A cada retorno, Larah parecia mais autônoma. Em agosto, sob o calor de 30 °C, corria pelo pátio, caía na grama e chegou a ralar o joelho. O som do mar, misturado ao canto de Mei, enchia a mansão. Naquela altura, a Ucrânia já não fazia parte da vida de Larah. Parti novamente para Bangkok em novembro, por três meses, e, ao voltar, Larah apontava gaivotas no céu, rindo alto. Larah e eu sempre tínhamos nossos momentos; com Mei eram brincadeiras e risos, comigo tudo era mais silencioso. Eu gostava de observá-la. Durante o Festival de Jazz, em julho, o som distante de trompetes chegava fraco até a mansão. Larah, com dois anos, falava frases curtas ao ver as lavandas. Mei lia contos, e Larah, sentada no tapete, ouvia com os olhos brilhantes. Brincava com bonecas de pano, correndo pelo jardim, onde o cheiro de sal e oliveiras a envolvia. Mei ensinava cores, e Larah apontava o azul do mar, sorrindo. Ao retornar de Milão em abril, passei algum tempo com ela e senti orgulho ao vê-la crescer. Era saudável, feliz, e Mei era tudo o que ela precisava. Entre maio e setembro, fiz negócios em Dubai e Londres, onde o ouro e as leis se misturam. Um aviso anônimo me deixou atento: “Você está chamando atenção. Tem gente grande de olho em você.” Reforcei a segurança da mansão com guardas discretos. Larah continuava saudável e protegida. Mei, com sua paciência, era a âncora que eu não podia ser. Ao voltar de Genebra em dezembro, sob o frio de 10 °C, Larah veio correndo me receber com um abraço quente. Em janeiro 1997, o aroma de socca pairava nas ruelas do Vieux Nice, mas a mansão permanecia um mundo à parte. Larah, com três anos, corria pelo pátio, desenhando com giz na pedra. Inventava histórias sobre borboletas que via no jardim. Mei a ensinava a contar, e Larah recitava números, rindo quando errava. O som das ondas, misturado ao perfume de jasmim, compunha seu cenário. Observei-a brincar de boneca ao voltar de Istambul em março, após um mês fora. Seus olhos azuis, brilhando como o Mediterrâneo, me desarmavam. Mei dizia que Larah perguntava por mim — e isso me deixava em silêncio por mais tempo do que eu admitia. Minhas viagens, porém, não podiam parar. Passei por Nova York em maio e Tóquio em agosto; fiquei longe por tempo demais. Em novembro, um homem me procurou na mansão, e isso me deixou atento. Mei continuava cuidando de Larah com a mesma dedicação silenciosa. Em dezembro, decidi ficar mais tempo em casa. A cidade se iluminava para o Natal — guirlandas nas varandas vizinhas, luzes refletidas no mar, o cheiro distante de castanhas assadas vindo das ruas. Dentro da mansão, Mei improvisou pequenos enfeites, mais por delicadeza do que por tradição. Larah desenhou uma casa com giz no pátio e disse que era “nossa”. Sorriu ao apontar uma estrela torta sobre o telhado. O brilho em seus olhos tinha algo de definitivo, como se aquele instante se gravasse sem pedir permissão. Voltei de uma viagem longa em abril de 1998, com o cheiro de mimosas enchendo o ar. Larah fez quatro anos no dia 15. Mei planejou uma celebração simples, quase discreta demais para ser chamada de festa — um bolo caseiro cujo aroma inundou a cozinha. Larah corria entre as lavandas do jardim, rindo, com um vestido de linho branco escolhido naquela manhã. Mei trouxe uma câmera compacta, normalmente guardada na biblioteca. — Para lembrar — disse, ajustando a lente. Começou com fotos de Larah sozinha, os dedos sujos de cobertura, rindo sem saber para onde olhar. Depois pediu que eu ficasse. Relutei por um instante, mas obedeci. Posicionou-nos entre as flores, o mar azul ao fundo. Em algumas imagens, Larah estava entre nós; em outras, apenas Mei e ela. Houve mais de um clique. Em uma das fotos, Larah sorriu diretamente para a câmera, os olhos claros brilhando — e naquele instante, algo que ainda não sabíamos nomear ficou registrado em silêncio. Fui a Pequim em julho, por dois meses, e retornei em setembro. Quando cheguei, Larah cantava músicas com Mei na sala. Ao me ver, largou tudo e veio correndo me abraçar, sem hesitar. Ao longo do dia, observei-a desenhar conchas no pátio, concentrada, e percebi como se encantava com o som das gaivotas cruzando o céu. Mais tarde, brincou de boneca à sombra da varanda, inventando diálogos que só ela compreendia. Mei a ensinava francês com paciência, e Larah já recitava pequenos poemas, rindo ao errar as palavras, sob o calor ameno de setembro, de 25 °C. Um momento ficou comigo. Larah apontou para o alto, acompanhando o voo de uma borboleta, e disse, com convicção tranquila: — Voa alto. Sorri. Não por acaso — mas porque, sem saber, ela descrevia exatamente o que eu desejava para ela.
Promessa à Distância
Ivan escreveu no início de dezembro. A letra era firme, como sempre, mas havia pausas estranhas entre as frases, como se tivesse pesado cada palavra antes de deixá-la no papel. Disse que continuavam no leste, ajudando onde ainda era possível. Que as estradas estavam mais perigosas, que vilas inteiras haviam sido esvaziadas depois de confrontos entre grupos armados. Que o medo agora não vinha com aviso — apenas se instalava. Falou de Elena. Disse que ela recusara sair quando teve a chance. Que assumira os atendimentos de emergência e organizava rotas improvisadas para levar crianças e mulheres a cidades menores, menos expostas. Ela não sabe ficar parada quando ainda há alguém precisando, escreveu, sem julgamento. Mencionou Nadia. A parteira havia se juntado aos voluntários da ONG e agora cuidava de recém-nascidos cujas mães não puderam ficar. Alguns nem têm nome ainda, acrescentou, quase como um pensamento tardio. Só então mudou o tom. Contou que, durante uma noite de bebida em Dnipro, ouvira homens falando de antiguidades, rotas antigas, peças que nunca chegaram a museus. Não eram locais. Falavam francês, inglês, um pouco de russo. Um deles mencionou o chinês. Disse que era cuidadoso demais para ser coincidência. Disseram que você acredita estar protegido atrás de muros e vista para o mar, escreveu. Riram disso. Ivan não fez ameaças. Nunca fazia. Apenas concluiu: Há mais caçadores agora. Alguns começaram aqui. Outros seguem rastros antigos. E quando alguém começa a fazer perguntas, não importa em que país você esteja. No final, quase como um detalhe prático, escreveu: Petro continua sendo meu homem de confiança para as próximas remessas de “relíquias”, como você gosta de chamar. Se algo mudar, aviso antes. Dobrei a carta com cuidado excessivo e fiquei algum tempo olhando o mar pela janela do escritório. Nice sempre parecera distante do mundo real — limpa, silenciosa, protegida por hábitos e dinheiro. Mas Ivan não escrevia rumores. Nunca escrevera. Pela primeira vez, pensei em Mei e Larah não como parte da minha vida, mas como alvos possíveis. E isso bastou. Na manhã seguinte, Larah brincava no tapete da sala com uma boneca nova, murmurando palavras que só ela entendia. Observei por alguns instantes antes de chamar Mei ao escritório. Fechei a porta com cuidado. Falei de forma simples, sem alarmes — disse que alguns problemas antigos estavam voltando e que talvez fosse prudente passarmos um tempo fora de Nice. Mei ouviu em silêncio, os braços cruzados, o olhar atento. Perguntou apenas se estaríamos seguras. Respondi que sim. Ela assentiu devagar, como quem aceita algo que não controla, mas confia. Mei saiu do escritório sem dizer nada, fechando a porta com cuidado. Fiquei ali por alguns instantes, ouvindo apenas o crepitar baixo da lareira e o vento frio vindo do mar, que fazia as janelas vibrarem levemente. Do corredor, passos pequenos cruzaram o tapete grosso. Larah surgiu, ainda segurando a boneca contra o peito. Os cabelos loiros estavam um pouco bagunçados; o rosto, quente demais para uma manhã tão nublada. Aproximou-se sem pressa. Seus olhos azuis — mais atentos do que eu gostaria — carregavam perguntas. Por que o mar faz barulho à noite? Por que as gaivotas brigam no céu? Depois, olhou para mim e perguntou, à sua maneira, por que eu viajava tanto. Não respondi de imediato. A casa estava aquecida, protegida, mas aquela pergunta atravessava os muros com facilidade demais. Ajoelhei-me diante dela e toquei sua mão pequena. Mesmo sem compreender o mundo, Larah já percebia quando algo nele parecia deslocado. Abracei-a. Conversamos por um tempo que não sei medir. Nos dias seguintes, Mei preparava discretamente a ceia de Natal. Alguns pratos simples, uma mesa arrumada com cuidado, pequenas luzes acesas na sala ao cair da noite. Não era uma data que eu comemorasse, mas havia uma criança em casa, e isso mudava o peso das coisas. Larah observava tudo com curiosidade, esperava presentes. Mei falava do Papai Noel com delicadeza, adaptando uma tradição estrangeira à nossa própria lógica. Teríamos uma noite familiar — breve, silenciosa — antes que o ano terminasse e decisões maiores nos alcançassem. Janeiro chegou frio em Nice. As manhãs eram úmidas, com o céu baixo e um vento cortante vindo do mar. Os documentos de Larah estavam prontos havia tempo; o resto foi resolvido com praticidade. Mei aceitou a viagem sem resistência. Para Larah, era simples: veríamos outro mar, outra areia, outras gaivotas. Ela repetia a palavra Brasil com curiosidade, como se fosse um brinquedo novo. Partimos numa manhã cinzenta. O carro deslizou pelos portões da mansão, e Nice ficou para trás envolta numa névoa leve. Julien nos acompanhava, discreto como sempre. No avião, Larah sentou-se entre Mei e eu, alternando o olhar entre a janela e nossas mãos. Em certo momento, perguntou se o mar do outro lado do mundo também fazia barulho à noite. Respondi que sim — mas que cada mar tem seu próprio idioma. Ela pareceu satisfeita. Mei sorriu. Foi a primeira vez que viajamos os três juntos, e isso alterou o peso do trajeto. Chegamos ao Brasil sob um calor que contrastava com tudo o que havíamos deixado. O ar era mais denso, salgado de outro modo, e a luz tinha uma intensidade quase indecente. Florianópolis nos recebeu sem cerimônia. A casa ficava próxima ao Campeche, afastada o suficiente para garantir silêncio, simples o bastante para não atrair atenção. Naquela mesma tarde, Larah correu descalça pela areia pela primeira vez, rindo quando a água fria tocou seus pés. Mei observava em silêncio, como quem decide guardar aquele instante para sempre. Fiquei poucos dias. O suficiente para garantir que tudo estivesse no lugar, que Mei se sentisse segura, que Larah associasse aquele novo espaço a algo leve. Para ela, era apenas uma viagem longa com o pai. Para mim, era outra coisa. Na manhã da despedida, Larah me abraçou sem saber por quanto tempo. Disse que me mostraria as conchas que encontrasse quando eu voltasse. Assenti. Sempre assinto. Quando parti, levei comigo apenas o que nunca consegui deixar para trás: a certeza de que estavam protegidas.
#Parte 9 – Sombras de Constantinopla
Escrevo agora, 11 de abril de 2001, sentado à escrivaninha da suíte no Çırağan Palace, com o Bósforo brilhando além da janela. Istambul me recebeu hoje, e a cidade é um caos que respira — tão antiga quanto os impérios que a ergueram. Cheguei em meu jato ao Aeroporto Atatürk por volta do meio-dia, e o ar me envolveu de imediato: uma mistura de sal marítimo do Bósforo, cominho tostado das barracas de rua e um toque doce de tabaco, como se Istambul fumasse seu próprio narguilé. A limusine, preta e silenciosa, aguardava na pista. Enquanto deslizávamos por Sultanahmet, as cúpulas da Mesquita Azul surgiram contra o céu de fim de tarde, curvas suaves emolduradas pelo frenesi da cidade. As ruas são estreitas, quase claustrofóbicas, com lojas tão próximas que parecem se fundir — um labirinto de cores onde vozes em turco ecoam como uma sinfonia desordenada. Pedi ao motorista uma parada estratégica no Grande Bazar antes de seguir para Beşiktaş. Encontrei Julien Moreau sob a luz filtrada de uma loja de lanternas otomanas. Ele me entregou o catálogo do leilão de amanhã; havia um item ali — um selo bizantino — que eu não permitiria que caísse em mãos erradas. Trocamos informações enquanto fingíamos examinar tapetes de seda. De volta à limusine, a cidade continuou seu assalto aos sentidos. As vielas de Beyoğlu, com pedras polidas pelo tempo, gemem sob carrinhos de simit, pães redondos cobertos de gergelim tostado, cujo cheiro quente parece impregnado nas paredes. Buzinas de táxis amarelos formam um coro desajeitado, disputando espaço com carroças puxadas por cavalos magros, seus cascos batendo como tambores. Acima, os minaretes lançam o ezan, o chamado à oração, e sua melodia paira sobre o barulho — um véu escuro que hipnotiza. É um lembrete constante de que Istambul vive entre mundos: o sagrado e o profano, o antigo e o moderno, o oriente e o ocidente. O Bósforo trouxe alívio ao caos. Ao chegar a Beşiktaş, a brisa do mar soprou fresca e salgada, com um leve toque de algas e diesel dos barcos que cruzam entre continentes. O rio é mais que água; é a veia que pulsa entre a Europa e a Ásia, refletindo palácios e mesquitas em um mosaico de ouro líquido. Da janela da limusine, vi os yalı, mansões de madeira alinhadas como sentinelas, suas janelas brilhando com segredos antigos. As ondas batem suaves, mas firmes, como se o Bósforo declarasse ser o verdadeiro senhor da cidade. O Çırağan Palace Kempinski, meu destino, é um refúgio de opulência suspenso acima do tumulto. Sento-me agora em minha suíte, um fantasma cercado por mármore e seda. Por um instante, ao observar o reflexo das luzes no Bósforo, pensei em Larah, minha princesa de olhos azuis. A caneta corre sobre o papel, mas a cidade não me deixa em paz. Seu murmúrio infiltra-se pelas janelas, um convidado que não pede licença. Antes de me instalar, explorei o calçadão de Ortaköy, a poucos passos do hotel. O Bósforo lambe as pedras, e o cheiro de peixe grelhado sobe de churrasqueiras improvisadas. Barcos de madeira balançam, amarrados por cordas grossas, e o som de um saz, com suas notas tristes, flutua sobre a água. Por um instante, senti o peso dos séculos que Istambul carrega — de Bizâncio a Constantinopla, de sultões a mercadores, de conquistas a cruzadas. É uma cidade que não se explica. Apenas existe. E desafia quem tenta dominá-la. Abro a janela da suíte, e o chamado à oração retorna, agora mais suave, misturado ao ronco distante de um ferry. O Bósforo brilha como um espelho de prata sob a lua, e as luzes da cidade dançam na água. Santa Sofia, com sua cúpula imensa, parece vigiar Istambul, enquanto os minaretes de Süleymaniye cortam o horizonte como lanças. O aroma de chá de maçã, servido em copos delicados, ainda paira no ar, misturado a um leve traço de especiarias. Istambul respira comigo — cominho, sal, tabaco e o peso de mil histórias que nunca contarei.
Escrevo agora, de volta à suíte do Çırağan Palace, a caneta deslizando sobre o papel enquanto o Bósforo murmura além da janela, suas luzes tremeluzindo como brasas na noite. O relógio marca 22:30, e o silêncio da sala contrasta com o tumulto da memória. Acabo de retornar do restaurante, o corpo ainda quente do raki e da tensão do encontro. Às 18h, antes de tudo, entreguei-me ao hamam privativo – azulejos otomanos brilhando sob luz suave, o vapor carregado de rosa e sândalo, os ossos aquecidos pela sauna. Vesti um terno de lã italiana, cortado em Milão, e o Patek Philippe brilha discretamente no pulso. Esta noite, Shahra Marsh, meu melhor contato, cruzou meu caminho, e cada detalhe de suas palavras ainda ecoa. Lembro-me de chegar ao restaurante às 20h, a limusine deslizando poucos metros do saguão, parte do ritual. O salão reluzia com lustres de cristal, o Bósforo refletindo um tapete de diamantes. Sentei-me à mesa reservada, o couro da cadeira macio sob as mãos, e esperei. O ar trazia o aroma de kuzu tandır e o anis do raki. Às 21h, Shahra entrou, e o salão pareceu segurar a respiração. Era uma visão – cabelo loiro curto em camadas elegantes, vestido de seda negra caindo como sombra líquida, um colar de pérolas destacando a pele clara. Seu sorriso era uma lâmina, quente e calculado. Levantei-me, e ela me cumprimentou com a graça de quem domina Paris. “Cheng, que prazer”, disse, a voz suave com sotaque britânico. “Shahra, você está radiante”, respondi, puxando a cadeira. “E você, como sempre, impecável”, retrucou, os olhos verdes cravados nos meus.
O garçom trouxe o raki, e brindamos, o licor queimando a garganta. Pedimos kuzu tandır, o cordeiro desmanchando na boca, acompanhado de pilav com pistaches e pão lavash quente. Então, o diálogo começou: “O que você tem para mim, Cheng?”, perguntou, inclinando-se, o perfume de jasmim invadindo o espaço.
“Tenho um lote que fará as casas de leilão de Londres implorarem, Shahra”, disse, mantendo a voz baixa e o olhar fixo. “Esmeraldas otomanas que não deveriam existir e safiras Mughal que foram dadas como perdidas. O valor de face é de $12 milhões, mas para os seus clientes, o preço é a eternidade.”
Ela ergueu uma sobrancelha, girando o copo de raki. “Nada mal. E os lances?” “Você decide”, disse. “Mas Paris está faminta por peças assim.” Shahra sorriu, confiante. “Venderei como heranças impecáveis. Minha rede em Londres e Genebra vai adorar.” “Confio em você para isso”, retruquei. “Mas cuidado com os marchands curiosos.” “Curiosidade é para amadores”, ela disparou, os olhos brilhando. “Eu os desarmo com um sorriso e um cheque – que, claro, sempre se resolve.” Riu baixo, e senti o peso de sua audácia. “E se o cheque não se resolver?”, provoquei, testando-a. “Então invento uma história”, respondeu, inclinando-se mais. “Um atraso bancário, uma viagem urgente. Eles me entregam o que quero antes de checar.” O tom era leve, mas carregado de segredos. O kuzu tandır esfriava enquanto falávamos, e o garçom trouxe mais raki. Ela falou das intrigas do Ritz em Paris; eu respondi com o fumo e o sangue das rotas do leste que ela jamais teria coragem de pisar. Shahra Marsh era a face limpa dos meus negocios. “Você brinca com o fogo, Cheng”, ela murmurou, a mão roçando a minha sobre a toalha de linho. E você, Shahra, é o combustível, pensei, retirando a mão com a frieza de quem já decidiu o próximo movimento. A luxúria é um luxo que eu não podia me permitir naquele momento. A conversa fluiu, mas a barreira estava erguida. Istambul guarda seus segredos, e eu guardo os meus. Agora, sozinho na suíte, o papel acumula palavras. Shahra partiu às 22h, deixando o ar carregado de jasmim e promessas. O lote está nas mãos dela, e o próximo passo será em Paris. Escrevo capturando cada nuance, pois sei que esta noite moldará o que virá.
15 de abril de 2001
Dias se passaram desde minha última anotação. As negociações com Shahra Marsh avançaram como previsto — números ajustados, prazos redefinidos, nenhuma surpresa real. Ainda assim, minha atenção não estava ali. No início da noite, Mei ligou. Sua voz vinha calma, mas carregava aquele cuidado que ela só usa quando sabe que uma decisão importante já foi tomada por outros. Disse que a celebração havia sido simples, luminosa. Falou que Larah amou o diário. Depois, fez uma pausa breve, quase imperceptível, antes de dizer que eles aceitaram. A viagem começaria nos próximos dias. Agradeci. Disse apenas que tudo estava preparado. Após desligar, permaneci algum tempo em silêncio. Pensei que, em poucos dias, Larah estaria aqui.
21 de abril de 2001
Julien já havia estado com eles pela manhã. Confiei a ele o papel do convite para o encontro, ele saberia como conduzir a conversa da melhor forma. Eu tinha uma reunião crucial com investidores locais no escritório próximo ao Bósforo, perto do Parque Gülhane. Era parte das negociações para a modernização do Porto de Haydarpaşa, um projeto iniciado este ano para aumentar a capacidade de carga e integrar a Turquia às rotas comerciais da União Europeia, em meio às discussões de adesão à UE. Marcada para as 10:00, liderei as discussões, propondo ajustes nos contratos que garantiram lucros, enquanto Shahra, via teleconferência de Paris, sugeriu parcerias com joalheiros turcos para financiar a infraestrutura. O salão cheirava a café turco forte e couro das pastas, o som de canetas arranhando papéis misturando-se ao burburinho dos investidores. Minha mente, porém, divagava. Pensando em Larah. A reunião se estendeu até as 14:00.
Caminhei até o Parque Gülhane, chegando às 14:15 sob o perfume das tulipas. Observei-os de longe por alguns minutos antes de me revelar. Larah corria entre as flores, uma visão de vitalidade que eu não via a algum tempo. Quando nossos olhos se cruzaram, ela congelou por um segundo antes de explodir em um grito: “Papa!” — e veio correndo até mim. Eu a levantei, sentindo seu abraço. Com ela nos braços, caminhei até os Dubois, cumprimentei-os brevemente então pedi se nao se importavam de eu dar um volta com Larah. Fomos por um caminho de pedras. Eu e Larah conversamos muito, ouvindo-a falar sobre sua vida no Brasil — Florianópolis, as aulas de matemática e o sonho de ser piloto. Quando perguntou quando eu a buscaria, Ao inves de responder apenas perguntei. “Você é feliz lá, Larah?” . Ela respondeu sem hesitar “Sim, muito feliz,” os olhos azuis brilhando. Maktub. “Então este é o seu lugar por enquanto.”
Ao me despedir, sugeri o Palácio Topkapi; queria que ela visse a grandiosidade dos impérios. Caminhei até a limusine sob o aroma de kebabs, sentindo o olhar de Jacques em minhas costas.
A tarde foi um redemoinho. Shahra ligou antes da reunião, sua voz cortante pedindo atualizações sobre o lote do leilão – o colar otomano de esmeraldas, os brincos Mughal de safiras, o broche Lalique de rubi. Discutimos estratégias, e ela mencionou um comprador anônimo em Genebra interessado no colar. “Cuide dos detalhes,” disse, sentindo o peso da responsabilidade. Julien, ao meu lado no carro, manteve o silêncio típico, mas seus olhos varriam as ruas, sempre alertas.
Agora, sozinho na suíte, escrevo com a janela aberta, o Bósforo refletindo as luzes da cidade. O ar traz o perfume de jasmim dos jardins e o sal do mar. Penso em Larah, hoje senti isso mais do que nunca. Larah está segura e feliz, mas a saudade que ela expressou pesa em mim. Por agora, fecho este diário, o som do ezan ecoando, e me preparo para Paris, onde os negócios esperam – e os segredos persistem.
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#Diário de Cheng Yang
Parte 11 – Entre o Simit e o Silêncio
15 de abril de 2001
Dias se passaram desde minha última anotação.
As negociações com Shahra Marsh seguiram o curso esperado — números ajustados, prazos redefinidos, interesses alinhados. Tudo dentro do previsto. Ainda assim, percebi que escrevia menos. Não por falta de acontecimentos, mas porque minha atenção estava em outro lugar. No início da noite, Mei ligou. Reconheci o tom antes mesmo das palavras. Ela só fala daquela forma quando algo já foi decidido sem precisar ser reafirmado. Contou que a celebração havia sido simples, luminosa. Que a casa estava cheia, mas leve. Disse que Larah amou o diário — falou dele como se fosse um tesouro recém-descoberto. Depois, houve uma pausa curta. Pequena demais para ser hesitação, longa demais para ser casual. Eles aceitaram. A viagem começaria nos próximos dias. Agradeci. Conversamos um pouco mais. Após desligar, fiquei algum tempo em silêncio. Observei a cidade pela janela, os faróis se movendo como linhas vivas sobre o asfalto. Pensei que, em poucos dias, Larah estaria aqui.
21 de abril de 2001
Julien já havia estado com eles pela manhã. Confiei a ele o papel do convite para o encontro — ninguém saberia conduzir aquela aproximação com mais cuidado. Julien entende o valor do tempo e o peso das palavras. Eu tinha uma reunião marcada para as dez no escritório próximo ao Bósforo, proximo ao Parque Gülhane. O encontro fazia parte das negociações para a modernização do Porto de Haydarpaşa, um projeto sensível, cercado de interesses locais e olhares externos, especialmente agora, com as discussões iniciais sobre a aproximação da Turquia com a União Europeia. O salão cheirava a café turco forte e couro das pastas abertas sobre a mesa. Vozes se cruzavam em turco, inglês e francês. Canetas riscavam papéis com uma urgência quase mecânica. Conduzi a reunião com atenção suficiente para não levantar suspeitas, ajustando cláusulas, antecipando riscos. Ainda assim, minha mente se afastava com frequência. A reunião se estendeu até pouco depois das duas. Saí do prédio a pé. Caminhei em direção ao Parque Gülhane sem pressa, misturando-me aos turistas e aos moradores que aproveitavam a tarde de primavera. O ar estava carregado do perfume das tulipas e do cheiro quente de simit recém-assado, vendido em carrinhos de madeira ao longo do caminho. O som distante de um darbuka se misturava às vozes, ao canto dos pássaros, ao ruído constante da cidade. Entrei no parque às 14:15. Observei-os de longe por alguns minutos. Então a vi. Larah corria entre as flores, os cabelos loiros refletindo o sol, uma vitalidade que me atingiu como um golpe silencioso. Quando nossos olhares se cruzaram, ela parou por um segundo. Apenas um. Depois, correu. “Papa!” A palavra atravessou o parque com uma força que nenhum ruído conseguiu conter. Ajoelhei-me no tempo exato em que ela chegou e a levantei nos braços. O abraço veio forte, decidido, como se o corpo dela soubesse algo que a memória ainda organizava. Caminhei com ela até Jacques e Claire. Cumprimentei-os com poucas palavras, o suficiente para que não houvesse estranhamento, mas também sem abrir espaço para explicações longas. Pedi, com naturalidade, se poderia caminhar um pouco com Larah. Eles assentiram. Seguimos por um dos caminhos de pedra, sob a sombra das árvores antigas. Larah falou sem parar — sobre Florianópolis, sobre a escola, sobre as aulas de matemática, sobre o desejo de ser piloto. Eu a ouvi. Apenas ouvi. O mundo pode esperar quando uma criança fala. Em dado momento, ela perguntou quando eu a buscaria. Não respondi diretamente. Perguntei se ela era feliz. Ela respondeu sem hesitar. Disse que sim. Muito feliz. Os olhos azuis brilhavam com uma certeza que não precisava de reforço. Então disse apenas: “Então este é o seu lugar, por enquanto.” Maktub. Ao nos despedirmos, sugeri que visitassem o Palácio Topkapi. Queria que ela visse a dimensão dos impérios, o peso do tempo, a beleza do que permanece. Caminhei de volta até a limusine sob o aroma de kebabs assando nas ruas próximas. Senti o olhar de Jacques em minhas costas. Não virei. A tarde seguiu como um redemoinho. Shahra ligou, discutimos o lote do leilão — o colar otomano de esmeraldas, os brincos Mughal de safiras, o broche Lalique de rubi. Ela mencionou um comprador em Genebra. Julien permaneceu em silêncio ao meu lado, atento ao mundo. Agora, sozinho na suíte, escrevo com a janela aberta. O Bósforo reflete as luzes da cidade. O ar traz jasmim dos jardins e o sal do mar. Penso em Larah. Hoje senti isso mais do que nunca. Ela está segura. Está feliz. Ainda assim, a saudade pesa. Fecho este diário enquanto o ezan ecoa ao longe. Amanhã sigo para Paris. Os negócios continuam.